O que o Dakar atual pode ter perdido em aventura, ganhou em espetáculo com o pano de fundo do Reino da Arábia Saudita

GPS, roadbooks e balizas eletrónicas podem ter tirado um bocadinho da magia dos Dakar africanos de outrora, quando só no final da etapa se sabia das peripécias dos concorrentes… mas o atual evento, disputado de 3 a 17 de janeiro passado num percurso que favorece ritmos rápidos como nunca através de estradões e desfiladeiros, permite acompanhar a prova como nunca antes, tornando-a ainda mais espetáculo.

Este ano, a 46ª edição, ganha pelo argentino Lucinano Benavides em KTM, contou com mais equipas nacionais do que nunca: 4 nas motos, incluindo uma inscrição oficial de Martim Ventura (84) como ‘rookie’ da famosa equipa Honda Monster Energy HRC, gerida pelo também português e vencedor de etapas Ruben Faria, Bruno Santos, o piloto empresário de A-dos-Cunhados que parece ter a capacidade de levar tudo à frente etapa após etapa, e numa perspetiva mais amadora, a dupla da ‘Old Friends Racing Team’ de Pedro Pinheiro e Nuno Silva.
Nos SSV, de longe a classe com mais portugueses, havia Gonçalo Guerreiro, João Monteiro com Nuno Morais, Hélder Rodrigues com Gonçalo Reis, Alexandre Pinto com Bernardo Oliveira, e ainda Dias/Jordão e Martins/Adão. Para não falar dos carros e do português Fiúza numa das equipas da frente dos camiões.

AS MOTOS
A prova começou com algumas alegrias para os portugueses: Martim Ventura, como ‘rookie’, adaptou-se perfeitamente às exigências do dia a dia da prova: Se 21º no Prólogo não levantou sobrancelhas, apenas 4 lugares à frente da Husqvarna de Bruno Santos, (35) logo na primeira Etapa Yanbu- Yanbu o português foi 11º à geral e colocou a Honda Monster Energy em 2º da classe ganha por Docherty.
Na segunda etapa, de Yanbu a Alula, não só elevou a fasquia com 6º à Geral, mas fez história com a primeira vitória da equipa Honda na classe Rally 2. Nesta, Santos foi um creditável 27º, posição que foi melhorando praticamente ao longo de toda a prova.
A Etapa 3 começou a evidenciar o que se previa como um duelo das equipas oficias KTM/Honda, com Ventura mais uma vez 11º (e 2º da Rally 2) e Santos muito melhorado em 21º.
No dia seguinte, arrancava de Alula a 1ª etapa Maratona, que trouxe um desaire a Martin Ventura: Uma mousse desfeita viu o piloto da HRC chegar ao bivouac no aro da roda, e em 68º, deitando a perder o bom trabalho realizado antes. Nesta, Bruno Santos continuava a aparecer em 21º, arranhando um Top 20 que persistia em ficar uns segundos fora de alcance, e Pedro Pinheiro (116) acabava em 42º com o colega de equipa Nuno Silva mais atrás em 77º.

A Etapa Maratona completava-se no dia seguinte com mais 440 km de especial, que viu uma grande recuperação de Martim Ventura para 13º e repetição do 21º para Bruno Santos. Por essa altura, Pedro Pinheiro era 53º e o seu colega estreante Nuno Silva 73º.
Na subida de Hail para Riyadh, enquanto a Honda Monster Energy se impunha à frente, Ventura esteve de novo bem em 14º e recuperara para 5º da Rally 2, enquanto Santos chegava ao dia de descanso em Riyadh em 25º, Pinheiro em 75º após ser abalroado por um carro dum espetador e Nuno Silva ainda mais atrás em 89º… A Etapa seria a última de Pinheiro, a tornar-se a primeira baixa dos portugueses com uma suspeita fratura da clavícula.
Logo depois do descanso, os 721 Km para Wadi Ad Dawasir viram Ventura entrar de novo no Top 10, 2º na Rally 2 de novo, com Santos 20º e Nuno Silva, passando a arrancar sozinho, um distante 92º…
Estávamos na 9ª etapa, de novo em Maratona, que Ventura cumpriu em 24º após mais um contratempo, um lugar e 2 minutos atrás do 23º de Bruno Santos, que entretanto ia ascedendo a 8º da Rally 2.

O resto da Maratona, até Bisha, era a 10ª Etapa em que Ventura chegou a 13º e Santos a 17º, numa clara tendência ascendente embora não houvesse praticamente desistências entre os homens da frente… isto foi seguido de 12º para Ventura e 17º para Bruno Santos na seguinte, com o fim já a avizinhar-se.
Ainda houve mais uma etapa de sucesso para o português da Honda HRC, quando um ajuste aos tempo finais lhe deu a vitória à Rally 2 mais uma vez, numa etapa em que fora 7º à geral.
Na penúltima Etapa, Ricky Brabec veio detrás para garantir o que parecia uma vantagem confortável antes da etapa final, com Ventura mais uma vez nos primeiros lugares. Porém o Dakar é imprevisível, e um erro de Brabec na curta especial final acabaria por dar a vitória, pela mais irrisória margem de sempre num Dakar, de 2 segundos, a Benavides…

Resultado final dos portugueses: Ventura, 11º da geral e 3º da Rally 2 e Bruno Santos 17º à geral, com um fantástico 7º na Rally 2 e primeira Husqvarna de longe.
Finalmente, a completar com sucesso a sua estreia no Dakar, Nuno Silva (74 acima) do Old Friends Rally Team ficou desta em 85º da Geral.

SSV acabaram com vitória nacional
Na categoria dos ‘aranhiços’ de 4 rodas, Portugal jogava forte, com o Campeão da categoria Gonçalo Guerreiro em prova com o brasileiro Maikel Justo por navegador, os ‘refugiados’ das motos Hélder Rodrigues e Gonçalo Reis num Cam Am da Santar Racing e os credenciados Monteiro/Morais noutro. Outras formações tinham Alexandre Pinto/Bernardo Oliveira e Dias/Jordão e Martins/Adão, que ficaram de fora na etapa 10.

A categoria acabou com a alegria final da vitória da dupla Monteiro/Morais (acima) a caminho de 4º na geral e à frente dos angolanos Silva e Albuquerque, que acabariam em 16º da geral.
Por fim, parabéns a Paulo Fiúza que ao partilhar a vitória nos camiões se tornou no primeiro português de sempre a vencer um Dakar à geral!














