Uma das imagens mais absurdas do MotoGP moderno não é uma queda espetacular nem uma ultrapassagem polémica. É ver um piloto celebrar um pódio diante de milhões de espectadores e descobrir, mais de uma hora depois, que afinal nunca deveria ter estado lá. Tudo por causa das regras relativas à pressão dos pneus herdadas da era Michelin, regulamentos que agora passarão para as mãos da Pirelli.
Joan Mir sabe bem o que isso significa. Quando a Honda anunciou a sua saída rumo à Gresini para 2027, a marca japonesa destacou os seus “três pódios” com a HRC. Uma referência que pode surpreender quem consulta as estatísticas oficiais do campeonato, onde aparecem apenas dois.
O terceiro foi conquistado no Grande Prémio da Catalunha de 2026. Um pódio real na pista, celebrado no parque fechado e na cerimónia oficial, mas posteriormente apagado da classificação devido à controversa regra da pressão mínima dos pneus. Um episódio que resume perfeitamente o desconforto crescente em torno desta regulamentação.
Importa esclarecer que ninguém questiona a necessidade de garantir a segurança dos pilotos. A Michelin introduziu limites mínimos de pressão por razões técnicas legítimas. A aerodinâmica extrema das atuais motos de MotoGP e as elevadas temperaturas geradas quando os pilotos seguem muito próximos podem criar situações potencialmente problemáticas.
O verdadeiro problema está noutro lado.
Em que outro desporto é possível ver um pódio celebrado publicamente e alterado mais de uma hora depois por uma infração impossível de detetar a olho nu? Seria impensável imaginar o vencedor das 24 Horas de Le Mans a perder a vitória depois de já ter levantado o troféu, ou um campeão olímpico a ser desclassificado após a cerimónia de medalhas devido a uma medição técnica invisível para o público. O MotoGP criou um problema de comunicação com os seus próprios adeptos.
Com a entrada da Pirelli como fornecedora oficial a partir de 2027, muitos acreditavam que esta regra desapareceria automaticamente. No entanto, não será assim.
Giorgio Barbier, diretor de competição de motociclismo da Pirelli, confirmou que os regulamentos serão mantidos numa fase inicial. Uma decisão compreensível, já que a marca italiana ainda não possui experiência suficiente com as futuras motos de 850cc.
Atualmente, a regra exige que a pressão mínima seja mantida acima dos 1,80 bar na frente e 1,68 bar na traseira. Caso contrário, os pilotos enfrentam penalizações pesadas: 16 segundos nas corridas principais e 8 segundos nas Sprint.
Segundo Barbier, os pneus Pirelli foram concebidos de forma diferente e não deverão incentivar as equipas a baixar excessivamente as pressões em busca de desempenho.
“Temos uma construção diferente, materiais diferentes e pressões de utilização diferentes. Não acredito que um pneu Pirelli funcione melhor a 1,4 bar do que a 2,0 bar. Por isso, não deveremos enfrentar este tipo de problema.”
Apesar disso, a fabricante italiana prefere recolher dados antes de tomar qualquer decisão definitiva.
“Por agora vamos manter o regulamento e esperamos não ter de o aplicar. Mais tarde decidiremos se deve ser modificado ou eliminado.”
O responsável da Pirelli sublinha ainda uma diferença importante em relação à Michelin: os seus pneus apresentam uma faixa de funcionamento muito mais ampla e tolerante às variações de pressão.
“Uma coisa que observei é que o fornecedor atual é extremamente sensível às variações de pressão. Os nossos pneus oferecem uma margem de utilização bastante ampla. O comportamento do pneu não muda significativamente de uma pressão para outra.”
Esta característica poderá reduzir drasticamente o risco de pódios serem anulados por pequenas alterações de temperatura ou pressão durante a corrida.
Talvez a frase mais reveladora de Barbier tenha sido a seguinte:
“Esperamos nunca ter de aplicar esta regra.”
Uma afirmação que sugere que até a própria Pirelli reconhece o desconforto gerado quando um piloto perde um pódio muito depois da bandeira de xadrez.
Existem vários motivos para acreditar que a situação poderá melhorar a partir de 2027. As novas motos terão motores de 850cc, menos aerodinâmica e uma filosofia técnica bastante diferente da atual. Além disso, os pneus Pirelli parecem possuir uma janela operacional muito mais ampla do que os Michelin.
Segundo a marca italiana, pequenas variações de pressão não provocam alterações significativas no comportamento dos pneus, reduzindo a necessidade de penalizações desportivas.
No fundo, a questão vai além da regulamentação técnica. Trata-se de credibilidade e compreensão por parte do público. Num desporto, o vencedor deve ser vencedor quando cruza a meta. O pódio deve manter-se depois da cerimónia.
Os adeptos compreendem penalizações por falsa partida, ultrapassagens sob bandeiras amarelas ou incidentes em pista porque conseguem vê-las acontecer. Já uma sanção baseada em dados eletrónicos relativos à pressão dos pneus durante uma determinada percentagem da corrida é muito mais difícil de explicar.
A Pirelli parece ter entendido perfeitamente esse problema. Por agora, a regra continuará em vigor como medida de precaução, mas poderá ser revista ou até eliminada se as novas motos e os novos pneus tornarem essa necessidade obsoleta.
Porque ninguém sai beneficiado quando um piloto descobre que já não está no pódio depois de ter posado para a fotografia oficial. Nem o piloto, nem a equipa, nem os adeptos — e muito menos o próprio MotoGP.
















