Quanto vai mudar a aerodinâmica do MotoGP com as novas 850 cc? Embora saibamos que as versões definitivas provavelmente nem serão apresentadas no último teste de Valência, estas fotografias da Yamaha de Augusto Fernández dão-nos algumas indicações.
A primeira conclusão é bastante clara: a aerodinâmica não desapareceu, mas foi compactada e concentrada mais abaixo. A Yamaha parece ter procurado recuperar parte da carga perdida com o novo regulamento através de perfis mais pequenos, sobrepostos e muito próximos da carenagem.
A partir de 2027, a parte superior da carenagem dianteira será, de facto, 50 mm mais estreita e o nariz terá de recuar 50 mm. O objetivo declarado é reduzir o efeito aerodinâmico em reta e durante as travagens, facilitando as ultrapassagens e a condução em grupo. Além disso, todos os dispositivos de controlo da altura e os sistemas holeshot serão proibidos.
Nas laterais do nariz são visíveis dois conjuntos de asas com vários planos. Não têm o grande desenvolvimento lateral dos elementos utilizados nas atuais 1000 cc, mas apresentam pelo menos três superfícies sobrepostas, com uma corda bastante profunda.
A Yamaha parece, assim, ter escolhido respeitar a menor largura permitida aumentando a eficiência do conjunto: menos extensão lateral, mas mais perfis a trabalhar em conjunto. Ou seja, abdica-se de uma superfície muito projetada para o exterior e procura-se gerar carga através da sobreposição dos elementos.
As asas estão colocadas na zona inferior da frente, quase ao lado da entrada de ar e muito próximas da roda dianteira. A parte superior da carenagem surge, por sua vez, mais limpa e sem as grandes asas salientes que temos visto nas MotoGP nos últimos anos.
Esta disposição poderá gerar uma carga aplicada mais abaixo, limitando o movimento de inclinação longitudinal da moto sem tornar a frente excessivamente sensível às mudanças de direção e ao vento lateral.
Com a proibição dos dispositivos de controlo da altura (ride-height), a moto já não poderá baixar mecanicamente durante a aceleração. Será, por isso, ainda mais importante manter a roda dianteira em contacto com o asfalto através da geometria, da eletrónica e da aerodinâmica.
O conjunto de asas baixas parece precisamente concebido para contribuir para o controlo das wheelies. Com um motor de 850 cc, a potência absoluta será inferior, mas, sem dispositivos de controlo de altura, a transferência de carga voltará a ser mais acentuada. Os fabricantes não podem, por isso, abdicar completamente da carga aerodinâmica dianteira.
Os elementos aerodinâmicos parecem relativamente compactos em relação ao corpo da carenagem. Isto deverá reduzir a esteira turbulenta criada à frente da moto que segue, um dos problemas que o novo regulamento pretende atenuar.
Um conjunto mais estreito também pode tornar a moto menos sensível ao ângulo de guinada, ou seja, quando enfrenta uma curva ou muda rapidamente de direção. Poderá perder alguma coisa em termos de carga máxima, mas ganhar em agilidade e previsibilidade.
A frente é larga e relativamente plana, com uma grande entrada de ar central e os elementos aerodinâmicos ligados diretamente à carenagem. Já não parece existir uma separação tão clara entre o “nariz” e as “asas”: toda a zona funciona como um único dispositivo aerodinâmico.
É provavelmente esta a direção técnica para 2027: menos elementos espetaculares e salientes, mas superfícies da carroçaria concebidas para gerar e direcionar os fluxos de ar de forma mais integrada.
A vista frontal não permite verificar realmente o recuo de 50 mm do nariz, uma vez que seria necessária uma comparação lateral com a atual M1. Também não mostra a parte inferior da carenagem, os eventuais difusores laterais e a aerodinâmica traseira.
Esta última passará, a partir de 2027, a fazer parte do pacote homologado e poderá receber apenas uma atualização durante a temporada, outra medida introduzida para limitar o desenvolvimento e os custos.
Em resumo, a Yamaha não parece ter simplesmente reduzido o tamanho das asas: alterou a sua distribuição. A carga é procurada através de elementos mais estreitos, baixos e com vários planos. É uma aerodinâmica aparentemente menos extrema em termos dimensionais, mas ainda muito sofisticada, pensada para compensar, pelo menos parcialmente, o desaparecimento dos dispositivos de controlo da altura.
















