Sabendo já da sua saída da Honda e do seu futuro na Gresini a partir de 2027, Joan Mir concedeu uma entrevista ao site Crash, onde fez uma retrospetiva da sua carreira no MotoGP, falando das marcas pelas quais passou e avaliando, em particular, o seu trabalho recente com a Honda e o novo desafio que terá com a Ducati.
As primeiras palavras de Mir foram de reflexão sobre a temporada de 2026:
«Acho que começámos a época com expectativas mais elevadas e também me recordo que o teste de Sepang foi muito positivo. As primeiras corridas não foram más, mas não conseguimos terminar as provas porque, provavelmente, fui demasiado otimista. Queria começar o ano da mesma forma como o terminei; queria-o demasiado. Isso levou-me a correr mais riscos do que devia e houve muitas quedas. Foi uma falha de gestão da minha parte. Pensei que tínhamos o impulso necessário e que conseguiria repetir aqueles resultados, mas isso acabou por provocar muitas quedas.»
Foram muitas as quedas de Mir esta temporada, mas o espanhol acredita que a sua posição no campeonato seria muito diferente sem esses erros.
«Acho que as pessoas olham sempre para a classificação e para o lugar onde estou agora. Mas se nessas corridas não tivesse caído e tivesse somado esses pontos, estaria entre os cinco ou seis primeiros do campeonato. Mas essa não é a forma correta de encarar as coisas, porque é preciso terminar as corridas. Temos potencial e acredito que estamos muito perto de conseguir esses resultados sem depender dos problemas dos outros.»
Mir reconhece ainda a sua quota-parte de responsabilidade:
«Podemos alcançar bons resultados graças à nossa velocidade. Também assumo muita responsabilidade por isso, porque tenho lutado bastante para o conseguir. Lembro-me que, com a Suzuki, ou no passado, não me sentia assim porque sabia que tinha o pacote necessário. O risco podia ser gerido até certo ponto, mas para mim é muito difícil chegar aqui sabendo que não tenho a possibilidade de lutar nas mesmas condições.»
Sobre a Honda, Mir deixou palavras positivas para a equipa, mas mostrou alguma frustração com a evolução da moto.
«Dentro da equipa, o ambiente é muito bom. Sinto que me ouvem e que também querem alcançar bons resultados. Quando caio, eles sofrem e lutam comigo. Mas a realidade é que já passou metade da temporada e ainda não recebemos nada verdadeiramente positivo que nos permita continuar a evoluir.»
E acrescentou:
«Não vou mentir, estou um pouco desiludido porque esperava mais. Acho que, se há alguém no MotoGP capaz de seguir duas linhas de desenvolvimento em simultâneo, é a Honda. Provavelmente esperava mais, embora também saiba que estão a trabalhar muito e talvez no final da época tudo chegue. Quem sabe? Mas não acredito muito nisso. Se começarem a introduzir evoluções e nós começarmos a recebê-las, isso também me motiva a continuar a pressionar. Caso contrário, é difícil. Em 2023 sentimos isso, lutámos muito e nada chegava. Em 2024 melhorou um pouco, em 2025 também, e agora este ano voltámos a esperar mais.»
Sobre a decisão de deixar a Honda, o campeão do mundo de 2020 explicou:
«Provavelmente estou mais desgastado do que muitos dos meus rivais. Em certos momentos da minha carreira poderia ter escolhido outros caminhos, como qualquer piloto. Escolhi a Honda e não me arrependo. Durante muito tempo senti dentro de mim que devia continuar aqui e dar mais oportunidades ao projeto. Mas preciso de uma mudança. Desejo-lhes o melhor para o futuro e, se no próximo ano tiverem uma moto competitiva, ficarei feliz porque fiz parte desse processo. Isso fará sempre parte da minha carreira.»
«Não posso esperar mais tempo. Talvez no próximo ano se descubra que esta não era a decisão certa, porque ninguém sabe o que vai acontecer. Mas esta foi uma decisão tomada com o coração. E acredito que quando tomamos uma decisão com o coração, é a decisão correta.»
Quanto ao futuro na Ducati através da Gresini Racing, Mir não tem dúvidas sobre os motivos da escolha.
«Escolhi a Gresini porque tem tido motos competitivas nos últimos anos. Mas, mais do que a moto, que foi uma parte muito importante da decisão, foi aquilo que a equipa transmite às pessoas. Parece-me uma estrutura muito familiar. Faz-me lembrar a Suzuki e a forma como as pessoas falavam daquela equipa.»
O espanhol destacou ainda o histórico recente da formação italiana:
«O Marc foi para a Gresini no pior momento da carreira dele. O Álex também estava praticamente fora das contas em determinado momento. E vejam onde estão agora. Voltaram a gostar de pilotar e prolongaram as suas carreiras. Depois há também a história da Nadia Padovani a assumir a liderança da equipa, que é muito bonita.»
«Estou motivado para o futuro, não vou esconder isso. Mas também estou motivado para fechar este capítulo com a Honda da melhor forma possível, sem conflitos, apenas desfrutando um pouco mais.»
Quando questionado sobre aquilo que sente que o público esqueceu acerca dele, Mir respondeu:
«É uma pergunta difícil porque as pessoas esquecem muito rapidamente e veem apenas aquilo que querem ver. Mas também deviam olhar para o que conseguimos fazer com uma moto pouco competitiva nestes anos. Em Barcelona lutámos pela vitória e fizemos dois pódios com a Honda em condições normais. Não sei quantos pilotos conseguiram fazer isso com esta moto nos últimos anos.»
O espanhol também recordou o título conquistado com a Suzuki em 2020:
«As pessoas perguntam-se como ganhei aquele campeonato. Se tivesse feito exatamente o mesmo com uma Yamaha ou uma Honda, que eram as motos vencedoras daquela altura, talvez tivesse mais valor? Eu penso precisamente o contrário.»
«Ganhámos esse título com consistência, porque a moto era uma Suzuki. Vencemos com uma equipa muito pequena, uma equipa que dava tudo. Estou extremamente orgulhoso disso. Batemos fabricantes gigantes com uma estrutura muito mais pequena. Para mim, isso foi o mais difícil e o mais especial.»
Por fim, Mir falou sobre o que espera do próximo capítulo da sua carreira:
«Vou para o próximo ano e para a equipa que escolhi porque quero provar algumas coisas. Mas no MotoGP nunca se sabe o que vai acontecer. Não sei como me vou sentir no próximo ano. No entanto, se me sentir bem, será por mim, não pelos outros. Isso é o mais importante.»
«Talvez não tenha nada para provar a ninguém, mas quero voltar a desfrutar. Há muito tempo que não me divirto verdadeiramente a correr e quero voltar a sentir isso.»
















