Esta semana convidamos a uma escapadinha pela Beira Baixa Interior e Serra da Estrela. Neste Roteiro, vamos convidar-vos a passear e conhecer Aldeia de Monsanto, Penha Garcia, Unhais da Serra, Torre, Covilhã, Sortelha e Penamacor.
Por Rui Pessoa
A ideia é não ir com a multidão, fugir à tendência, experimentar a alternativa.
Para quê aceitar a confusão do costume quando podemos aventurar-nos na novidade? Vamos para a planície entre as serras, sentir o calor junto à fronteira, contemplar a paisagem e provar o que há de melhor no País.
Região da Cova da Beira
A Cova da Beira está localizada na região do Centro (Região das Beiras) e do distrito de Castelo Branco. Limita a norte com as sub-regiões da Serra da Estrela e da Beira Interior Norte, a leste com a Beira Interior Sul, a sul com a Beira Interior Sul e com o Pinhal Interior Sul e a oeste com o Pinhal Interior Norte. A Cova da Beira tem características únicas a vários níveis, começando logo pelo relevo.

A região central deste território relativamente plano e situado a uma altitude razoável é rodeada por serras, com destaque para as serras da Estrela, da Malcata e da Gardunha – daí advém o nome de Cova da Beira, uma vez que se forma uma espécie de caldeira muito extensa e quase plana. Elegemos nesta escapadinha a Aldeia de Monsanto como ponto de partida e de chegada para este roteiro de duas noites: vão ser cerca de 230km, por aldeias, vilas, paisagens muitas delas de cortar a respiração.
Monsanto (Coord. GPS 40.03660, -7.11394)

Monsanto situa-se a nordeste das Terras de Idanha, aninhada na encosta de uma elevação escarpada – o Cabeço de Monsanto (Mons Sanctus) – que irrompe abruptamente na campina, uma “ilha” de gigantes de granito que aflorou na planície que marca a geografia da região, e que, no seu ponto mais elevado, atinge os 758 metros de altitude.
Pelas várias vertentes da encosta e no sopé do monte, existem lugarejos dispersos, atestando a deslocação populacional em direcção à planície.
Monsanto, uma aldeia portuguesa
Sabia que foi considerada a ” Aldeia mais Portuguesa” de Portugal, em 1938, na vigência do regime Estado Novo?

A réplica do Galo de Prata na Torre de Lucano (ou do Relógio) é uma evidência do passado desse concurso, organizado e desenvolvido pelo Secretariado de Propaganda Nacional (SPN), liderado por António Ferro. Este organismo tinha como objectivo a promoção da coesão nacional e do restauro das tradições, através de concursos, discursos e guias de viagem.

Através dos conceitos centrais – popular, o povo, a aldeia e a tradição – o Estado Novo (1933-1974) procurava instituir um universo simbólico que facilitasse a imposição da ideologia do Salazarismo: a construção de uma identidade nacional.
Uma longa história, a deste “Monte santo” que fica no topo de uma elevação com 758 metros de altitude, na Beira Baixa Interior.

Monsanto é um lugar mágico onde os penedos têm nome e as casas têm penedos. As gentes deram identidade a estes gigantes inertes, como se de um ser animado de espírito se tratasse, e integraram-nos na vida quotidiana. Por isso, humano e natural estão juntos, e são próximos.
Nesta aldeia única no mundo, homem e natureza vivem em harmonia. No meio de blocos colossais de granito, o povo ergueu paredes da mesma pedra e construiu lares, em simbiose com o meio natural. Há um equilíbrio, periclitante e extraordinário, duma existência simples e genuína entre penedos boçais que desafiam a lei da gravidade.

D. Afonso Henriques conquista Monsanto aos Mouros e em 1165 faz a sua doação à Ordem dos Templários, que sob as ordens de Gualdim Pais, mandou edificar o Castelo. Por aqui passaram romanos, visigodos, árabes, aos quais D. Afonso Henriques tomou a povoação e a entregou aos Templários que no ponto mais alto construíram uma cerca com uma torre de menagem e o castelo, para aumentar as defesas do local, classificado de Monumento Nacional em 1948 por corresponder a um exemplar de arquitetura militar do período medieval, juntamente com as suas muralhas.

A parte mais antiga está no ponto mais alto, onde os templários construíram uma cerca com uma torre de menagem. Uma vez na parte alta, e atravessando a Porta da Traição, não deixe de subir e passear pelas muralhas do castelo de Monsanto dentro das quais estão as ruinas da torre de Menagem, da capela de Santa Maria do Castelo, e a imprescindível Cisterna. Do alto do Castelo, a 758 metros de altitude, a paisagem é um dislumbrede.

O casario singular aninhado numa encosta plantada de barrocos de granito, a, avista-se a planície beirã até Espanha, as Serras da Estrela, da Gardunha e da Malcata.

