Porque, embora reconheça estar a sentir mais dificuldades do que o esperado com a nova Ducati Panigale V4, Álvaro Bautista também não esconde o que pensa da regulamentação que introduziu lastro para os pilotos mais leves. E as suas palavras são particularmente diretas.
A temporada de 2026 está longe de ser tranquila para o piloto espanhol. Entre os testes complicados em Phillip Island e uma moto que não se adapta totalmente à sua constituição física, Bautista admite atravessar um período difícil.
«Sinceramente, estou a ter mais dificuldades do que esperava», afirmou ao GPone, antes de acrescentar: «Ainda não consigo pilotar como gostaria. Estamos a trabalhar nisso porque, entre todos os pilotos Ducati, sou provavelmente aquele que está a ter mais dificuldades. A minha constituição física é diferente da dos outros e talvez seja necessário rever alguns aspetos da moto.»
O diagnóstico é claro: a nova Panigale V4 foi desenvolvida a pensar em pilotos mais altos e pesados, nomeadamente Nicolò Bulega.
«Penso que este novo modelo foi desenvolvido principalmente seguindo as indicações de Nicolò Bulega, que era o piloto escolhido para dar continuidade ao projeto, e talvez também as de Petrucci.»
Uma situação que acaba por ser o oposto daquela que encontrou quando chegou à Ducati em 2019.
«Na altura, eram os pilotos mais pesados que mais sofriam. Lembro-me bem das dificuldades do Chaz Davies. Agora tenho a sensação de que acontece exatamente o contrário.»
Apesar das dificuldades e dos seus 41 anos, Bautista não pensa em retirar-se.
«Porque não? Porque haveria de ficar em casa? Sinto-me bem, continuo a divertir-me e adoro pilotar.»
O espanhol garante que continua motivado tanto física como mentalmente.
«Não sou alguém que corre apenas por correr. Corro porque acredito que ainda posso estar no topo e porque ainda tenho coisas para provar.»
O seu objetivo mantém-se inalterado: voltar a ser competitivo antes de decidir o que fazer no futuro.
Parte da entrevista centrou-se no domínio atual de Nicolò Bulega. Bautista não teve qualquer problema em reconhecer o excelente momento do seu compatriota.
«Estou um pouco desapontado por praticamente não existirem rivais para a vitória este ano.»
No entanto, aproveitou para recordar uma realidade frequentemente esquecida quando se fala da sua própria fase dominante.
«Eu não ganhei de forma dominante como o Toprak ou o Bulega. Ganhei o campeonato do mundo na última corrida.»
E acrescentou:
«O Toprak conquistou o primeiro título com várias corridas de antecedência. Não foi como se eu tivesse vencido sem qualquer oposição.»
Ou seja, Bautista considera que a história foi, em certa medida, reescrita. Na sua opinião, o seu domínio nunca foi tão esmagador como alguns fizeram parecer para justificar determinadas alterações regulamentares.
É precisamente sobre o lastro obrigatório para os pilotos mais leves que Bautista se mostra mais crítico.
«Não é culpa minha. Acho injusto, porque todos os pilotos mais leves têm problemas com este tipo de regulamentação.»
Depois, deixou a frase que resume completamente a sua posição:
«Para mim, é uma regra que nunca deveria ter existido.»
O espanhol acredita que a medida foi criada apenas porque estava a ganhar demasiadas corridas.
«É evidente que foi introduzida por uma razão: eu estava a ganhar.»
Segundo Bautista, os responsáveis não analisaram devidamente as consequências técnicas da decisão.
«Onde eu já tinha mais dificuldades era nas curvas: travar, gerir a inércia. E agora esses problemas tornaram-se ainda maiores.»
Mas a reflexão de Bautista vai além do seu caso pessoal.
«Também penso no futuro. Se surgir um jovem piloto de baixa estatura, primeiro vai pensar duas vezes antes de vir, porque sabe que terá de carregar peso adicional.»
E acrescentou:
«Nenhum construtor quer escolher um piloto que tenha de competir com peso extra.»
O antigo piloto de MotoGP levanta assim uma questão raramente discutida: uma regra criada para promover maior equilíbrio pode acabar por afastar uma categoria inteira de pilotos do WorldSBK.
A sua conclusão é clara:
«Nem Valentino Rossi, que conquistou muitos títulos, nem Marc Márquez tiveram uma regra específica criada contra eles.»
Esta frase resume o sentimento de injustiça que continua a acompanhar Bautista. O espanhol não contesta a necessidade de regulamentar o campeonato, mas considera que se tornou um dos poucos campeões do mundo cujos sucessos levaram diretamente à criação de uma regra que afeta precisamente as suas características físicas.
No fundo, esta entrevista mostra que Álvaro Bautista não é um piloto em declínio a preparar a reforma. Continua a ser um bicampeão mundial convencido de que ainda pode vencer, certo de que continua a ter lugar ao mais alto nível e totalmente contrário à ideia de que a sua história no WorldSBK possa ser reduzida a uma vantagem de peso ou a uma Ducati demasiado competitiva. E, ao que tudo indica, ainda tem algumas contas por acertar com aqueles que contam essa história de forma diferente.
















