Enquanto a grelha de MotoGP se prepara para as grandes mudanças da temporada de 2027, a garagem da Prima Pramac Yamaha atravessa um período de transição delicado. Apesar de resultados abaixo das expectativas — com apenas 31 pontos conquistados na primeira metade da época —, o ambiente dentro da equipa satélite continua a ser de uma serenidade notável. Uma harmonia humana que o diretor de equipa, Gino Borsoi, atribui diretamente à personalidade excecional dos seus dois pilotos, Jack Miller e o estreante Toprak Razgatlioglu.
Questionado pela Motosprint, Gino Borsoi mostrou-se satisfeito por trabalhar com uma dupla de comportamento exemplar num meio onde os egos muitas vezes falam mais alto:
“Antes de mais, quero reafirmar que o Toprak é uma pessoa fantástica, com quem é fácil e agradável trabalhar. É um profissional que também sabe ser um bom colega de equipa. É muito educado, e é raro encontrar pilotos tão educados, embora seja normal, porque todos querem provar que são os melhores e, neste meio, também é preciso uma certa dose de loucura. Estas qualidades nem sempre andam de mãos dadas e, por vezes, encontramos personalidades difíceis de gerir.”
Borsoi acredita que a atual dupla da Pramac representa uma lufada de ar fresco a nível humano:
“No entanto, tenho de dizer que tanto o Toprak como o Miller são um pouco exceções neste paddock e estou muito satisfeito por os ter na equipa.”
Embora ainda não exista qualquer anúncio oficial, o futuro do australiano na Yamaha parece cada vez mais incerto. Os rumores apontam para a chegada do jovem Izan Guevara, proveniente do programa Moto2 da marca, para fazer dupla com Razgatlioglu a partir de 2027, enquanto Miller é apontado ao percurso inverso, rumo ao Mundial de Superbike.
Apesar desta perspetiva de saída, Jack Miller nunca deixou de cumprir o seu papel. Depois de se juntar à Pramac no início de 2025, após a sua saída da KTM, o australiano dedicou-se totalmente ao desenvolvimento da Yamaha M1. Orientou os engenheiros na fase final da era do motor de quatro cilindros em linha e trouxe uma experiência valiosa para o desenvolvimento do novo motor V4 da marca dos três diapasões.
Embora tenha sido um pouco mais crítico nas suas declarações recentes, Miller evitou atacar diretamente a Yamaha, deixando as críticas mais duras para os pilotos da equipa oficial.
Do outro lado da garagem, o tricampeão do Mundo de Superbike continua a sua aprendizagem na categoria rainha. Consciente das exigências do MotoGP e da complexa gestão dos pneus, Toprak Razgatlioglu destacou-se pela constante autocrítica nos seus primeiros meses na categoria.
Já com contrato assegurado para 2027, o prodígio turco prefere acumular experiência e adaptar-se totalmente à moto antes de exigir grandes evoluções aos engenheiros de Iwata. Uma abordagem humilde e estruturada que confirma, semana após semana, a elevada consideração que a equipa tem por ele.
E quanto ao “JackAss”? Se toda a gente gosta de Jack Miller, porque é que ninguém parece querer construir um projeto desportivo à sua volta? A resposta é provavelmente muito mais pragmática do que emocional.
Aos 31 anos, o australiano encontra-se no momento errado da sua carreira. O MotoGP prepara uma revolução técnica para 2027 e os construtores estão agora a apostar ou em superestrelas capazes de vencer imediatamente, ou em jovens talentos que possam desenvolver durante várias temporadas.
Miller não encaixa em nenhuma dessas categorias. Continua a ser extremamente competitivo, tecnicamente valioso e irrepreensível do ponto de vista humano, mas sofre com esse estatuto intermédio que tantas vezes faz vítimas durante grandes mudanças regulamentares.
A hipótese de uma mudança para o Mundial de Superbike ganha, por isso, cada vez mais força. Ironicamente, Jack Miller poderá acabar por regressar à categoria onde o seu futuro ex-companheiro de equipa, Toprak Razgatlioglu, se tornou uma das maiores lendas da era moderna.
Resta saber se o australiano aceitará as condições desportivas e financeiras que lhe forem propostas. As suas exigências salariais já afastaram vários projetos, incluindo algumas possibilidades dentro da própria Yamaha.
Mas uma coisa é certa: o paddock de MotoGP poderá perder uma das suas personagens mais carismáticas. Existe, afinal, um paradoxo chamado Jack Miller: toda a gente parece querer trabalhar com ele… mas ninguém parece conseguir oferecer-lhe a moto que considera merecer. E esse é talvez o elogio mais cruel num campeonato onde o talento humano, por si só, nem sempre é suficiente para garantir um lugar.
















