As negociações agora em curso vão definir o futuro da MotoGP… e começaram mal!

Enquanto o espetáculo da MotoGP continua a desenrolar-se nos écrans de TV de 632 milhões de fãs globalmente, mais os privilegiados que assistem mesmo das bancadas, nos bastidores, está-se a travar em silêncio uma guerra invisível e -até agora – inaudível.
A Liberty, o fundo de investimento que adquiriu a Dorna o ano passado, e já é dona da Fórmula 1, acha que fez um bom negócio: Enquanto o píncaro do mundial de automobilismo lhe custou cerca de 8 mil milhões de euros em 2017, em outubro de 2025 os direitos do Mundial de MotoGP vieram por uns comparativamente irrisórios 3,6 mil milhões de euros.
Para mais, na F1 o promotor obriga-se, numa escala de participações nos lucros do Campeonato, a distribuir pelas equipas uma média de 16 milhões de euros: mais de 120 milhões para a equipa campeã e o resto numa escala diminuínte, acabando com a 11ª equipa da cauda do plantel com uns ainda consideráveis 40 milhões.

A Liberty tem planos para expandir o espetáculo e o valor do MotoGP como fez com a F1, mas antes mesmo de pensar nisso, terá de negociar um acordo semelhante ao da Formula 1.
Por comparação com esta, o pagamento da Dorna às equipas de motos em troca dos direitos televisivos, que é de onde o dinheiro vem, (por coincidência, ou talvez não, também 11) mal passa dos 34 milhões de euros entre todas, mais alguns custos de frente suportados pela Dorna para voar a caravana para localizações remotas como a Malásia, Austrália ou Indonésia.
A Dorna distribui estes pagamentos em dois lotes: Um de cerca de 2 milhões às equipas oficiais de fábrica, na premissa de que são elas quem têm mais a ganhar mostrando a sua superioridade técnica e a sua equipa a vencer (ou não!) e o outro de cerca do dobro às equipas satélite, já que estas têm de ‘alugar’ às fábricas duas motos, que custam logo à partida uns 3 milhões.
Se para as equipas é cada vez mais difícil encontrar então patrocinadores para colmatar a diferença entre essas somas recebidas e o custo real de gerir uma equipa de MotoGP (com o custo de cada prova incluindo deslocações, alojamento, material e salários de pilotos e técnicos a orçar cerca de 1 milhão por corrida) que dizer então dos pilotos independentes, que se pensa chegam a correr por menos de 200.000 € por ano, num desporto em que podem perder a vida ou ficar incapacitados cada vez que saem para a pista em uma das 22 corridas do ano? Aliás, há casos em que o piloto é que tem de trazer consigo fundos para a equipa e portanto, está, basicamente, a correr de graça…

A organização que, supostamente, zelaria pelos direitos das equipas e dos pilotos, foi criada em 1986 por um antigo piloto de nome Mike Trimby e, desde então, nunca se pensou em criar uma organização específica para os pilotos (como existe a GPDA, a organização dos pilotos de F1) porque se considerava que, basicamente, os interesses dum eram os do outro.
Na prática, com o profissionalizar da MotoGP, a IRTA, após o falecimento de Trimby, tornou-se numa espécie de cão de guarda da Dorna, mais preocupada com o alinhamento dos camiões estacionados no paddock e com as regras de uniforme das equipas ou distribuição de passes do que com os direitos ou remuneração dos pilotos. Para mais, o contrato da IRTA com a Dorna também expira no final de 2026 e estará aberto para negociação.

Isto deixa firmemente no comando do lado oposto à Liberty a MSMA, a associação dos fabricantes de MotoGP, liderada pelo diretor da Aprilia Massimo Rivola, enquanto a Liberty, no que à MotoGP concerne, é chefiada por Stefano Domenicali, vindo da Ferrari, embora o Presidente seja um tal Derek Chang. A Liberty tentou entrar com pézinhos de lã organizando, no passado GP de Espanha em Jerez há dias, um jantar de negócios para reunir os representantes das marcas. Foi reportado que a iniciativa caiu em saco roto quando os repsentantes da Apriia, KTM e Yamaha (2/3 da grelha, só faltando a Ducati e a Honda) nem sequer se incomodararm a aparecer, comunicando logo dessa forma o seu descontentamento e que a coisa não ia lá com uns jantares de luxo.

O que pretendem então os fabricantes, representados pela MSMA? Desde logo, uma divisão muito mais equitativa dos fundos, até porque a Liberty já anunciou que deixará de haver equipes ‘oficiais’ e ‘satélites’, ficando todas equiparadas. Faz sentido, então que passem a receber o mesmo, mas mais, os fabricantes querem ser remunerados à semelhança da Fórmula 1, porque sem eles, sem as suas motos, não há corridas. Se fosse preciso ilustrar esse ponto, a recente retirada da Suzuki e, num passado não muito distante, da Kawasaki demonstram bem esse ponto, para não falar dos atuais problemas da Honda e Yamaha.
A soma sugerida oscilaria provavelmente pelos 7 milhões por equipa, e outra medida muito importante seria também instituída: um salário mínimo para qualquer piloto de MotoGP nunca inferior a 500.000 euros. Veremos se a MSMA terá os interesses dos pilotos em conta, ou se preocupará só com ‘levar a brasa à sua sardinha’, deixando a guerra dos pilotos para outra organização que, pelos vistos, dificilmente seria a IRTA…
















