Ao longo de toda a história do motociclismo, ocorreram acidentes e incidentes entre inúmeros pilotos, algo inevitável devido à natureza deste desporto e que continuará a existir enquanto um grupo de 20 pilotos, nas suas motos de elevada cilindrada, competir para descobrir quem é o mais rápido num circuito.
No entanto, a forma como os comissários do MotoGP atuam para sancionar determinadas infrações ou incidentes entre pilotos gera sempre muita polémica. Isto porque, com o modelo atual, a penalização não tem em conta se um piloto ficou lesionado ou se voltou a subir para a moto para continuar a competir depois de uma queda. Simon Crafar, atual diretor do painel de comissários, explicou ao Crash.net este sistema de penalizações não proporcionais e defendeu a sua utilidade.
Crafar quis deixar claro que, acima de tudo, «as penalizações nunca são olho por olho», defendendo um modelo de sanções baseado na convivência entre os pilotos e nos incidentes inerentes à alta competição:
«O facto de alguém ter arruinado a corrida de outro piloto não significa que vamos arruinar a sua. Os incidentes na primeira volta são avaliados com maior severidade porque podem colocar vários pilotos em perigo. Mas, se for uma tentativa legítima de ultrapassagem que corre mal e provoca uma queda, a penalização pela primeira infração é uma Long Lap, porque qualquer pessoa pode cometer esse erro.»
Nos últimos tempos, a penalização de Long Lap tornou-se uma espécie de carta ‘Joker’ para os comissários quando têm de sancionar um piloto que cometeu um erro e prejudicou outro. Crafar sublinha, aliás, que esta medida funciona como um aviso e não como um castigo proporcional à infração:
«Uma Long Lap não é assim tão grave. Acrescenta dois ou três segundos à volta de um piloto. Mas a penalização consiste em reconhecer que fizeste algo errado e não voltar a fazê-lo, caso contrário serás penalizado com maior severidade.»
O antigo piloto neozelandês também salientou que as consequências posteriores de um incidente não influenciam a forma como os comissários atuam. Ou seja, se um piloto ficar lesionado devido ao erro de outro rival, isso não será tido em conta na penalização do infrator.
«Não se trata das consequências, para além daquilo que definimos como “provocar um acidente”. Há vários aspetos a ter em consideração, mas, em primeiro lugar, não podemos esperar pelo relatório médico para depois ajustar a penalização em conformidade. Concentramos-nos exclusivamente na ação em si: na dimensão do erro, na gravidade da intenção e no perigo que representou. Não podemos olhar para a forma como outro piloto ficou lesionado, porque isso é uma questão de sorte e faz parte do lado brutal do nosso desporto.»
Simon Crafar esclareceu ainda que o seu trabalho «não consiste apenas em penalizar», mas também em defender o piloto que provocou o acidente, uma vez que, segundo o diretor dos comissários, isso poderia acontecer a qualquer um.
Crafar justificou esta posição com um exemplo hipotético de um piloto envolvido num acidente:
«Consideramos que é um incidente de corrida, o que significa que ninguém fez nada de errado. Ambos tentaram passar pelo mesmo espaço da pista; basicamente, alguma coisa aconteceu e consideramos que não é uma infração punível. No entanto, o teu piloto acaba gravemente lesionado por causa disso. É por isso que há muita gente zangada, e compreendo porquê. Mas, nesse caso, o nosso trabalho é defender o outro piloto envolvido, que provavelmente também se sente bastante mal. Do nosso ponto de vista, eles estavam simplesmente a competir. Foi um incidente de corrida. Não fizeram nada de particularmente grave; é simplesmente uma pena que o outro piloto tenha ficado lesionado.»
Como seria de esperar, Crafar especificou que «o principal objetivo é tornar as corridas tão seguras e justas quanto possível». No entanto, reconhece que existem sempre nuances:
«Nunca será completamente seguro nem justo, mas aquilo que tento fazer é investigar tudo o que vemos e comunicar com os pilotos e as equipas.»
«Se vir algo que não seja punível, mas que não seja totalmente seguro ou justo, obtenho o vídeo, envio-o ao responsável da equipa e digo-lhe: “Por favor, fale com eles sobre isto…” Se for algo muito grave, ou se o tiverem feito mais do que uma vez, também os vou chamar e mostrar-lhes. Se não fizermos isso, o piloto vai pensar que escapou impune e continuará a fazê-lo», explicou o diretor do painel de comissários sobre o protocolo a seguir.
Segundo Simon Crafar, esta forma de atuar, apelando à sensibilidade humana e ao bom senso num ambiente tão complexo como o MotoGP, marcado pelos elementos próprios da competição de elite, é precisamente aquilo que «evita muitas penalizações» e, consequentemente, muitos acidentes.
«Acabo por dedicar mais tempo a esse tipo de comunicação, dizendo: “Por favor, não faças isso, ou acabarás por receber uma penalização”. Como já foram avisados, sabem que estamos atentos e, em nove de cada dez casos, deixam de fazê-lo ou, pelo menos, não ficam surpreendidos quando são penalizados.»
Além disso, o responsável pelo painel de comissários explicou que o critério também pode mudar quando, numa segunda infração, um piloto se prejudica a si próprio ou, pelo contrário, interfere diretamente na corrida de um rival:
«Se o próprio piloto tiver caído durante aquilo que seria uma segunda infração, uma única Long Lap poderá ser suficiente nessa situação. Mas, se conseguirem derrubar outro piloto e continuarem em pista, então merecerão uma dupla Long Lap.»
