À porta do café Monsantino resistem os Bancos da Paciência e por perto o consultório onde Fernando Namora exerceu a profissão de médico aquando da sua passagem pela aldeia. Aliás foi Monsanto que inspirou a sua obra “Retalhos da Vida de um Médico”, e poderá encontrar a casa onde este habitou, na rua Fernando Namora.

Em 1995, Monsanto foi integrada na rede das 12 Aldeias Históricas.
A Aldeia dos Flinstones portuguesa está à sua espera para lhe revelar segredos que bem podia ser da Idade da Pedra.
Penha Garcia (Coord. GPS 40.04295, -7.01586)

As suas origens perdem-se no tempo. Foi sede de município desde o século XIII e couto de homiziados a pedido do Infante D. Henrique até finais do século XVIII. D. Afonso III concedeu-lhe carta de Foral em 1256 e D. Manuel em 1510. D. Dinis doou a vila com o seu castelo aos Cavaleiros do Templo e com a sua extinção passou para a Ordem de Cristo.
Construído, possivelmente, no reinado de D. Sancho I para ajudar a proteger a fronteira portuguesa das investidas de Leão, o castelo de Penha Garcia foi doado por D. Dinis aos Templários mais de cem anos depois, regressando à posse da coroa no século XVI, com a extinção das ordens.
A povoação realenga de Penha Garcia recebeu primeiro foral de D. Afonso III, dado em 1256, seguindo o modelo de Penamacor. Em 1303, D. Dinis fez doação da mesma à Ordem do Templo, por cuja extinção passou a constituir comenda da Ordem de Cristo.
Teve foral novo, dado por D. Manuel, em 1510. Foi sede de concelho até 1836, data na qual foi integrada em Idanha-a-Nova, da qual é actual freguesia. Conserva ainda um pelourinho, bastante tardio em relação aos forais, visto ter sido erguido em 1557 – 1558, no reinado de D. Sebastião.
As ruas sinuosas e íngremes apresentam muitos exemplares interessantes da arquitetura tradicional da aldeia, com casas construídas na pedra ruiva da região, o quartzito, algumas com pormenores bem interessantes, como os balcões e os lintéis das portas e janelas. Ao cimo da encosta, a Igreja Matriz de meados do século XX, mantém alguns elementos de uma estrutura anterior, com especial destaque para a grande pia batismal que se encontra no adro.
As ruas sinuosas e íngremes apresentam muitos exemplares interessantes da arquitetura tradicional da aldeia, com casas construídas na pedra ruiva da região, o quartzito, algumas com pormenores bem interessantes, como os balcões e os lintéis das portas e janelas.

No centro da aldeia permanece o Pelourinho, datado do reinado de D. Sebastião, com capitel de recorte jónico, com as armas nacionais e com cinco flores de lis, assinado pelos seus autores: Estevam Simão e Domingos Fernandes. O pelourinho ergue-se na praça central da freguesia, sobre plataforma de quatro degraus quadrangulares de aresta, ficando os dois primeiros parcialmente enterrados, de forma a vencer o acentuado desnível do pavimento.
A coluna assenta directamente no último degrau, sendo composta por um fuste cilíndrico e liso, rematado por fino astrágalo, e coroado por capitel fantasiado, com troço inferior liso, encimado por volutas jónicas. No capitel destacam-se dois escudos de tipo francês, um deles régio, com a inscrição R SEBASTIAO I, e outro decorado com cinco flores-de-lis, e ainda uma legenda, onde se lê VARIATES. ESTEVÃO. SIMÃO, e E . DÕS. FRZ.
O topo do capitel forma um tabuleiro, onde assenta o remate. Este é constituído por uma torrinha cilíndrica, terminada em pináculo formado por três troncos cónicos decrescentes, sobrepostos. Aqui se crava a grimpa, em ferro, com uma esfera armilar esquemática, uma cruz, e vestígios de uma bandeirola de catavento.
As inscrições do capitel referem-se ao reinado de D. Sebastião I, quando o monumento terá sido construído, e aos seus autores, Estêvão Simão e Domingos Fernandez (ou Fernandes). A expressão variates, colocada antes dos seus nomes, poderá ainda indicar que o monumento foi alterado, caso em que os nomes citados seriam talvez não dos escultores originais, mas sim daqueles que lhe introduziram as eventuais alterações.
Ao cimo da encosta, a Igreja Matriz de meados do século XX, mantém alguns elementos de uma estrutura anterior, com especial destaque para a grande pia batismal que se encontra no adro.

