Entre todos os grandes “e se?” da história do MotoGP, nenhum alimenta tantas discussões como este: o que teria acontecido se Casey Stoner não se tivesse retirado no final de 2012? Marc Márquez teria, ainda assim, conquistado o título mundial logo na sua época de estreia? Para Lucio Cecchinello, que provavelmente conhece Stoner melhor do que ninguém depois de o ter acompanhado durante quatro temporadas, a resposta está longe de ser simples.
Questionado pela Motorbike Magazine, o responsável da LCR não hesitou quando lhe perguntaram se teria gostado de assistir a esse duelo.
“Sim, absolutamente.”
Mas a sua resposta tornou-se ainda mais interessante quando teve de apontar um vencedor.
“Penso que o Casey teria ganho no início… e depois o Marc Márquez.”
Esta análise não se baseia numa diferença de talento. Para Cecchinello, o fator decisivo teria sido a motivação. O italiano recorda uma confidência que Stoner lhe fez em 2002.
Nessa altura, o australiano explicou-lhe que faria tudo para se tornar campeão do mundo antes de regressar à Austrália para viver uma vida tranquila. O destino acabou por lhe oferecer dois títulos mundiais.
Segundo Cecchinello, depois de alcançar esse objetivo, Stoner foi perdendo gradualmente a fome competitiva que caracteriza os maiores campeões. Em 2013 ainda possuía velocidade suficiente para derrotar Márquez, mas talvez já não tivesse a mesma vontade de continuar a lutar durante muitos anos.
No final de 2012, Stoner abandonou o MotoGP. Poucos meses depois, Marc Márquez herdou precisamente a sua Honda oficial. O resto tornou-se história: o espanhol tornou-se o primeiro estreante da era moderna a conquistar o título mundial logo na sua temporada de estreia.
Fica, contudo, uma questão impossível de responder: teria conseguido esse feito com Casey Stoner na garagem ao lado?
Este confronto imaginário continua a fascinar porque colocaria frente a frente dois estilos completamente distintos.
Stoner representava a condução por instinto. A sua capacidade para controlar a moto com a roda traseira, manter velocidade em derrapagem e dominar máquinas consideradas extremamente difíceis continua a ser uma referência absoluta. Aliás, é precisamente essa escola australiana que Senna Agius diz seguir atualmente.
Márquez, por sua vez, impressiona pela extraordinária capacidade de adaptação. A sua agressividade, aliada à habilidade de ultrapassar constantemente os próprios limites e reinventar a sua forma de pilotar perante cada dificuldade, é provavelmente a sua maior força.
Um guiava quase exclusivamente pelo instinto e sensações. O outro parece capaz de reinventar continuamente o seu estilo de pilotagem.
Talvez o mais revelador seja o facto de o próprio Marc Márquez já ter admitido várias vezes que lamenta nunca ter competido contra Casey Stoner.
Não apenas para medir o seu nível frente ao australiano, mas também para observar de perto a sua forma de pilotar.
Este elogio ganha ainda mais peso quando se recorda que Márquez partilhou pista com nomes como Valentino Rossi, Jorge Lorenzo, Dani Pedrosa ou Andrea Dovizioso. Se Stoner continua a merecer tanta admiração da sua parte, é porque o seu talento era unanimemente reconhecido no paddock.
Em 2013, Casey Stoner provavelmente ainda tinha velocidade suficiente para impedir Márquez de dominar imediatamente o campeonato. Durante uma ou duas temporadas, o australiano teria sido, muito provavelmente, o adversário mais difícil da carreira do espanhol.
Contudo, a longo prazo, é legítimo pensar que o equilíbrio acabaria por mudar. Stoner baseava-se num talento natural extraordinário e numa sensibilidade única para a moto. Márquez também possui esse talento, mas acrescenta-lhe uma capacidade excecional de evoluir, aprender e reconstruir-se, como demonstrou após as graves lesões que sofreu.
É provavelmente essa capacidade de adaptação que acabaria por fazer a diferença.
Ainda assim, permanece a frustração dos adeptos: nunca teremos uma resposta definitiva. Mas é perfeitamente possível imaginar que este duelo pudesse ter-se tornado um dos confrontos mais espetaculares de toda a história moderna do MotoGP.
















