Quando Marc Márquez decidiu deixar a Honda no final de 2023, Joan Mir tinha acabado de chegar à equipa e ainda acreditava que o construtor japonês regressaria rapidamente ao topo. Três anos depois, o campeão do mundo de 2020 com a Suzuki admite que acabou por compreender a decisão do seu antigo companheiro de equipa. A ironia da história é que, em 2027, Mir seguirá exatamente o mesmo caminho de saída de Márquez ao juntar-se à Gresini e à Ducati.
Os dois campeões do mundo cruzaram-se na Honda no pior momento possível. Joan Mir chegou em 2023 após a saída abrupta da Suzuki do MotoGP. Vinha de uma realidade muito diferente: campeão mundial em 2020 e terceiro classificado em 2021, conhecia uma moto capaz de vencer corridas e acreditava que a Honda lhe poderia oferecer rapidamente a mesma oportunidade. A realidade acabou por ser muito mais dura.
“Esperava que o primeiro ano fosse difícil, mas acreditava que a Honda construiria depois uma moto competitiva”, explicou ao GPOne. Em vez disso, os prazos prolongaram-se e os resultados desejados nunca chegaram verdadeiramente. Entretanto, Marc Márquez já tinha percebido o cenário.
Depois de conquistar seis títulos de MotoGP com a Honda, o espanhol aceitou abdicar do último ano do seu contrato para se juntar à Gresini no final de 2023. Mir observou essa saída de uma perspetiva diferente:
“Depois de vários anos sem resultados, entre 2020 e 2023, ele decidiu sair. Eu tinha acabado de chegar e ainda tinha esperança. Quando o vi partir, pensei que precisava apenas de ter um pouco mais de paciência…”
Três anos depois, essa paciência chegou ao fim.
A coincidência é quase perfeita. Márquez deixou a equipa oficial da Honda para ingressar na estrutura satélite da Gresini e pilotar uma Ducati competitiva. Mir fará exatamente o mesmo.
A Gresini confirmou a contratação do espanhol para 2027, onde será companheiro de equipa do estreante Daniel Holgado. E não terá uma Ducati qualquer: a equipa continuará a dispor de uma Desmosedici com especificação de fábrica, destinada a Mir.
O espanhol já admitiu que o percurso dos irmãos Márquez influenciou a sua reflexão. A Gresini demonstrou capacidade para receber pilotos que atravessam fases complicadas das suas carreiras e ajudá-los a recuperar a confiança e a competitividade. Para Mir, a questão já ultrapassa a simples procura por melhores resultados.
As suas palavras ajudam também a perceber a dureza destas quatro temporadas.
“Mentalmente, foi muito difícil de gerir”, reconheceu Mir.
Continuar a forçar os limites para lutar por um Top 10, um Top 8 ou um Top 6 podia significar “realmente magoarmo-nos”.
E Mir caiu muitas vezes. Não se tratava apenas de uma incapacidade para aceitar as limitações da Honda. O espanhol explicou várias vezes que preferia conscientemente assumir riscos para tentar alcançar um resultado relevante, em vez de simplesmente terminar as corridas.
Os poucos pódios conquistados com a Honda demonstraram que ainda era possível obter bons resultados, mas o próprio Mir considera que isso exigia circunstâncias muito favoráveis. O piloto que decidiu esperar pela recuperação da Honda acabou por tomar a mesma decisão que Márquez tinha tomado antes dele.
Esta história desportiva ganhou entretanto um novo contexto impossível de ignorar. Depois de falhar o Grande Prémio da Áustria, Joan Mir também estará ausente dos Grandes Prémios do Japão e da Indonésia. Desta vez, não devido às consequências de uma queda, mas por sintomas cuja origem ainda não foi identificada.
O Dr. Ángel Charte, médico do MotoGP, revelou que Mir sofre há vários meses de diferentes sintomas que afetam os seus níveis de energia e desempenho, tendo a situação piorado recentemente. Por esse motivo, recomendou repouso total e a interrupção temporária da competição. Foram realizados vários exames para tentar descobrir a causa do problema.
Até ao momento, não foi divulgado qualquer diagnóstico capaz de explicar estes sintomas. Assim, seria precipitado estabelecer uma ligação médica entre esta condição e as dificuldades desportivas e psicológicas descritas pelo próprio piloto.
Ainda assim, ambos os elementos fazem parte da realidade atual de Mir. Depois de vários anos a lutar para regressar ao nível que o seu título mundial de 2020 lhe permitia ambicionar, o espanhol atravessa agora uma fase em que nem sequer pode competir.
A Honda terá, assim, de enfrentar as rondas de Motegi e Mandalika sem o seu piloto, aguardando uma nova avaliação médica para determinar os próximos passos.
É precisamente neste contexto que a decisão para 2027 ganha um significado especial. Quando Marc Márquez deixou a Honda no final de 2023, a RC213V parecia estar no ponto mais baixo da sua história recente. Mir, pelo contrário, sai numa altura em que o construtor japonês começa a mostrar sinais de recuperação e prepara a sua nova moto de 850 cc.
A sua decisão não significa necessariamente que a Honda continuará atrás da Ducati. Significa algo muito mais pessoal: Mir já não estava disposto a esperar para descobrir.
Em 2023, observou Márquez abandonar a Honda e pensou que ainda era necessário ter paciência. Em 2027, será ele próprio a seguir rumo à Gresini. E hoje, antes mesmo de encerrar definitivamente o seu capítulo com a Honda, Joan Mir vê-se obrigado a parar sem ainda saber exatamente porquê.