Mais acima encontra-se o Castelo Templário, no cimo de uma encosta, de onde se pode apreciar uma paisagem inesquecível, com vista privilegiada sobre o profundo recorte do vale do Ponsul, onde estão os moinhos de rodízios outrora o maior conjunto de todo o concelho. Este geomonumento preserva inúmeros vestígios do que foi a vida neste lugar há 480 milhões de anos, quando estas cristas quartzíticas eram um imenso mar. Tempos em que a região estava próxima do Pólo Sul e reinavam trilobites e seus predadores, num impressionante mundo de biodiversidade aquático. Hoje é o “berço” do Geopark Naturtejo, o 1º português, da Rede Mundial de Geoparques da UNESCO.
O castelo situa-se na encosta sul da Serra de Penha Garcia, sobranceiro ao Rio Ponsul, onde existe também uma barragem, oásis de frescura nas tardes quentes de verão.
Conquistada pelo rei de Portugal em 1220, a localidade de Penha Garcia foi sede de concelho até ao século XIX. O que hoje temos à vista nas ruínas do seu castelo é digno de visita e ainda evidencia a importância da terra ao longo dos séculos. A sua posição privilegiada de defesa terá sido um dos motivos da fixação neste lugar de um povoado neolítico, mais tarde transformado num castro lusitano e, depois, numa povoação romana.
Vale a pena subir ao cimo da penha para percorrer as imponentes muralhas e observar a magnífica paisagem que rodeia a povoação.

As pedras contam-nos a lenda de que, naquele lugar, vagueia ainda o fantasma do antigo alcaide do castelo, D. Garcia. Depois de raptar a filha do governador de Monsanto, D. Branca, o nobre terá sido capturado e condenado à morte. Mas os apelos de D. Branca por misericórdia, valeram-lhe a redução da pena. Condenado a ficar sem um braço, D. Garcia é ainda hoje conhecido por “o decepado”.
Penha Garcia guia o visitante pelos horizontes de fronteira. Do alto da sua majestade, é um miradouro impressivo das paisagens do interior profundo de Portugal. A Vortex Magazine escreve que “localizada no concelho de Idanha-a-Nova ao longo de uma grande encosta, a aldeia de Penha Garcia é dominada por casas brancas e de pedra e, mais acima, por um castelo com vista privilegiada e uma paisagem impressionante para o vale do Ponsul.

Descendo em direção ao rio, encontra-se a Rota dos Fósseis que leva a descobrir como era a vida naquele lugar há 600 milhões de anos. Tudo isto numa aldeia com 800 habitantes, que se tornou num lugar especial a explorar com as marcas que a história e a natureza foram deixando para trás”.
Seguimos neste Roteiro para Unhais da Serra (Coord. GPS 40.28497, -7.59175)

Aqui vamos entrar numa paisagem ímpar, o parque natural da Serra da Estrela. O maciço da Serra da Estrela é muito mais que um conjunto de belos cenários de montanha. Os vales glaciários da Serra são paisagens únicas no país, de uma beleza inigualável.

Os Vales Glaciários do Zêzere, de Alforfa, de Loriga, do Covão Grande e do Covão do Urso foram originados há 20.000 anos, quando a placa de gelo que cobria o planalto onde hoje se situa a Torre se foi danificando com o aumento das temperaturas atmosféricas.

As placas de gelo que derreteram deslizaram para altitudes mais baixas, arrastando blocos graníticos e formando vales à sua passagem. Os vestígios desta obra natural, grandiosos vales em U com rochas polidas, blocos erráticos e depósitos de moreias, permanecem intocados há milhares de anos. Deixe-se deslumbrar por estas excepcionais maravilhas da natureza e percorra a Rota dos Glaciares, trilhando os mesmos caminhos que o gelo percorreu.
A Vila de Unhais da Serra, situa-se na base da vertente Sudoeste da Serra da Estrela, num vale de origem glaciar, onde corre a ribeira de Unhais que resulta da confluência das ribeiras da Estrela e da Alforfa

Chamada por uns “A Pérola da Beira” por outros a “Sintra da Covilhã”, a 23 Km da sua sede de concelho, encontra-se situada num vale cavado nos granitos da Estrela por glaciares, inicia-se no planalto da Torre aos 1991 metros de altitude, vendo o seu desfecho a uma altitude de 500 metros no lugar das Taliscas.
O seu povoamento, embora a documentação não seja abundante, remonta a épocas proto e pré-históricas. Procedendo ao aproveitamento das alcantiladas penedias que envolvem o melhor da freguesia – o seu fértil vale, as mais antigas populações aqui terão construído um primitivo castro, o qual certamente terá sido romanizado.
O próprio topónimo Unhais significa povoação velha por excelência. E o acondicionamento espacial da freguesia poderá mesmo estar na origem da persistência toponímica. Escondida entre as grandes dobras da Serra da Estrela, seria natural que aqui se conservasse sempre população.
Um vale fértil, onde se encontram variadas nascentes de águas termais, favorecendo a comodidade fixacional, viria a ser explorado aquando da chegada da civilização romana à Península Ibérica. Muito afamada é a Estância Termal e Climática situada a Norte da vila, cujas águas correm a 36.000 litros/hora com uma temperatura de 37º, de natureza sulfúrica sódica, indicadas para doenças dos aparelhos circulatório e respiratório, para o reumatismo e doenças de pele.

