Crónica duma corrida que nunca foi

Há despedidas que se imaginam durante meses e que depois não acontecem como no guião. Em Phillip Island, domingo, 25 de outubro de 2026, o último Grande Prémio da Austrália no circuito da ilha dos arredores de Melbourne nunca chegou a ser corrida. Choveu, a visibilidade não deixou o helicóptero médico levantar voo, o que inviabiliza correr, e o que ficou da despedida foi uma volta lenta atrás de um carro de segurança, com a pista encharcada e os adeptos de gabardina.
Um domingo de espera
O programa era o do costume: aquecimento às 9:40, Moto3 às 11:00, Moto2 às 12:15 e MotoGP às 14:00. A chuva chegou durante a noite e não se foi embora. O Warm Up foi cancelado, depois as corridas de Moto3 e de Moto2, e até a terceira corrida do campeonato australiano de Superbike. A corrida de MotoGP foi adiada por duas horas, na esperança de uma melhoria, e perto das 15:40 locais a organização rendeu-se.
Os números que fazem a festa também ficaram pelo caminho: a demonstração de Monster Trucks e a Legends Lap, em que Mick Doohan, Casey Stoner e Wayne Gardner iam dar uma volta juntos, pela primeira vez, no circuito onde ganharam nove Grandes Prémios e se tornaram campeões do mundo.
Os 18 pilotos alinharam na grelha e deram uma volta atrás do carro de segurança, a acenar, para as bancadas ainda cheias de quem tinha ficado a ver. Jack Miller, que se despede de casa antes de ir para as WorldSBK, quase não aguentou a emoção. Pediu desculpa aos adeptos por terem tido de aguentar um dia daqueles e disse-lhes que mereciam melhor. Marc Márquez, que tinha feito a pole no dia anterior, admitiu que Phillip Island não merecia que a última corrida fosse cancelada.

O circuito que se despede
Para quem cresceu a vê-lo na televisão, Phillip Island era o circuito de curvas rápidas à beira-mar, onde o tempo muda de cara em meia hora, e que muitos pilotos mencionam como o seu favorito. A primeira corrida do campeonato do mundo ali foi em 1989 e foi ganha por Wayne Gardner, que repetiu em 1990. Depois houve uma passagem por Eastern Creek, de 1991 a 1996, e desde 1997 a prova esteve sempre na ilha, até este ano. Foi lá que Doohan fez a sua lenda nos anos 90, que Stoner ganhou seis vezes entre 2007 e 2012, e que Valentino Rossi somou oito vitórias, a última em 2014. Foi também lá que, em 2014, Miller ganhou em Moto3.
A saída foi decidida em fevereiro, quando a MotoGP Sports Entertainment Group, a ‘nova’ Dorna, quis levar a prova para Albert Park, em Melbourne, e o governo de Victoria recusou. Foi então que o governo da Austrália do Sul avançou, e Adelaide ficou com o contrato por seis anos, de 2027 a 2032, num circuito de rua com cerca de 4,2 quilómetros e 18 curvas, inspirado no antigo traçado de Fórmula 1 que lá se correu entre 1985 e 1995. A primeira prova será em novembro de 2027, e será a primeira vez que o MotoGP corre no centro de uma cidade – se chegar a acontecer, porque os planos também já esbarraram em problemas de planeamento.
O sábado que prometia
O que tornou o domingo mais triste é que o fim de semana não prometia o anticlímax. No sábado, em piso molhado, Márquez caiu na primeira volta da Q2 e ainda assim fez a pole por cerca de um segundo e meio. A corrida de sprint foi um duelo épico entre ele e Jorge Martin, que acabou com o campeão a ganhar e o piloto da Aprilia a cair com uma fratura no braço, o que praticamente lhe tira as hipóteses de título e devolve a Márquez a liderança do campeonato. Era o tipo de corrida a que se chama clássico, e foi a última a que Phillip Island assistiu.
Porque não se correu
Nem a chuva nem a falta de grip foram a razão formal. O diretor de corrida, Graham Webb, explicou que o problema era o helicóptero médico, que precisa de visibilidade suficiente para voar e de uma janela de cerca de 60 minutos, tanto no circuito como em Melbourne, onde fica o hospital. Na maioria dos circuitos, uma ambulância chega ao hospital em menos de 45 minutos, que é o limite regulamentar. Em Phillip Island, a estrada não o permite, e por isso a corrida depende do ar. Webb chamou-lhe “uma pena” e “invulgar”. As imagens de televisão sugeriam que a pista até estaria em estado de ser corrida, o que torna o cancelamento mais frustrante.

Um argumento a favor da mudança?
É tentador ver nisto um argumento a favor de Adelaide, e tem alguma força. A dependência de um helicóptero, e de duas janelas de bom tempo, é uma fragilidade estrutural de Phillip Island que a mudança de um circuito junto a uma cidade teoricamente resolve, porque deixa de haver uma hora de estrada até ao hospital. Isto é uma dedução nossa, não uma informação confirmada pelas fontes locais. Mas convém não exagerar. O cancelamento diz respeito a uma regra de segurança e à geografia do circuito, não ao clima em si, e a decisão de sair da ilha foi tomada por razões comerciais e políticas, meses antes de chover. Acresce que um circuito de rua também tem os seus riscos com piso molhado e, em novembro, o tempo em Adelaide não é garantia de nada.
A ilha, essa, não fica vazia. Os Supercars regressam a Phillip Island, o WorldSBK continua a abrir lá a época, e Miller já disse que lá estará no verão australiano. Mas será outra coisa, e quem lá foi sabe.
Despedidas
Há uma certa justiça poética em que a última corrida de Phillip Island tenha sido às escuras e à chuva, como tantas outras vezes ali foi sendo corrida, ao sabor do vento. Perdeu-se o final que todos queriam, mas ficou uma imagem que talvez dure mais: dezoito pilotos, de capacete, a acenar devagar a quem tinha esperado horas, debaixo de um céu cinzento. É assim que se despedem os lugares de que se gosta. Sem programa, sem fogo de artifício, só com a vontade de ficar mais um bocado.
















