Há apenas algumas semanas, a Aprilia parecia ter tudo para alcançar uma temporada histórica. Dois pilotos na luta pelo título mundial, uma RS-GP capaz de rivalizar com a Ducati e um ambiente descrito como exemplar dentro da garagem de Noale. Hoje, o cenário é bem diferente.
Segundo o empresário italiano Carlo Pernat, o incidente entre Jorge Martín e Marco Bezzecchi no Grande Prémio da Hungria deixou marcas profundas. Ao ponto de a relação entre os dois pilotos se ter deteriorado completamente, criando uma divisão que ultrapassa agora o simples âmbito desportivo.
Durante grande parte da temporada, Marco Bezzecchi parecia ter encontrado a consistência que por vezes lhe faltara no passado. Vencedor em Mugello, assumiu a liderança do campeonato e ainda tinha uma vantagem de 21 pontos antes do Grande Prémio da Hungria.
Depois, tudo mudou. Dois abandonos, duas ausências, uma suspensão em Brno após um incidente com um comissário de pista e uma lesão na Alemanha interromperam bruscamente o seu bom momento. Contudo, o golpe mais duro surgiu em Balaton Park.
Logo na primeira curva do Grande Prémio da Hungria, Jorge Martín perdeu o controlo da sua Aprilia e atingiu o companheiro de equipa. O acidente provocou ainda os abandonos de Raúl Fernández e Fermín Aldeguer, transformando a primeira volta numa verdadeira catástrofe para o construtor italiano.
Desportivamente, Bezzecchi perdeu pontos importantes. Psicologicamente, o incidente poderá ter tido consequências muito mais profundas. Para Carlo Pernat, este episódio alterou profundamente o ambiente dentro da equipa oficial.
Em declarações citadas pelo Speedweek, o empresário italiano descreveu uma situação particularmente tensa:
“Antes, a equipa era como uma taça de champanhe: tudo corria bem. Desde a Hungria, tudo mudou.”
Segundo Pernat, os dois pilotos deixaram de comunicar.
Mais preocupante ainda, as tensões terão alastrado aos elementos das respetivas equipas.
“Trocam olhares hostis, os pilotos já não falam entre si, os engenheiros de pista já não falam entre si. O ambiente é mau. É como se um vaso se tivesse partido.”
Se esta descrição corresponder à realidade, a Aprilia estará a viver a maior crise interna desde o seu regresso ao topo da MotoGP.
Os números parecem dar algum suporte a esta análise.
Depois de vencer cinco das primeiras sete corridas da temporada, a Aprilia conquistou apenas um pódio nas últimas quatro rondas. Nesse período, Bezzecchi e Martín somaram apenas 65 pontos entre ambos.
Em comparação, Ai Ogura, da TrackHouse Aprilia, conquistou 102 pontos, enquanto Marc Márquez somou 119, relançando completamente a luta pelo campeonato.
Ou seja, atualmente já não são os pilotos oficiais que sustentam as ambições da Aprilia.
As relações entre Marco Bezzecchi e Jorge Martín nunca foram totalmente neutras. Os dois protagonizaram intensos duelos na Moto3 em 2018. No entanto, desde que passaram a partilhar a mesma garagem na MotoGP, nunca tinham surgido sinais evidentes de hostilidade.
O acidente da Hungria poderá ter reacendido tensões que muitos julgavam ultrapassadas.
Nas horas que se seguiram ao incidente, Massimo Rivola criticou publicamente Jorge Martín, afirmando que tinha cometido um erro que “um campeão do mundo não deveria cometer”. Mais tarde, o diretor da Aprilia suavizou o tom das declarações, procurando aparentemente reduzir a tensão. Mas, segundo Carlo Pernat, os danos já estavam feitos.
Importa, contudo, manter alguma prudência. As declarações de Carlo Pernat refletem a sua interpretação da situação e não constituem uma confirmação oficial do estado das relações dentro da equipa.
Nem a Aprilia, nem Jorge Martín, nem Marco Bezzecchi confirmaram publicamente uma rutura tão profunda.
Há, no entanto, um facto incontestável: os resultados desportivos pioraram precisamente quando começaram a surgir as tensões internas. E, com a reta final da temporada a aproximar-se, a Aprilia continua na luta por dois títulos importantes: o de pilotos e o de construtores.
Neste contexto, o principal desafio de Massimo Rivola poderá não passar apenas por melhorar a RS-GP. Talvez a sua missão mais importante seja reconstruir a união de uma garagem que, ainda há poucas semanas, parecia ser uma das maiores forças do projeto Aprilia. Porque, se esta alegada guerra fria entre Jorge Martín e Marco Bezzecchi continuar, poderá ser a Ducati a beneficiar quando chegar o momento de decidir os títulos mundiais.
