A Lenda de Unhais da Serra Certo dia, andando à caça pela Serra da Estrela, um jovem nobre, perdeu-se no entusiasmo da caçada. Após muito tempo perdido, chegou o cansaço e a fome que o levou até perto do local onde hoje está situada “Unhais da Serra”. Aqui encontrou um pastor que o vendo com fome, lhe deu leite do seu rebanho e foi à ribeira e com as suas grandes “unhas”, apanhou uma ou mais trutas para o jovem senhor. O Nobre, ficou admirado pela facilidade com que o pastor apanhou as trutas com as “unhas”, e chamou ao local “Unhas da Serra” ou “Unhais da Serra”.
De Unhais da Serra subimos pela Nave de Santo António, onde a estrada exigente, com curvas apertadas e uma parte sem estar asfaltada, mas que com calma se percorre sem perigo, e que nos leva a uma paisagem deslumbrante do Vale Glaciar De Alforfa
Vale Galciar de Alforfa (Coor. GPS 40.285549, -7.591897)

Situado na projeção oposta do Vale Glaciário de Manteigas, este foi originado por um glaciar que atingiu os 5,5 km de comprimento e se dissolveu a uma altitude de 800 m.
A sua maior exposição solar em relação ao vale oposto justifica esta diferença de altitude no termino do glaciar (120 m). No entanto, este é o vale onde melhor se podem observar os terraços de acumulação proglaciária, acumulações desordenadas de rochas e blocos de grandes dimensões localizados à frente das antigas línguas glaciárias.

Os depósitos mais importantes situam-se a jusante da confluência do Vale da Estrela e do Vale de Alforfa, na junção da Ribeira das Cortes. O vale de Alforfa é aquele onde melhor pode observar as acumulações de rochas e blocos de dimensões colossais provocados pelo degelo, que nos indicam onde se situavam as línguas glaciárias ancestrais.

Já estamos em plena Serra da Estrela, e antes de chegarmos ao seu topo, a Torre, temos que obrigatoriamente parar na Nossa Senhora da Boa Estrela (Coord. GPS 40.32257, -7.60286)

Nossa Senhora da Boa Estrela, o Santuário mais enigmático de Portugal. Quem visita a Serra da Estrela já se deparou e interrogou com a origem e a história deste curioso Santuário. Falamos da Nossa Senhora da Boa Estrela. Nem todos sabem que existe esta grandiosa imagem esculpida na pedra. Mas ao deparmos com a sua grandiosidade perguntamos como apareceu ali…. É uma pergunta que todos fazem.
Não são muitas as informações disponíveis, mas falamos nem mais nem menos do Altar de Nossa Senhora da Boa Estrela. Esta Santa é a guia e protectora dos pastores. Situada no Covão do Boi, em plena Serra da Estrela, encontra-se esculpida em baixo relevo, na rocha, a Senhora da Boa Estrela, padroeira dos Pastores, inaugurada em 1946. O autor desta escultura foi o padre António Duarte. Mas porque um pároco haveria de ter a ideia de esculpir uma santa num ponto tão alto?
A ideia é de facto bem pensada, ou seja, este pároco começou a reparar que haviam imensas pessoas que se deslocavam à Serra em passeio sem nunca faltar, claro, a subida ao ponto mais alto, a Torre. Então o pároco achou que de facto não havia melhor local para esculpir a Nossa Senhora da Boa Estrela. Para lhe fazer a devida homenagem porque um Santuário neste local seria visto por muita gente todos os anos. E não se enganou…

Conta-se que Nossa Senhora da Boa Estrela apareceu na serra a um pastor sendo por isso a protectora dos pastores que, como é sabido, há centenas de anos que enfrentam o tempo agreste vivido no Inverno nesta região.
Lenda do Pastor da Serra da Estrela
Era uma vez um pastor que vivia com o seu rebanho numa alta serra do centro de Portugal.
Como todos os pastores, fazia da solidão uma amiga. A companhia da natureza e dos animais bastavam-lhe. Há muito tempo que tinha trocado a aldeia pelos altos e grandes prados, onde sempre se tinha sentido melhor. De dia, corria e brincava com os animais e, quando já estava cansado, então via apenas. Observava a vastidão e o colorido de uma paisagem sempre a mudar. Já lhe conhecia bem as maneiras, os sons e os cheiros.
E à noite, recolhido o rebanho ainda lhe sobrava tempo para falar de tudo o que lhe apetecia com a sua grande amiga.
Era mesmo grande aquela estrela que se erguia imponente e luminosa bem acima do alto da serra, rodeada por milhares de outras mais pequenas. Era a sua confidente de todas as noites. Ouvia-o sem nunca se aborrecer. E ele voltava sempre à procura daqueles momentos mágicos em que encontrava paz e entusiasmo para recomeçar um novo dia.

