Dois abandonos consecutivos, uma frustração agora cada vez mais visível e um final de aventura na Ducati que está a correr mal: Francesco Bagnaia atravessa uma das fases mais delicadas da sua carreira. Antigas declarações de Valentino Rossi sobre as dificuldades enfrentadas pelo seu pupilo em 2025 voltam agora a ganhar destaque. Na altura, o ‘Doctor’ falava de «algo» mental e psicológico capaz de travar Pecco. Sem constituírem um diagnóstico da crise atual, essas palavras assumem inevitavelmente outro significado depois de Silverstone e Aragão.
Francesco Bagnaia não é, habitualmente, um piloto que exponha facilmente aquilo que sente. Em Aragão, porém, parecia ter acontecido alguma coisa. Depois da queda e do segundo abandono consecutivo, após Silverstone, o piloto da Ducati teve muitas dificuldades em esconder a sua incompreensão e frustração.
Os dados, as sensações, os resultados: atualmente, parece que já pouco se consegue encaixar. E uma antiga confidência de Valentino Rossi ganha, de repente, um significado especial.
Foi Elvio Deganello quem revelou, durante uma conversa com Giovanni Zamagni, uma discussão anterior que teve com Rossi sobre Bagnaia. O tema era, na altura, a temporada de 2025.
«Ouvi Valentino Rossi dizer algo, ele que obviamente tem um interesse particular, já que o Pecco fez parte da VR46», contou Deganello.
Durante um jantar que reuniu vários grandes pilotos, a conversa centrou-se nas dificuldades que Bagnaia estava a enfrentar.
«Mesmo segundo Valentino, houve algo que, a determinado momento, mental e psicologicamente, fez o Pecco perder velocidade. É inevitável. É inexplicável.»
É importante, contudo, não atribuir a Rossi mais do que aquilo que realmente disse. O italiano não estava necessariamente a prever a crise atual, nem certamente a fazer um diagnóstico psicológico de Bagnaia.
O que constatava era que, já em 2025, as dificuldades pareciam, por vezes, ir além da simples performance da moto.
É precisamente isso que torna a situação atual preocupante. Bagnaia também vem de uma operação. Por isso, a sua condição física não pode ser completamente colocada de parte.
A Ducati e o ambiente técnico também têm o seu peso nesta equação. Mas dois fins de semana negativos consecutivos podem desencadear um mecanismo particularmente cruel no MotoGP.
O piloto perde confiança. Procura ainda mais respostas nas afinações e nos dados. As sensações tornam-se menos naturais. Esforça-se para recuperar a velocidade. E um novo erro aumenta ainda mais a dúvida.
Em Silverstone e depois em Aragão, Bagnaia não somou qualquer ponto no domingo.
Entretanto, Marc Márquez venceu quatro dos últimos seis Grandes Prémios e teve um fim de semana perfeito em MotorLand. A comparação dentro do universo Ducati torna-se inevitavelmente pesada.
A próxima ronda terá, por isso, uma importância especial. Misano não é um circuito como os outros para Bagnaia. O italiano vai reencontrar o seu público, o ambiente da VR46 e um traçado que conhece perfeitamente.
Poderá ser o local ideal para interromper esta espiral. Mas essa proximidade também torna a pressão psicológica ainda maior.
Com a saída da Ducati e a passagem para a Aprilia em 2027 já no horizonte, Bagnaia entra nos últimos meses de uma aventura que o levou a conquistar dois títulos mundiais de MotoGP. Certamente imaginaria um desfecho diferente.
A questão não é saber se Francesco Bagnaia ainda sabe pilotar uma MotoGP rapidamente. Os dois títulos mundiais são suficientes para responder a essa pergunta.
O desafio passa por recuperar aquilo que constituía precisamente uma das suas grandes forças: a capacidade de compreender uma situação difícil, trabalhar de forma metódica com os seus engenheiros e reconstruir progressivamente a sua velocidade.
É por isso que as palavras atribuídas a Rossi são hoje interessantes. Não porque Valentino tivesse previsto a crise de 2026, mas porque já tinha observado no seu pupilo aquele momento estranho em que as dificuldades técnicas começam a entrar na cabeça do piloto e em que se torna impossível determinar qual delas alimenta a outra.
Em Misano, Bagnaia não precisa necessariamente de ganhar tudo. Precisa, antes de mais, de interromper este mecanismo de dúvida.
















