A anunciada saída de Nicolò Bulega para o MotoGP em 2027 não deixa apenas uma vaga em aberto na Ducati no Mundial de Superbike. Também levanta uma questão muito mais simbólica: o que resta hoje da identidade italiana da Ducati?
Enquanto a marca de Borgo Panigale se prepara para alinhar uma dupla 100% espanhola no MotoGP, composta por Marc Márquez e Pedro Acosta, Bulega considera que a Ducati cometeria um erro ao afastar-se definitivamente das suas raízes italianas no WSBK. E o futuro piloto da VR46 não teve receio de o dizer publicamente:
“Se eu fosse o Stefano Cecconi, seria importante para mim ter um italiano na equipa.”
Há apenas algumas semanas discutia-se em Itália o desconforto gerado pela futura dupla Márquez-Acosta na MotoGP. Será a primeira vez na era moderna da Ducati que a equipa oficial não contará com qualquer piloto italiano.
A reflexão de Bulega, feita ao Speedweek, prolonga esse debate. Caso a Ducati opte também por um piloto estrangeiro para substituir o italiano no WorldSBK, a marca de Bolonha poderá transformar-se numa máquina de vitórias completamente globalizada, mas cada vez menos italiana.
Uma evolução que parece não deixar Bulega indiferente.
Apesar disso, não faltam candidatos para ocupar o lugar de Bulega na equipa oficial Ducati de Superbike em 2027.
Segundo várias informações do paddock, a Ducati está a analisar perfis como Franco Morbidelli, Jack Miller, Maverick Viñales, Brad Binder e Alex Rins. A estes juntam-se ainda Celestino Vietti e Manuel Gonzalez, atual líder do campeonato de Moto2 e também apontado como alvo da BMW.
Ou seja, a prioridade da Ducati parece ser encontrar um piloto rápido e imediatamente competitivo, mesmo que tenha de o recrutar entre pilotos da MotoGP que atravessam momentos menos positivos.
Bulega compreende perfeitamente essa lógica do ponto de vista desportivo:
“Isso poderia ser benéfico para a equipa e para o campeonato.”
O italiano recorda ainda que a alteração regulamentar prevista para 2027 poderá favorecer a chegada de antigos pilotos de MotoGP ao WorldSBK.
A partir dessa temporada, os pneus Michelin substituirão os Pirelli como fornecedor único da categoria, uma mudança significativa que poderá beneficiar pilotos com vasta experiência nos compostos franceses.
“As pessoas da Michelin conhecem esses pilotos e sabem como eles trabalham.”
Do ponto de vista técnico, a Ducati teria assim motivos sólidos para apostar num piloto vindo da categoria rainha.
Mas Bulega introduz um elemento muito mais profundo na discussão: a identidade do próprio projeto Ducati.
“Tive a oportunidade de correr no Superbike porque já fazia parte da equipa, cresci com eles e sou italiano.”
Esta frase encerra uma filosofia importante.
Bulega recorda que não chegou à Ducati como uma estrela contratada a peso de ouro. É um produto do próprio sistema Ducati: um piloto italiano desenvolvido por um construtor italiano para representar a marca num campeonato onde a Panigale V4 se tornou uma referência absoluta.
Por outras palavras, a Ducati não vende apenas motos. A Ducati vende também uma história.
A posição de Bulega ganha ainda mais relevância perante as profundas mudanças que a Ducati atravessa atualmente.
Marc Márquez e Pedro Acosta formarão a dupla oficial na MotoGP. Francesco Bagnaia deixará a equipa de fábrica. Nicolò Bulega rumará à categoria rainha. Vários pilotos estrangeiros são apontados ao WorldSBK. E os rumores sobre uma eventual venda da Ducati pelo Grupo Volkswagen continuam a alimentar especulações sobre o futuro da marca.
















