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Lord Hesketh e a sua V1000 ‘comedora’ de óleo

Ricardo Ferreira por Ricardo Ferreira
7 Março, 2021
em MOTO+
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Entre as décadas de 1970 e 1980, um distinto senhor Inglês, Lord Alexander Hesketh, quis criar a moto mais luxuosa de todos os tempos. Não foi um sucesso, mas a V1000 ainda continua a ser um exemplo visceral do que pode mas também não deve ser feito.

Anos 70. Lord Hesketh é um jovem nobre britânico, que herdou uma fortuna após a morte prematura do seu pai e com uma paixão quimérica por motores. Faz uma vida exagerada, feita de luxo, champanhe, belas mulheres e carros poderosos. O seu grande sonho: construir a mais luxuosa das motos, apenas comparável a um Rolls Royce. Conseguiu? Quase… mas o seu sonho desmoronou-se com muitos milhões a voarem da conta bancária.

DA FÓRMULA 1 ÀS MOTOS

Lord Hesketh imediatamente fez fama investindo capital considerável no nascimento de uma equipa de Fórmula 1. Tinha olhado para as proezas de um jovem talento inglês, James Hunt,e montou um carro e uma equipa (Hesketh Racing) para levá-lo para a classe principal do automobilismo e faze-lo triunfar. Lord Hesketh percebeu que ele era realmente um talento natural, e deu-lhe a satisfação de conseguir uma vitória e vários pódios, antes de Hunt dar o salto para uma das principais equipas no campeonato do mundo.

A Hesketh Racing tornou-se conhecida não apenas pelos resultados de Hunt, mas também pelo luxo atrevido que levava para o paddock da Fórmula 1 com Rolls Royce, helicópteros, eventos exclusivos e hectolitros de champanhe, muito champanhe! A alta aristocracia britânica e internacional sempre teve um lugar dentro da box de Hesketh, um mundo a anos-luz de distância do automobilismo frio e profissional contemporâneo.

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Após a aventura da F1 com poucos resultados, Lord Hesketh queria continuar esse caminho nos motores “de um certo nível” e a partir de 1976 dedicou-se ao projeto da Hesketh V1000, que se tornaria a moto mais luxuosa e exclusiva do mercado. A ideia era simples, mas impactante: pegar os melhores componentes do mercado e construir uma moto de nível ainda mais alto, com um motor que ocuparia as linhas e o brasão doirado das antigas Vincents, motos de luxo por excelência da primeira metade do Século XX.

CONCEBIDA PELO ‘PAI’ DA TRIUMPH ROCKET III

Projetada por John Mockett, anteriormente pai da Triumph Rocket III, a moto tinha um estilo desportivo, mas sóbrio, maciço e elegante. Em 1980, os primeiros espécimes artesanais e quase inteiramente construídos à mão foram entregues a Daventry, numa fábrica construída com o propósito e custando uma herança (tudo o que havia de super luxuoso para o Senhor Hesketh). A estética convenceu muito mais do que a mecânica, que tinha enormes lacunas como a passagem continua do óleo lubrificante na caixa de velocidades, e uma fiabilidade geral francamente má.

Essa caixa de velocidades mal desenhada e que falhava nas passagens de óleo levou ao recall de todas as motos vendidas (cerca de cem) para resolver o problema. Isso causou tanto desembolso de dinheiro que imediatamente colocou a empresa em crise, uma máquina comedora de dinheiro com enormes custos operacionais, que teve que se ajoelhar no tempo da crise do petróleo que colocou muitos países de joelhos no final da década de 1970.

O BOICOTE DA IMPRENSA DO REINO UNIDO

Enquanto isso, a imprensa da indústria boicotou categoricamente esta moto, definida como muito pesada e dinamicamente um pouco desalinhada, com desempenhos abaixo das expectativas que faziam supor os seus 86 cv, e perdas contínuas de óleo. Por todas essas razões, a história do V1000 terminou após apenas um ano e pouco mais de 100 unidades vendidas, com um Lord Hesketh ferido não só na conta bancária, mas também no seu próprio orgulho.

O objetivo de construir um Rolls Royce de duas rodas falhara em toda a linha, e nem mesmo vender a marca a terceiros para continuar a produção funcionou. Cerca de cinquenta motos ainda foram produzidas entre a V1000 e a Vulcano (versão Grande Turismo) sob a gestão de Mick Broom, mas logo depois a empresa fechou portas.

Há alguns anos, o novo dono da marca decidiu investir no renascimento, criando de forma artesanal uma nova Hesketh com motor de dois cilindros e estilo café racer. Elas ainda são produzidas à mão por encomenda e por um preço de pouco menos de 50.000 euros – um fosso de oportunidade que não fica nem um pouco perto do sonho louco dos anos 80 de Lord Alexander Hesketh!

Tags: Alexander HeskethHesketh V 1000Hesketh VulcanJames HuntReino Unido
Ricardo Ferreira

Ricardo Ferreira

Apaixonado por motos desde muito cedo, está desde há muito ligado à Comunicação Social, tendo trabalhado em diversos meios como AutoHoje, revista Motociclismo, jornal Volante, revista MotoMagazine e Autosport, entre outros.

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