Durante muitos anos, os fabricantes chineses observaram os campeonatos mundiais à distância. Depois chegaram ao Mundial de Supersport, Moto3 e Moto2. Agora, dois projetos muito mais ambiciosos começam a ganhar forma quase em simultâneo: a ZXMoto confirmou a sua entrada no Mundial de Superbike (WorldSBK) em 2028 com um motor V5, enquanto a CFMOTO está a desenvolver a V4 SR-RR de 997cc, capaz de ultrapassar os 315 km/h.
Desta vez, o objetivo já não é apenas aprender. O foco passa por desenvolver motos capazes de desafiar as referências europeias e japonesas.
A ZXMoto já não esconde as suas ambições. Em Cremona, Zhang Xue confirmou que o programa destinado ao WorldSBK já arrancou e estabeleceu 2028 como a data para a entrada da marca chinesa no campeonato.
Ainda mais surpreendente foi a confirmação da arquitetura do motor da futura Superbike: um V5.
As fontes presentes em Cremona indicam que o projeto passa efetivamente por uma moto de competição equipada com um motor de cinco cilindros, uma solução extremamente rara no motociclismo moderno.
A referência mais conhecida deste conceito continua a ser a lendária Honda RC211V de 990cc, utilizada por Valentino Rossi nos títulos mundiais de MotoGP de 2002 e 2003.
A ZXMoto não pretende entrar no WorldSBK com uma simples réplica do que já existe no mercado. A marca quer apresentar uma identidade técnica própria.
Ainda assim, os detalhes relativos à potência, cilindrada definitiva e especificações da versão de competição devem ser encarados com cautela, uma vez que continuam a circular vários números não confirmados oficialmente pelo fabricante.
O projeto não é apenas teórico. Em 2026, a ZXMoto associou-se à equipa Evan Bros para competir no Mundial de Supersport com a sua 820RR de três cilindros.
Os resultados foram imediatos. Valentin Debise garantiu as primeiras vitórias mundiais da marca chinesa, incluindo uma impressionante dobradinha em Portimão.
Zhang Xue admitiu inclusivamente que a parceria com a estrutura italiana poderá prolongar-se até ao futuro programa de Superbike.
Esta parece ser a estratégia da marca: combinar os seus recursos industriais com a experiência de equipas europeias já estabelecidas no paddock internacional.
Do outro lado surge a CFMOTO, que continua a desenvolver a impressionante V4 SR-RR.
A moto está equipada com um motor V4 a 90 graus de 997cc, anunciado com uma potência de 212 cv para um peso inferior a 200 kg, além de incluir soluções de aerodinâmica ativa.
Mais impressionante ainda foi o registo obtido a 15 de junho, quando o protótipo atingiu os 315,82 km/h durante o China Motorcycle Top Speed Record Challenge, velocidade confirmada por GPS.
Segundo a própria marca, trata-se da moto de combustão chinesa mais rápida alguma vez registada.
Ao contrário da ZXMoto, a entrada da CFMOTO no WorldSBK continua a ser apenas uma hipótese. Os recentes testes da SR-RR não representam qualquer anúncio oficial de participação no campeonato.
No entanto, a moto possui uma base técnica claramente compatível com o universo Superbike.
Além disso, a experiência adquirida pela CFMOTO através da parceria com a Aspar nos Mundiais de Moto3 e Moto2 significa que a marca já conhece bem as exigências de uma competição internacional.
À primeira vista, a história parece resumir-se a um confronto tecnológico entre um ousado V5 da ZXMoto e o potente V4 da CFMOTO, ambos com o objetivo de desafiar marcas como Ducati, BMW, Yamaha, Honda e Kawasaki.
Mas a verdadeira notícia pode estar noutro lugar.
Há poucos anos, os fabricantes chineses eram avaliados pela sua capacidade de alcançar tecnologicamente os construtores europeus e japoneses.
Hoje, a CFMOTO desenvolve uma V4 de 997cc capaz de superar oficialmente os 315 km/h, enquanto a ZXMoto anuncia publicamente a intenção de entrar no Mundial de Superbike com uma arquitetura de motor praticamente desaparecida do motociclismo moderno.
A mudança de paradigma é evidente.
A China já não se pergunta apenas se consegue construir motos comparáveis às dos fabricantes históricos. Começa agora a questionar como poderá superá-los.
E, se a ZXMoto cumprir o calendário anunciado, o Mundial de Superbike poderá começar a receber as primeiras respostas já em 2028.
