Certa vez, chegou aos ouvidos do Rei que nas suas terras havia um pastor que falava com as estrelas e logo, por curiosidade ou inveja, o mandou chamar à sua presença, propondo-lhe que trocasse a estrela falante por uma grande riqueza. Afinal de contas, não era qualquer rei que se podia gabar de falar com uma estrela. O pastor disse-lhe então que não trocaria a sua amiga por riqueza alguma deste mundo.
Antes ser pobre e continuar feliz. Desapontado, mas compreendendo as suas razões, o rei, mandou-o em paz. Quando chegou à cabana no alto da serra, mal anoiteceu, foi ter com a sua amiga estrela e, dessa vez, foi ela a confessar-lhe os seus receios. Entoando uma doce melodia, disse-lhe que, por momentos, chegou a pensar que ele a tivesse trocado pelo dinheiro do poderoso rei.
Foi a vez do pastor a sossegar, dizendo-lhe que a sua amizade era para ele a mais preciosa das coisas e, em alta e profética voz, deu o seu nome àquela que era também a sua serra: Serra da Estrela. Ainda hoje se diz que na Serra, uma estrela diferente das outras brilha à procura do seu pastor.
Com uma altitude máxima de 1993 metros na Torre, a Serra da Estrela é uma zona de rara beleza paisagística com desníveis montanhosos impressionantes onde podemos viver intensamente o silêncio das alturas. E aproveitar esses momentos de comunhão com a natureza para observá-la, reparando na variedade da vegetação, nas aves ou nos rebanhos de ovelhas guiados por cães da raça a que a Serra deu nome.
A paisagem diversificada dos nove municípios em torno da Serra da Estrela – Belmonte, Celorico da Beira, Covilhã, Fornos de Algodres, Gouveia, Guarda, Manteigas, Oliveira do Hospital e Seia – constituem desde 2020 o Geopark Estrela, reconhecido pela UNESCO pelo seu valor geológico. Mais um bom pretexto para fazer este roteiro.
Ir à Serra da estrela e não ir à Torre?
Torre (Coord. GPS 40.321906, -7.613360)

Este é o local onde um edifício, localizado no topo da imensa Serra, simboliza o ponto mais alto de Portugal Continental. Elevada a 1993 metros encontramos no centro de uma rotunda situa-se um monumento simbólico da “Torre”, existindo também um marco geodésico que assinala o ponto mais elevado desta Serra. Torre de 7 metros que alegadamente completa os 2000 metros de altura da Serra da Estrela.

Deste tremendo miradouro consegue-se um panorama brutal sobre toda esta paisagem de vales e rochedos, num mesclado de xisto e granito serpenteado pelo azul dos cursos de água. De Verão, em dias claros, é possível até ver o mar, podendo a vista alcançar a praia da Figueira da Foz.
Diz-se que já o Rei D. João VI (1816-1826) teria mandado erigir aqui um monumento em pedra, de modo a completar a altitude da Serra até chegar aos 2000 metros de altura.

Alguns pontos turísticos encontram-se instalados no edifício da Torre à disposição de quem visita este esplêndido local. Falamos de lojas que oferecem produtos regionais, como o famoso Queijo da Serra, o mel, o pão, os enchidos e o artesanato variado. Para retemperar forças há que provar o produto mais famoso da região – o queijo da Serra. De textura amanteigada acompanha na perfeição o pão tradicional.
Este roteiro leva-nos agora à cidade da Covilhã.
Descer da Torre pela N339 até à Covilhã, leva-nos a explorar a condução da nossa moto, e os nossos sentidos.

A Covilhã é uma cidade acolhedora do centro de Portugal, que alia uma história milenar a um dinamismo social, repleto de contemporaneidade e futuro. Localizada na base da Serra da Estrela, geograficamente, a Covilhã estende-se ao longo das encostas da Serra da Estrela e nos verdejantes vales adjacentes da Cova da Beira, serpenteados pelo rio Zêzere e seus afluentes.

