Rubén Xaus continua a acompanhar de perto tudo o que acontece no Mundial de MotoGP. O campeonato prepara-se para iniciar a segunda metade da temporada este fim de semana, em Silverstone, depois de uma primeira parte marcada por um equilíbrio invulgar na luta pelo título e por várias surpresas. Foi precisamente sobre isso que o antigo piloto espanhol falou numa entrevista ao podcast Il Bomber – GP.
“É um campeonato anómalo, diferente, estranho. Porque temos seis pilotos a lutar pelo título mundial. Há algo muito especial, porque não se via isto há muito tempo, e isso faz com que, olhando para a primeira metade da época, já se perceba estatisticamente que a segunda parte será muito interessante. Os números falam por si: há quem esteja a crescer, há quem esteja estável, todos estão muito próximos e há quem esteja a perder terreno.”
O ano começou com Marco Bezzecchi como uma das grandes referências do campeonato, mas o italiano acabou por perder consistência ao longo das rondas.
“É claro que tivemos surpresas. No início falava-se muito bem do Bezzecchi. Ninguém esperava que pudesse ser um líder tão sólido, e ele demonstrou que sabia gerir a pressão de estar na frente. Depois, começou a cometer erros e aquela sensação de que poderia caminhar para o título desapareceu. E não sabemos bem porquê. Os erros que está a cometer não parecem fáceis de corrigir, porque ele não falha durante todo o fim de semana; quando erra, fá-lo precisamente nos momentos em que já não há forma de recuperar.”
A quebra de Bezzecchi abriu caminho à recuperação de Marc Márquez, que chegou à pausa de verão a apenas 18 pontos da liderança, apesar dos problemas físicos que enfrentou.
“Há uma coisa que o Marc tem para além do talento extraordinário: cresceu com um irmão que o empurrou constantemente. Isso fez dele o melhor piloto no trabalho diário. Treinam juntos, desafiam-se mutuamente, partilham motivação e sofrimento.”
Segundo Xaus, essa experiência competitiva moldou a mentalidade do espanhol.
“Além disso, tem uma mentalidade de guerreiro. Passou por muitas guerras desportivas: Rossi, Pedrosa, Lorenzo e muitos outros. E também enfrentou batalhas físicas. Tudo isso, aliado à experiência, levou-o a um nível mental impressionante.”
O antigo piloto acredita ainda que muitos dos atuais adversários de Márquez cresceram a admirá-lo, o que influencia inevitavelmente a forma como o enfrentam em pista.
“Todos os pilotos que hoje lutam com ele eram, no passado, adeptos ou fãs do Márquez. Sempre tiveram um enorme respeito por ele, e isso condiciona a forma como interpretam os limites do rival.”
Xaus comparou essa situação à influência que Valentino Rossi exercia sobre os seus adversários.
“Enfrentar o Márquez é semelhante ao que acontecia há anos com Valentino Rossi. Muitos pilotos idolatravam-no e tinham dificuldade em enfrentá-lo diretamente. Para mim, Márquez e Rossi são os dois melhores pilotos da história. Muitos dos seus rivais tiveram dificuldades em derrotá-los por causa da aura e da magia que demonstravam em cima da moto.”
Xaus também analisou a evolução da Aprilia ao longo da temporada e considera que a aproximação de Jorge Martín ao nível de Bezzecchi alterou a dinâmica interna da equipa.
“São dois pilotos que sabem gerir pressão, caso contrário não ganhariam corridas. Quando o Martín esteve mais afastado do projeto no ano passado, isso deu tranquilidade ao Bezzecchi, porque ele tornou-se a principal esperança da Aprilia. Toda a equipa se uniu à volta dele e isso permitiu-lhe terminar a temporada com um enorme potencial.”
No entanto, a situação mudou quando Martín começou a aproximar-se dos resultados do companheiro de marca.
“Começaram o ano muito bem, mas à medida que o Martín se aproximava desse nível e, por vezes, até terminava à frente do Bezzecchi, a estabilidade dentro da Aprilia começou a oscilar. Em vez de estarem focados num único piloto, passaram a dividir atenções entre dois. E com os recursos disponíveis não é possível desenvolver uma moto ao mesmo tempo para dois pilotos da mesma forma.”
















