Davide Brivio possui uma experiência quase única no paddock. Foi uma peça fundamental nos sucessos de Valentino Rossi na Yamaha, conquistou um título mundial com a Suzuki e Joan Mir, passou pela Fórmula 1 como diretor na Alpine e regressou ao MotoGP com a Trackhouse-Aprilia. O italiano conhece os dois mundos por dentro e, apesar da impressionante sofisticação da Fórmula 1, identifica uma diferença fundamental: no MotoGP, quando as luzes se apagam, o piloto continua a ser quem controla grande parte da corrida.
A passagem do MotoGP para a Fórmula 1 não foi apenas uma mudança de campeonato para Davide Brivio. Nas suas palavras, foi “algo completamente diferente, outro mundo”.
Numa entrevista ao MotoGP.com, o atual diretor da Trackhouse começou por destacar a diferença de escala. Na Fórmula 1, as organizações são maiores, as equipas contam com mais elementos e os componentes e áreas técnicas são muito mais complexos. Foi precisamente essa profundidade tecnológica que atraiu Brivio quando deixou a Suzuki após o título mundial de Joan Mir, em 2020.
No entanto, depois de ter vivido ambas as realidades, não é necessariamente a dimensão das equipas que representa a maior diferença.
Brivio destaca a comunicação constante. Um piloto de Fórmula 1 permanece ligado aos seus engenheiros durante toda a corrida. Pneus, temperaturas, estratégia e comportamento do carro são temas que circulam continuamente entre o cockpit e o muro das boxes.
“Existe uma comunicação constante sobre os pneus, as temperaturas e tudo o resto”, explicou.
No MotoGP, a situação é bastante diferente. “Quando as luzes se apagam, cabe ao piloto decidir. Essa é talvez a maior diferença.”
A afirmação vai ao encontro da essência do motociclismo. A equipa pode preparar a moto, analisar dados e definir uma estratégia, mas quando a corrida começa, é o piloto que tem de interpretar sozinho o que está a acontecer: o estado dos pneus, o ritmo dos adversários, o momento certo para atacar ou, pelo contrário, para gerir.
O MotoGP está a desenvolver um sistema de comunicação por rádio integrado no capacete. Inicialmente pensado para mensagens de segurança, poderá no futuro permitir comunicações entre o piloto e a equipa.
O testemunho de Brivio dá uma perspetiva interessante a essa evolução: ao aproximar-se demasiado do modelo da Fórmula 1, poderá o MotoGP acabar por alterar aquilo que o torna único?
Brivio também aponta diferenças na cultura das duas modalidades. A Fórmula 1 assenta num trabalho de equipa extremamente estruturado, em torno de dois carros e de uma enorme organização técnica.
O MotoGP também se tornou muito mais colaborativo. Os dados são partilhados entre pilotos, os engenheiros trabalham em conjunto e as equipas satélite participam cada vez mais no desenvolvimento. Ainda assim, o individualismo do piloto continua a ter um peso muito maior.
“Costumamos dizer que o teu maior adversário é o teu companheiro de equipa”, recorda Brivio.
A diferença também existe fora da pista. Segundo a sua experiência, os pilotos de Fórmula 1 estão mais envolvidos em reuniões técnicas, compromissos mediáticos e obrigações relacionadas com a sua carreira. Os pilotos de MotoGP continuam a desfrutar de maior liberdade.
Ao olhar para a sua carreira, Brivio identifica uma pessoa como a origem de tudo o que alcançou: Valentino Rossi.
“Devo tudo ao Valentino, porque tudo o que consegui na minha carreira devo-o a ele.”
Brivio não se refere apenas aos quatro títulos conquistados ao lado de Rossi na Yamaha. Refere-se sobretudo a uma transformação cultural.
Quando Rossi chegou à Yamaha em 2004, o fabricante japonês não conquistava o título de pilotos desde Wayne Rainey, em 1992. Rossi e a sua equipa introduziram gradualmente uma nova mentalidade na estrutura: a convicção de que era possível vencer.
Essa experiência abriu-lhe mais tarde as portas da Suzuki.
“A Suzuki contratou-me pelo trabalho que fiz com o Valentino. Pensaram que eu poderia levar essa mentalidade para a Suzuki.”
A história deu-lhe razão. A Suzuki regressou ao MotoGP em 2015 e, apenas cinco anos depois, Joan Mir tornou-se campeão do mundo.
Yamaha, Suzuki, Alpine e agora Trackhouse. Brivio trabalhou em organizações muito diferentes entre si. A passagem pela Fórmula 1 permitiu-lhe conhecer os limites da engenharia, da análise de dados e da organização coletiva de uma corrida.
Mas também lhe permitiu valorizar aquilo que continua a distinguir profundamente o MotoGP.
A categoria rainha está a evoluir rapidamente, com mais aerodinâmica, mais dados e, possivelmente, comunicações por rádio num futuro próximo. Está, de certa forma, a seguir caminhos já explorados pela Fórmula 1.
Brivio lembra, contudo, que existe uma linha que não deve ser ultrapassada: aquela em que o piloto deixa de estar verdadeiramente sozinho na tomada de decisões.
Porque ainda hoje, quando as luzes se apagam numa corrida de MotoGP, os engenheiros podem observar todos os dados nos seus ecrãs. Mas quem tem de encontrar a solução continua a ser aquele que está sentado em cima da moto.
