A boa comida, as ruas estreitas e o seu Centro Histórico convidam-no para um ótimo passeio pelo centro da cidade e em qualquer altura do ano. As suas ruas estreitas oferecem e contam a história da Comunidade Judaica que outrora aqui se instalou e onde ainda é possível ver alguns vestígios da sua permanência. Com a Serra da Estrela como cenário, fora da cidade as vilas e aldeias deslumbram pelas paisagens e experiências únicas que lhe dão a conhecer o património natural desta região.
Cidade de montanha com muitas histórias para contar

Uma das referências obrigatórias na Covilhã é a arte dos lanifícios, iniciada ainda no tempo de D. Sancho I e desenvolvida pela comunidade judaica que aqui se instalou desde então e permaneceu até ao séc. XV.
A indústria de têxteis, que produziu todas as fardas do exército português durante o reinado de D. João V, ganhou um novo impulso em 1763 sob a acção de Marquês de Pombal que aqui fundou a Real Fábrica de Panos, tornando-se o maior centro de produção de lanifícios de todo o país. O crescimento económico que daí resultou levou a que em 1870 a Covilhã se elevasse a cidade.
Entre rios e serras, a cidade da Covilhã é uma das portas de entrada na Serra da Estrela.
Terra de Pêro da Covilhã, diplomata e explorador que o Rei D. João II enviou ao Oriente que ajudou na descoberta do caminho marítimo para a Índia.
Sortelha (Coord. GPS 40.32865, -7.21575), é a próxima paragem

Sortelha é uma das mais belas e antigas vilas portuguesas, tendo mantido a sua fisionomia urbana e arquitetónica inalterada até aos nossos dias, sendo considerada uma das mais bem conservadas.
Este local parece ter saído do filme “Senhor dos Anéis”. Sortelha, uma aldeia que podia perfeitamente ter sido desenhada por Uderzo: de traça medieval, aguenta-se sobre enormes rochedos arredondados em ruas de granito com casas de granito e chaminés de granito por onde sai o fumo dos fogões de chão, feitos também em granito.Dir-se-ia que não é uma povoação, é antes uma relíquia granítica, muito cinzenta, onde pessoas habitam casas que ficam empoleiradas em ociosos pedregulhos voltados para o sol.

Vila fronteiriça de fundação medieval, com foral concedido em 1228, Sortelha só perderá este estatuto concelhio com a reorganização administrativa feita pelo estado liberal no séc. XIX. A antiga vila constitui um espaço urbano medieval (séc. XIII-XIV), que encontra nas necessidades defensivas e na organização militar do espaço a sua matriz essencial, bastante alterada com as intervenções ocorridas no período manuelino (séc. XVI) e na centúria de seiscentos.
Envolvida por muralhas em forma de anel, e vigiada por um sobranceiro castelo do séc. XIII, a Aldeia Histórica de Sortelha conserva a sua fisionomia urbana e arquitetónica inalterada até aos nossos dias. É uma das mais antigas vilas de Portugal, testemunha dos primórdios do nosso país.

Dois espaços fundamentais configuravam Sortelha.No ponto mais elevado, sobranceiro ao vale e na vertente mais inacessível, situa-se o Castelo: era o pólo exclusivamente militar, bem marcado pelo perfil destacado da Torre de Menagem; no seu interior ainda se pode ver a Cisterna, para o abastecimento de água e uma Porta Falsa. A serpentear o cabeço e tomando-lhe a forma oval, levantou-se a muralha, no seio da qual se estabeleceu a população da antiga vila.
Espaço fechado, comunicava com o exterior por portas abertas a Este – Porta da Vila, Oeste – Porta Nova e Noroeste – Porta Falsa, tendo ainda uma saída de recurso junto ao Castelo. O perímetro defensivo contava além do mais com a Torre do Facho, bem como com outra torre de vigia na Porta da Vila. A mancha construída revela laboriosa adaptação à extrema irregularidade topográfica, apresentando o conjunto uma disposição em anfiteatro.
A malha urbana, pouco densa e composta por quarteirões muito irregulares, estrutura-se a partir de um eixo principal, de ligação entre as portas da Vila, composto pela Rua da Fonte e Rua Direita.

Como espaços urbanos mais significativos surgem: o Largo do Corro, amplo terreiro aberto à entrada nascente da Vila, onde se ergue uma árvore secular e se destaca uma Fonte de mergulho medieval ou quinhentista; o Largo do Pelourinho, onde se localiza a Casa da Câmara e Cadeia e o Pelourinho, constituindo além do mais a zona de acesso ao Castelo; o Largo da Igreja, de limites imprecisos e que funciona como articulação viária entre a Rua da Fonte e a Rua Direita; e por fim, um espaço muito específico, formado extramuros, junto à Porta Nova: ladeando o troço da Calçada Medieval, ligação antiga da vila à Ribeira da Cal ao Casteleiro, encontram-se as ruínas da Igreja de Santa Rita, o antigo Hospital da Misericórdia, do séc. XVII (reaproveitamento de uma gafaria medieval) e, junto ao cemitério, a Capela de Santiago.
Com mais de 800 anos de história, a aldeia parece esquecida no tempo
Talvez por isso a antiga vila de Sortelha tenha chegado aos nossos dias com a fisionomia urbana e arquitetónica praticamente inalterada, sendo considerada uma das mais bem conservadas de Portugal. Este é provavelmente o traço mais particular que lhe confere este cunho ancestral e nos faz viajar a uma vila característica do século XVI.
Ao Castelo de Sortelha, bem ao estilo românico e gótico com claras adições manuelinas, acede-se através da Porta do Castelo, com as armas reais de D. Manuel I e esfera armilar.
Na praça de armas ainda se preservam as típicas Torre de Menagem, com varanda de mata-cães, Cisterna, e ainda uma Porta Falsa a sul.

