O estranho caso de Manu González. É precisamente assim que se pode descrever a situação do piloto espanhol. Em Moto2, González lidera atualmente o campeonato do mundo e muitos acreditavam que este seria o ano certo para dar o salto para o MotoGP. No entanto, mais uma vez, nada se concretizou.
Ao mesmo tempo, no paddock do Mundial de Superbike, BMW e Ducati colocaram o antigo campeão de Supersport 300 na sua lista de potenciais reforços, mas também aí as negociações acabaram por não avançar.
A situação de Manu González tem sido muito discutida nos últimos meses e, por isso, o site GPOne conversou com o seu empresário, Edoardo Rovelli, que acompanha o piloto dentro e fora das pistas há vários anos.
“Na minha opinião, atualmente existe uma procura constante pelo novo Marc Márquez”, explicou Rovelli.
“Há esta caça permanente a um talento fora do comum, muitas vezes apostando em pilotos sem se saber realmente como vão evoluir. Tende-se a privilegiar quem faz uma corrida espetacular, quem vence de forma impressionante, ultrapassando toda a gente. E são coisas que o Manu também já demonstrou ser capaz de fazer.
“Mas talvez por ser um piloto mais limpo e consistente, receba menos reconhecimento pelo que realmente faz. Se analisarmos os seus campeonatos, vemos que está quase sempre nos pontos e apresenta uma regularidade impressionante.
“O problema é que vejo muitos pilotos a chegar ao MotoGP sem se transformarem nos novos Márquez. Talvez lhes falte apoio técnico ou as condições ideais, mas, sinceramente, para além de Pedro Acosta, não vi muitos casos desse género. É preciso analisar melhor a Moto2 e não fazer comparações superficiais com o passado. Neste trabalho, os detalhes fazem toda a diferença.”
Questionado sobre se existe pouca análise dos pilotos antes das decisões de mercado, Rovelli não teve dúvidas:
“Absolutamente. Muitas vezes, quando fui falar com equipas sobre um dos meus pilotos, fosse o Manu, o Zonta ou outro qualquer, encontrei uma clara falta de análise sobre o piloto em questão.
“Tomemos o exemplo do Manu. É verdade que está há cinco anos na Moto2, mas os dois primeiros foram passados num projeto que não tinha como objetivo lutar pelo título mundial.
“Chegámos à Moto2 através desse projeto, mas era sobretudo uma plataforma de desenvolvimento de jovens pilotos e uma tentativa de criar uma ligação entre o Mundial de Superbike e o MotoGP. Não era uma equipa criada para ganhar o campeonato.
“Obviamente, nessa altura, o Manu ainda não estava preparado para lutar pelo título, mas foi crescendo. E a própria Yamaha explicou-nos, quando renovámos para o terceiro ano, que iria alterar determinadas coisas porque o objetivo passaria a ser tentar vencer corridas. Antes disso, esse não era o foco.”
Perante a pergunta direta sobre porque deveria uma equipa de MotoGP apostar hoje em Manuel González, Rovelli respondeu sem hesitar:
“Porque, paradoxalmente, seria o único rookie com verdadeira experiência. Atualmente, os estreantes são promovidos muito rapidamente, muitas vezes após apenas alguns anos na Moto2.
“A Moto2 ensina imenso e quanto mais experiência um piloto acumula, mais preparado chega ao MotoGP.
“Além disso, o Manu é um trabalhador excecional. Quando me pedem para falar dele, eu digo sempre a mesma coisa: falem com as pessoas que trabalham diretamente com ele.
“Falem com os engenheiros, com os técnicos de suspensões, com os chefes de equipa. Façam a vossa própria análise e descubram quem é realmente o Manu.
“Os dados estão todos disponíveis. Basta falar com as pessoas certas. Mas, na minha opinião, isso nunca foi feito de forma suficiente.
“Se falarem com as equipas da Moto2, com a Kalex, a Pirelli ou os especialistas em suspensões, todos vos dirão que o Manu é um dos pilotos mais preparados da categoria.
“Também pela forma como comunica com os técnicos e transmite o que acontece dentro e fora da pista, ajudando a melhorar a moto. Na Moto2 toda a gente sabe disso. Do MotoGP para cima, aparentemente muito menos.”
Rovelli também falou sobre o famoso teste realizado por González com a Aprilia, que muitos pensaram poder abrir-lhe as portas do MotoGP.
“É simples: esse teste começou e terminou ali. Foi apenas um dia de testes. Mas o Manu esteve muito bem.
“Precisamente este fim de semana estive à conversa com Massimo Rivola e pedi-lhe alguns conselhos. Ele disse-me algo muito interessante:
‘Sabes que estive a pensar nisso há dias? Nem sei se aquele teste ajudou o Manu ou não, porque ele foi incrivelmente rápido. Não estávamos à espera que fosse tão forte.’
“Massimo explicou-me que ficaram surpreendidos com o desempenho do Manu. E aquilo que mais o impressionou foi que ninguém — nem Honda, nem Yamaha, nem qualquer outra marca — foi perguntar como tinha corrido o teste.
“Ninguém procurou informações. Ninguém quis aprofundar o assunto.
“Se eu estivesse à procura de um piloto e soubesse que a Yamaha ou a Aprilia lhe tinham dado a oportunidade de testar uma MotoGP, iria imediatamente perguntar como correu. Mas falta precisamente essa ligação e essa capacidade de analisar toda a informação disponível.”
Perante uma pergunta mais provocadora sobre se a situação seria diferente caso González fosse japonês, australiano ou brasileiro, Rovelli respondeu de forma categórica:
“Cem por cento.”
O empresário explicou também porque não avançaram as negociações com a Aruba Ducati no Mundial de Superbike.
“Cada negociação falhou por razões diferentes. No caso da Aruba, foi-me explicado que a Ducati precisava de um piloto italiano.
“Estamos a falar de uma marca italiana que, entre MotoGP e Superbike, já teria dois espanhóis no MotoGP e Iker Lecuona no Mundial de Superbike. Não podiam contratar um quarto piloto espanhol e decidiram apostar num italiano.”
Quanto à BMW:
“A explicação que recebi foi que a moto ainda não estava ao nível de Manuel González.
“Precisavam primeiro de a desenvolver e só depois entregá-la ao Manu. Disseram-me que querem continuar a trabalhar nesse projeto e que talvez nos voltem a contactar no próximo ano, quando a moto for mais competitiva.”
Sobre o futuro do piloto espanhol, Rovelli admite que a permanência na Moto2 é, neste momento, a opção mais provável.
“Tudo depende do piloto, da idade, da nacionalidade, dos ciclos contratuais e de muitos outros fatores.
“Também é preciso analisar quantos pilotos têm contrato no MotoGP e quais os lugares que poderão ficar vagos.
“Para nós, dadas as circunstâncias atuais, a possibilidade de chegar ao MotoGP parece cada vez mais reduzida.
“Teria sido interessante ir para o Mundial de Superbike com a Aruba Ducati ou integrar um projeto oficial como a BMW, uma marca com grande potencial de crescimento.
“Mas atualmente não vejo oportunidades igualmente interessantes no Superbike e não faz sentido mudar sem uma moto competitiva.
“Ter uma boa moto não garante vitórias, mas pelo menos permite lutar por bons resultados.
“Por isso, neste momento, faz mais sentido continuar na Moto2.
“Ainda estamos a avaliar todas as possibilidades e nada está totalmente decidido. O MotoGP parece estar fechado, mas enquanto todos os lugares para 2027 não forem oficialmente atribuídos, continuaremos à espera.
“Mesmo assim, a nossa decisão mais provável será permanecer na Moto2.”
















