Depois de atravessar um dos períodos mais complicados da sua carreira, Jorge Martín voltou a sorrir. O campeão do mundo de 2024 deixou para trás as dúvidas físicas e mentais provocadas pelo grave acidente sofrido no Qatar e, após um início difícil na sua aventura com a Aprilia, tornou-se num dos grandes protagonistas da luta pelo título de MotoGP em 2026.
O piloto madrileno chega à fase decisiva do campeonato envolvido na batalha pelo Mundial com a Ducati e com o seu companheiro de equipa, Marco Bezzecchi, uma situação que, há apenas alguns meses, parecia impensável. Numa extensa entrevista à revista italiana Motosprint, Martín falou sobre a sua evolução, destacou o papel fundamental de María Monfort, Aleix Espargaró e do seu psicólogo, refletiu sobre o polémico episódio contratual com a Aprilia e explicou porque considera que perder um campeonato lhe ensinou muito mais do que ganhá-lo.
Martín reconhece que a transformação vivida esta temporada superou até as suas próprias expectativas:
«Tudo está a correr bastante bem. Há seis meses seria impensável pensar que hoje estaria nesta posição na classificação geral. Fisicamente sinto-me bem, ainda há aspetos a melhorar, mas estou a evoluir passo a passo. No geral, consigo lutar na pista.»
Após um longo processo de recuperação e adaptação à RS-GP, o espanhol voltou a sentir-se competitivo num momento crucial da temporada.
O campeão do mundo tem a certeza de que o seu crescimento não teria sido possível sem as pessoas que o rodeiam, embora admita que é impossível resumir essa lista a apenas três nomes:
«Certamente a minha namorada María, mas dizer apenas três pessoas é impossível. O meu treinador Jorge, que é a pessoa com quem mais tempo passo, mas também o Aleix, que me ajudou muito no meu processo de crescimento e a ultrapassar alguns momentos difíceis. Obviamente também estão o meu representante Albert e toda a minha família. Criei o meu próprio grupo e isso ajuda-me a evoluir.»
Martín refletiu ainda sobre a forma como a figura do piloto de MotoGP mudou ao longo dos anos:
«Antigamente o desporto era mais um espetáculo. Havia corridas, mas os pilotos não eram atletas. Hoje somos atletas que têm de comer bem, dormir bem e treinar. É preciso estar concentrado e isso faz com que queiras ter ao teu lado uma pessoa que te transmita tranquilidade.»
Por isso considera que a relação com María teve um papel determinante:
«Talvez sem a María estivesse muito menos focado naquilo que tenho de fazer. Sairia mais à noite e pensaria noutras coisas. Agora estou tranquilo porque sei que tenho uma pessoa que me apoia nos momentos difíceis e desfruta comigo dos bons.»
Embora admita que casar faz parte dos seus planos, não tem pressa:
«Sim, gostava de casar, mas quando chegar o momento certo. Não quero fazê-lo rapidamente como outras pessoas.»
Há vários anos que Martín fala abertamente sobre o trabalho psicológico que realiza e garante que continua a ser uma parte essencial da sua evolução:
«Há sempre muito trabalho a fazer, não apenas como desportista, mas sobretudo como pessoa. Todos temos os nossos medos e batalhas internas. Graças ao meu psicólogo aprendi a compreendê-los e, quando regressam, sei como enfrentá-los.»
O espanhol acredita que hoje se conhece muito melhor:
«Sinto-me cada vez mais maduro. Muitas pessoas nunca chegam realmente a conhecer-se porque não fazem perguntas a si próprias. Eu tento compreender-me cada vez mais.»
Essa vontade de crescer levou-o também a ler a Bíblia e a interessar-se por outras áreas:
«Quero crescer e aprender. Gostava de conhecer várias línguas. Só temos uma vida e não quero ser apenas um piloto. Quero chegar à velhice sabendo que fiz muito mais coisas.»
O piloto da Aprilia recordou também o grave acidente sofrido no Qatar e o longo caminho até voltar a vencer:
«É preciso ter um propósito. Uma vida sem propósito está completamente vazia. Neste momento sou piloto e nunca pensei em não voltar. Tinha um fogo dentro de mim que me permitiu melhorar passo a passo.»
Um processo que, admite, durou praticamente um ano:
«Foi um caminho desde o acidente até voltar a ganhar e tive de trabalhar imenso, apoiando-me nas pessoas que tinha por perto.»
Ver Marco Bezzecchi vencer com a Aprilia serviu de motivação adicional durante a recuperação:
«Foi uma boa notícia porque saber que a moto que me esperava era uma moto vencedora ajuda. Pensei: “Se ele consegue, eu também consigo”. Isso deu-me muita determinação.»
Apesar disso, reconhece que ainda está a descobrir todos os segredos da moto:
«Ainda não fiz muitos quilómetros e continuo num processo de aprendizagem. Por vezes a moto tem reações inesperadas, mas é um caminho destinado a melhorar.»
Sobre a relação com Massimo Rivola, depois dos desentendimentos do ano passado e de algumas críticas públicas, garante que a situação está completamente ultrapassada:
«A comparação com um pai é apropriada. Ele queria o melhor para mim, mesmo quando não estávamos de acordo. No ano passado eu queria sair da Aprilia e ele queria que eu ficasse. Houve confrontos, mas decidimos continuar juntos e as coisas foram melhorando.»
E acrescentou:
«Agora estamos bem e acredito que devemos estar mais unidos do que nunca porque temos uma grande oportunidade de vencer.»
Martín não tem dúvidas de que a Aprilia fará tudo o que estiver ao seu alcance para conquistar o campeonato:
«Acredito que o objetivo do Massimo é colocar-me em condições de ganhar. Estou tranquilo porque sei que fará tudo o possível para que isso aconteça. O trabalho em Noale e na pista está a ser incrível e lutar com a Ducati é emocionante.
Se a luta pelo título se prolongar até à última corrida, Martín acredita que a experiência acumulada poderá ser decisiva:
«Se chegar à última corrida a discutir o campeonato, isso será uma vantagem. Nesses momentos há sempre algum receio, mas cada rival é diferente e o Marco está a demonstrar um nível muito alto. E também há o Márquez.»
