Há ainda mais duas Portas Falsas a rasgar a muralha, uma próxima do castelo e a outra do lado oposto da cidadela, entaipada aquando da reforma seiscentista. Começando pelas casas de pedra que, para além do valor patrimonial, encerram muita história, algumas antecedendo aos séculos XV e XVI.
Encontramos exemplo disso na Casa Número Um (provavelmente a mais antiga e de origem medieval), na Casa da Janela Manuelina (atente ao relógio de sol do lado sul) bem como em detalhes das casas dos Falcões, do Vento que Soa, do Escrivão, das Almas, da Vila, do Governador e do Juiz Árabe.
Chegando ao Largo do Pelourinho, o antigo centro político da vila, terá a Casa da Câmara e da Cadeia (atual Junta de Freguesia), o Pelourinho de Sortelha (manuelino) e a entrada do castelo.
Continue a sua visita dirigindo-se ao Largo da Igreja para apreciar a igreja matriz renascentista de 1573 cujo orago é Nossa Senhora das Neves. No interior da cidadela, entre ruelas e quelhas e casas de pedra empoleiradas em blocos de granito, destacamos ainda a Torre Sineira para vistas panorâmicas da cidadela, os passos da Via Sacra, a Fonte da Azenha com um peculiar tanque esculpido na rocha, e a residência paroquial cujo umbral tem inscrito a data de 1756, mas crê-se de data anterior, encimada por duas cruzes.

Dominante sobre o vale de Riba-Côa, do alto das suas torres e muralhas obtêm-se vistas esmagadoras sobre as agrestes paisagens beirãs. Ao atravessar as muralhas, que há séculos a protegem, vai sentir-se num autêntico museu a céu aberto. Caminhe devagar e saboreie o nostálgico ambiente medieval da aldeia a que chamam de “Reino do Silêncio”. Em termos gastronómicos, uma das melhores iguarias da Aldeia Histórica de Sortelha são as papas de milho doce.
Típicos dos longos dias de trabalho no campo, em Sortelha destacam-se também a sopa de grão das Malhas, a bucha das Cavadores e o caldudo das Ceifas. Sortelha é das aldeias de Portugal que mais encanto emana. O castelo, muralhas e casario medievais, erguidos sobre um maciço granítico a 760 metros de altitude, conferem-lhe um ambiente fascinante.
Não só é uma das 12 Aldeias Históricas de Portugal melhor preservadas, como tem um enquadramento paisagístico simplesmente fantástico. Faça como os “lagartixos”, alcunha das mulheres e homens da terra, e aproveite os raios de sol num beiral ou banco de pedra, nomeadamente no Jardim do Anel.
Caminhamos para o fim deste roteiro, mas temos ainda Penamacor (Coord. GPS 40.16745, -7.16570) é uma vila fronteiriça, sede de concelho, situada a uma altitude média de 550metros, calma e rural, próxima da Serra da Estrela. A história de Penamacor permanece pouco conhecida desde tempos pré-históricos até ao século XII, excepção feita à época romana.

Sabe-se que foi uma vila disputada pelos romanos, visigodos e mouros, tendo sido fortificada por Gualdim Pais, Mestre da Ordem dos Templários, no século XII, devido à necessidade de protecção da fronteira portuguesa. Penamacor foi uma das mais importantes fortalezas da fronteira portuguesa.
A génese administrativa da vila está nos finais do séc. XII, altura em que D. Sancho I concede Foral a Penamacor em 1209. Ainda hoje são visíveis monumentos que atestam a importância estratégica militar de Penamacor.

Acredita-se que a primitiva ocupação humana deste sítio remonte a um castro pré-histórico, possivelmente romanizado, a crer pelos testemunhos deste período, abundantes na região.
Não há evidências suficientes em favor de sua posterior ocupação. Alguns estudiosos pretendem ser esta localidade a terra natal de Vamba, último grande rei dos Godos, que governou a Península entre 672 e 682. À época da Reconquista cristã da Península Ibérica, os domínios de Penamacor foram conquistados por D. Sancho I (1185-1211), que os doou à Ordem dos Templários, na pessoa de seu Mestre no país, D. Gualdim Pais (1189).
Visando o seu repovoamento, uma década mais tarde o soberano lhe concedeu Carta de Foral (1199), ratificado em 1209.

