Ponto prévio: o que Romano Fenati fez no passado domingo é inqualificável e já está a pagar com juros uma acção que destruiu por completo uma carreira, que prometia tanto há poucos anos atrás. Porém, como se costuma dizer uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.
Daí ser exagerado o que por aí é apregoado, nomeadamente nas contundentes redes sociais, onde praticamente é exigido que Fenati vá para o cadafalso. O italiano, reincidente em pisar o risco, esteve muito mal, mas não passou a ser o maior criminoso do mundo de um dia para o outro. Com a vertiginosa circulação de informação nos dias de hoje este foi um caldeirão que fervilhou nas últimas horas, meteu à mistura uma possível acusação de tentativa de homicídio pelo que fez em Misano, e que teve hoje como consequência a tomada de atitude, por parte deste jovem de 22 anos, de abandonar o motociclismo. Cortar o mal pela raiz.
Sim, Romano Fenati poderá ser personificado como a loucura em duas pernas, basta ver o seu ‘cadastro’, mas noutros desportos, nomeadamente no futebol, existem outras figuras com comportamentos altamente reprováveis e de forma repetida que mesmo assim continuam a merecer um olhar com ternura e admiração por parte dos adeptos. Falo por exemplo de nomes como Mario Balotelli, curiosamente também é italiano como Romano Fenati, mas também poderei falar de personagens como Zlatan Ibrahimovic, Eric Cantona e Diego Maradona, para recorrer nestes dois últimos a exemplos mais antigos. A eles tudo é perdoado. Lembram-se dos gestos obscenos de Maradona no último Mundial de futebol, na Rússia, ao festejar um golo da selecção argentina?
Dirá o leitor que nenhum nome atrás mencionado, quando forçou a barra, ia a mais de 200 km/h e pressionou a manete do travão da moto do adversário. Muito bem podemos então pegar na famosa guerra, no Mundial de Fórmula 1, entre Ayrton Senna e Alain Prost. Lembram-se de Suzuka 1990 quando o brasileiro atirou deliberadamente o francês para fora de pista, logo após a partida, e a alta velocidade para assim garantir o segundo título mundial da carreira. Colocou ou não a sua vida e a do rival de sempre em risco? Deixou Senna de ser um grande campeão pelo que fez?
Não quero estar a ser o advogado de defesa de Romano Fenati. Longe disso. Apenas pretendo é que se tenha sobretudo uma visão helicóptero sobre um tema altamente delicado. No meio do extremismo de opiniões, muito típico da sociedade dos nosso dias, palavra de valor para o jovem Joan Mir, piloto que foi rival de Fenati em Moto3, e deixou uma nota, nas redes sociais, ao antigo colega de profissão pedindo para que este não desistisse do seu futuro enquanto piloto. Isto porque segundo palavras do espanhol todos merecem uma segunda e até mesmo uma terceira oportunidade. Fica o gesto, mas já foi tarde demais.
É altura de Romano Fenati reerguer-se e seguir em frente com a vida. Como diria Mário Soares, só é vencido quem desiste de lutar. Afinal o homem nascido em Ascoli só tem 22 anos e uma vida inteira pela frente que espera-se, seja qual for o seu caminho profissional daqui em diante, tenha mais momentos altos do que frustrações, algo que nas corridas de motos, infelizmente para ele, não foi possível.














