Do que se trata com esta nova controvérsia

Houve um tempo em que um piloto de motos se despachava de um autógrafo com um sorriso e uma caneta emprestada. Hoje, o MotoGP quer que o faça com um cronómetro na mão.
Em outubro de 2026, os organizadores do campeonato passaram a querer multar os pilotos que faltem aos eventos promocionais do fim de semana de corrida, com uma escala de sanções que começa numa advertência, passa por uma multa de até 15.000 € e acaba numa penalização na grelha de partida. Os pilotos, quase em coro, acham que o preço é demasiado alto. Mas há quem defenda o campeonato.

Como chegámos a esta situação
Tudo começou no Grande Prémio do Japão, quando Marc Márquez recusou participar numa corrida de karts na manhã de domingo e mandou um duplo no seu lugar. O truque foi descoberto e o campeão do mundo repreendido. Explicou depois que precisava de gelo para o ombro lesionado, não queria arriscar agravar lesões e que, nestes momentos, é preciso ser egoísta e render ao máximo onde conta, ou seja, nas corridas.
Uma semana depois, no Grande Prémio da Indonésia, em Mandalika, a organização enviou às equipas uma circular que anunciava uma multa de 5.000 euros para quem não cumprisse o tempo mínimo de dez minutos na Hero Walk, a zona onde os adeptos (que pagam para lá estar!) tiram fotografias e pedem autógrafos. A MotoGP vinha, segundo as notícias, a observar há semanas uma quebra de empenho dos pilotos nestes encontros.
O quadro completo só chegou em Phillip Island, esta semana. Segundo o site The Race, que viu o correio eletrónico confidencial da IRTA, a falta à conferência de imprensa de quinta-feira, às atividades promocionais antes da corrida, à parada de pilotos de domingo ou aos dez minutos obrigatórios de autógrafos dá, à primeira vez, uma advertência oficial.
À segunda, uma multa de 5.000 euros, à terceira de 10.000, à quarta de 15.000 e a passagem do caso aos comissários da FIM. À quinta, perde-se tempo numa sessão de treinos, e à sexta, a equipa de comissários de Simon Crafar aplica uma penalização na grelha. Aos pilotos de Moto2 e de Moto3 aplicam-se as mesmas regras, com multas mais baixas. A chegada tardia ou a saída antecipada contam como falta, e só há exceções por lesão ou necessidade médica e por compromissos prévios com as equipas.
A justificação oficial é que as regras são coerentes com o desporto profissional em geral, onde a presença em atividades promocionais faz parte das obrigações do atleta. Para 2027, o aquecimento de domingo de manhã desaparece para abrir espaço a este tipo de eventos, como a corrida de karts de Motegi. Em Phillip Island, os pilotos desfilaram em mini-jipes elétricos.

As objeções dos pilotos
A reação foi quase unânime e, num paddock que raramente se entende, isso diz muito. Marc Márquez reconhece que quer o campeonato maior, mas argumenta que se pode crescer sem espremer os pilotos. Descreve uma manhã de domingo em que se passa de reunião de patrocinadores para aquecimento, de parada para Hero Walk e de volta a mais uma reunião, tudo antes de uma corrida. Somos atletas, diz, e o espetáculo está na pista, não fora dela. Teme que 2027 seja pior, com o novo formato de qualificação sprint e mais tempo dentro do fato de cabedal.
Álex Márquez diz que os estão a levar “ao limite” e que parece que os organizadores não querem saber da perspetiva dos pilotos. Lembra que fez 45 minutos a 190 batimentos por minuto numa corrida em Mandalika. Alex Rins confirmou que o calor deixa os pilotos “completamente destruídos”, e Marc Márquez contou que ficou tonto nas cerimónias depois da corrida de sprint.
Pedro Acosta foi mais longe. Diz que discorda por completo e que ninguém pode obrigar um piloto a fazer o que quer que seja sem saber o que se passa por trás, citando Raúl Fernández, que tinha um osso partido no dedo com que trava. A organização, pede o piloto da KTM, devia dar-lhes “um pouco de espaço”, e avisa que as carreiras vão ficar cada vez mais curtas e que lendas sairão do paddock sem querer voltar.

O outro lado, e o consenso possível
Ninguém discute o princípio de que a promoção é importante. Márquez diz que é o primeiro a querer que o campeonato cresça, e Acosta compreende que haja faltas, embora peça sensibilidade. Jack Miller, que sai para o WorldSBK em 2027 e aí terá metade das rondas e menos exigências, foi o único a falar a favor da regra. Se tens de lá estar, estás, diz, e ninguém está acima das regras, porque se todos saíssem fariam figura de parvos. Mas acrescentou que, se os pilotos têm de fazer mais, deveriam ser mais bem pagos.
O consenso a que se chega, portanto, é estreito: todos aceitam que o contacto com os adeptos faz parte do negócio, mas os pilotos recusam o método. Contestam multas automáticas que não distinguem uma lesão de um capricho, um calendário que cresce sem consultar e a ideia de que a presença se mede em minutos. O que a escala deixa de fora ajuda a perceber o limite: as aparições mediáticas para além da conferência de quinta-feira não contam.

Quem fala pelos pilotos?
O que falta, como já vários disseram, é uma voz. Na Fórmula 1 existe a GPDA, a associação de pilotos, com décadas de peso. No MotoGP, a Comissão de Segurança não convence ninguém: Bagnaia, que já se expressou várias vezes a favor da nomeação de um representante dos pilotos, contou que só quatro pilotos apareceram à reunião em que se discutiu o novo formato. Acosta duvida que algum dia haja um sindicato, porque cada um olha para o seu interesse, e até as equipas olham para o da marca. O irónico é que os pilotos já tinham isso na IRTA, a associação das equipas, que se foi convertendo após o falecimento do seu mentor Mike Trimby, num lacaio da Dorna, cuja atividade mais visível atualmente é regular o estacionamento dos camiões no ‘paddock’. Alguns dos envolvidos, porém, acham que se está a chegar a um ponto de rutura em que os pilotos acabarão por se organizar.
Entretanto, nos próximos fins de semana, os heróis vão ter de passar na passerelle… com o cronómetro a correr.