Datará possivelmente dessa época o início da edificação do castelo. Recentes pesquisas arqueológicas no Cimo da Vila (2003) ainda não confirmam uma ocupação anterior.
Diante do progresso do seu povoamento, D. Afonso III (1248-1279) aí instituiu uma feira anual (1262), atribuindo-se a seu filho e sucessor, D. Dinis (1279-1325), a construção de uma segunda cintura de muralhas no castelo, bem como o início da torre de menagem e da cerca da vila (c. 1300). Não foram identificadas informações sobre o senhorio de seus domínios diante da extinção da Ordem, nesse reinado.
Posteriormente, sob o reinado de D. Fernando (1367-1383), foi iniciada uma barbacã para complemento da defesa do castelo, obra concluída sob D. João I (1385-1433). Durante a crise de 1383-1385, a vila e seu castelo tomaram o partido pelo Mestre de Avis.
No início do século XVI, a vila e sua defesa conheceram obras de remodelação, que se encontram figuradas por Duarte de Armas (Livro das Fortalezas, c. 1509), integradas pelo castelo, dominado pela torre de menagem (que informa em nota: a torre de menagem nom era acabada ao tempo que eu aly estaua), a cerca urbana e a barbacã. A partir de meados do século XVII, no contexto da Guerra da Restauração da independência portuguesa, Penamacor readquiriu importância estratégica sobre a fronteira.
Por essa razão, o Conselho de Guerra de D. João IV (1640-1656) determinou a modernização e reforço das suas defesas, visando a sua adaptação aos avanços da artilharia. O empreendimento, a cargo do Governador das Armas da Beira, marquês de Castelo Melhor, resultou no reforço dos muros da vila com a construção de seis baluartes complementados por mais três meios-baluartes. Poucas décadas mais tarde, um trágico acidente fez saltar a torre de menagem, então utilizada como paiol de pólvora, destruindo-a (1739). O Madeiro, designação que aqui assume a fogueira do Menino Jesus, é tradição forte em terras de Penamacor.

Todos os anos, com o aproximar do Natal, por todas as freguesias do concelho, os jovens em idade de cumprir o serviço militar unem-se para cortar e transportar os troncos que alimentarão a fogueira para aquecer o Menino Jesus. O grande monte de madeira, depositado no adro da igreja, é ateado ao cair da noite do dia 24, à exceção de Penamacor, que arde de 23 para 24, e mantém-se aceso durante vários dias. Depois da ceia de Natal, a população reúne-se em redor da fogueira, num gesto ritual de fraterno encontro.
Mas nem sempre as coisas se processaram de forma tão pacífica. Tempos houve em que encontrar lenha para o Madeiro era tarefa bem mais complicada.
Dependentes da boa vontade das casas ricas locais, cujas ofertas ficavam aquém do desejado, os jovens viam-se na necessidade de roubar lenha, bois e carros, tudo a coberto da noite, para dar prova do brio da “Malta das sortes”.

Assim se passava na generalidade das freguesias, onde a população ainda mantém o hábito de sair em peso à rua na noite da consoada. O Madeiro de Penamacor ganhou fama de ser o maior do país.
Classificado como Monumento Nacional, o Castelo ou Fortaleza de Penamacor, entendido como toda a área amuralhada do antigo burgo medieval, foi um dos mais poderosos castelos, integrando a linha de defesa da Beira. Durante a Guerra da Restauração estabeleceu-se na Vila uma estrutura de apoio logístico como hospital militar da Ordem de S. João de Deus.
Na parte alta da antiga vila de Penamacor, junto do Castelo vê-se uma profunda e larga cisterna, a que o povo chama ” Poço de El-Rei”. Este poço no dizer da tradição o fundo é como uma tigela. Servia em tempos de cerco para abastecer de água a população. Diz a lenda que neste poço ficou sepultada grande riqueza do tempo dos Franceses. Afirma, igualmente, que o povo de Penamacor armou, sobre ele uma ratoeira aos invasores, tendo sido este profundo poço, cemitério dos Franceses.
Penamacor prima pela sua paisagem natural magnífica e aqui se localiza a sede da Reserva Natural da Serra da Malcata, que abriga espécies como o lobo e a lontra numa área selvagem e densamente arborizada de cerca de 20 quilómetros quadrados, sobretudo conhecida por ser um dos últimos refúgios do quase extinto lince ibérico.

Já de regresso ao ponto de partida, Monsanto o conselho é terminar este dia a ver o pôr do sol no Restaurante Petiscos e Granitos de onde se tem uma vista fabulosa sobre a região, Serra da Gardunha e Estrela

Para dormir o nosso conselho vai para Hotel GeoHotel Escola, Monsanto













