A Yamaha não quer simplesmente construir uma MotoGP mais rápida. O projeto descrito por Paolo Pavesio aos colegas da Motorsport.com Itália é bastante mais abrangente e parte da convicção de que, para voltar às vitórias, a marca de Iwata precisava antes de mais mudar a sua forma de trabalhar.
A passagem de testemunho de Lin Jarvis para Pavesio coincidiu, de facto, com uma profunda transformação da estrutura de competição. Uma parte cada vez maior do desenvolvimento técnico foi transferida para a Europa, aproveitando o centro italiano de Gerno di Lesmo e, sobretudo, as competências existentes no continente em áreas que se tornaram fundamentais na MotoGP moderna, desde a aerodinâmica à simulação, passando pela eletrónica. Uma direção que a Yamaha já tinha anunciado através do seu plano de reorganização e de uma colaboração cada vez mais estreita entre a estrutura europeia e a japonesa.
O símbolo mais evidente desta revolução continua a ser o motor V4. Depois de uma história construída em torno do motor de quatro cilindros em linha, a Yamaha decidiu seguir um caminho completamente novo, também a pensar na mudança regulamentar de 2027. O novo motor permitiu à M1 melhorar sobretudo na capacidade de transmitir a potência ao asfalto, mas o preço a pagar foi superior ao esperado: problemas de fiabilidade e um desempenho absoluto ainda distante das referências da categoria atrasaram o desenvolvimento. A própria Yamaha já tinha explicado que o V4 era uma escolha estratégica não apenas para o presente, mas também para se adaptar melhor às limitações aerodinâmicas da futura geração de MotoGP.
Pavesio não esconde, por isso, as dificuldades do presente, nem aquelas que marcaram a relação com Fabio Quartararo, que está de saída da Yamaha. Após alguns momentos de tensão, as partes dialogaram e o gestor italiano considera fundamental terminar a relação trabalhando em conjunto até à última corrida. A mensagem deixada por Pavesio é muito clara: «A frustração é humanamente compreensível, mas é um sentimento inútil.»
O futuro, no entanto, já tem nomes importantes. Em 2027 chegarão Jorge Martín e Ai Ogura, e para a Yamaha representam muito mais do que uma simples mudança de pilotos. Martín traz consigo a experiência e a velocidade de um campeão do mundo, além da vontade de abraçar um projeto que, neste momento, ainda não lhe pode garantir uma moto vencedora. Ogura acrescenta talento jovem e, inevitavelmente, um valor especial para um construtor japonês. Ainda assim, Pavesio sublinhou que a nacionalidade não foi determinante na escolha: o valor desportivo do piloto esteve sempre em primeiro lugar.
Também Toprak Razgatlioglu faz parte desta fase de transição. Pavesio continua a acreditar no talento do piloto turco, mas considera que este ainda precisa de se adaptar totalmente ao método de trabalho da MotoGP, onde a performance de domingo começa a ser construída logo na primeira saída para a pista na sexta-feira. A mudança para os pneus Pirelli em 2027 poderá ajudá-lo, mas a Yamaha não quer que Toprak fique simplesmente à espera dessa alteração: esta temporada deve servir sobretudo para completar o seu processo de aprendizagem.
E precisamente 2027 será um ano crucial. A futura moto de 850cc já está em fase de desenvolvimento e, segundo Pavesio, parece ter recuperado uma das características historicamente associadas às melhores Yamaha: a capacidade de fechar a trajetória em curva. Mas esse será sobretudo o ano de juntar todas as peças do novo projeto. O verdadeiro objetivo está colocado um pouco mais à frente:
«A nossa trajetória é estar plenamente competitivos em 2028.»
O plano, além disso, não se limita à MotoGP. A Yamaha está a trabalhar para relançar a sua presença no Mundial de Superbike e, a partir de 2028, estará envolvida no novo projeto da Moto3, pensado também como laboratório para jovens engenheiros e como base de uma pirâmide internacional para o desenvolvimento de pilotos. Um projeto desenvolvido igualmente em Itália, com uma equipa composta em parte por técnicos muito jovens.
Na visão de Pavesio há ainda espaço para o futuro da MotoGP sob a gestão da Liberty Media. A Yamaha observa com interesse o modelo que transformou a Fórmula 1 num negócio mais sustentável, mas sem querer descaracterizar as corridas de motos. O desafio, segundo o dirigente italiano, passa por aumentar o valor comercial do campeonato mantendo no centro os pilotos, as motos e aquele elemento de risco e espetáculo que torna a MotoGP profundamente diferente da Fórmula 1.
O quadro que emerge é, portanto, o de uma Yamaha consciente de que ainda está longe da posição que considera ser a sua, mas também disposta a questionar muitas das fórmulas que a tornaram vencedora no passado. O motor V4, a crescente importância da estrutura europeia, o novo projeto de 850cc, a chegada de Martín e Ogura e os investimentos nas categorias de formação fazem todos parte do mesmo plano.
O ano de 2027 terá de demonstrar que as bases são as corretas. Já em 2028, para Pavesio, os progressos por si só não serão suficientes: a Yamaha terá de voltar a lutar pelas vitórias.
















