O paddock de Austin não estava apenas a ferver por causa do calor do Texas, mas também sob a pressão de um impasse financeiro que pode redefinir o futuro do MotoGP.
No domingo de manhã, enquanto os motores aqueciam para a corrida, os principais responsáveis da Liberty Media, da Dorna (Carmelo Ezpeleta e o seu filho), e figuras-chave da MSMA reuniram-se em privado para tentar fechar o acordo para o período 2027-2031. O resultado? Um bloqueio total. Os fabricantes recusam assinar um “cheque em branco” enquanto o campeonato se prepara para entrar numa nova era.
O que aconteceu em Austin vai muito além de uma simples reunião de trabalho. Trata-se de uma luta de poder discreta, mas decisiva, entre o grupo MotoGP Sports Entertainment e os fabricantes reunidos na Motorcycle Sports Manufacturers Association. E, para já, ninguém cede.
Segundo a motorsport.com, numa sala onde estiveram Carmelo Ezpeleta, Carlos Ezpeleta e Derek Chang, o objetivo era claro: estabelecer as bases de um acordo financeiro até 2031. Após quase um ano de negociações, tudo parecia pronto para avançar. Mas no final, nada. Nenhum acordo, nenhum compromisso — apenas a mesma conclusão: a distância continua demasiado grande.
Oficialmente, ninguém fala. Os construtores mantêm silêncio, protegidos por cláusulas estritas. Extraoficialmente, uma frase resume o ambiente:
“Não podemos discutir isso; temos um acordo específico sobre este assunto.”
Uma resposta curta, quase fria, que revela o nível de tensão. Ainda assim, circula outra mensagem: “É errado dizer que estamos em incerteza.” O bloqueio existe, mas ninguém quer admitir que pode durar.
O centro do conflito não é tecnológico, é político e económico. Os fabricantes querem um modelo inspirado na Fórmula 1, com uma parte das receitas ligada ao crescimento do campeonato. A lógica é simples: participar na criação de valor e, por isso, receber uma parte dele.
Em contrapartida, a proposta da MGPSEG é muito mais rígida: um valor fixo — cerca de oito milhões de euros — independente do desempenho económico global.
Esta diferença já seria suficiente para bloquear o acordo. Mas há mais: o projeto também impõe obrigações adicionais, como reforço das equipas de marketing, aumento de ações promocionais, fornecimento de motos totalmente preparadas para eventos e melhoria das relações com parceiros — exigências que aumentam custos sem garantir retorno proporcional.
É precisamente isto que alimenta a recusa. Os fabricantes não rejeitam o desenvolvimento do MotoGP; recusam é financiá-lo sozinhos.
A reunião em Austin, precedida por um jantar estratégico entre executivos — Michele Colaninno (Piaggio), Claudio Domenicali (Ducati), Gottfried Neumeister, além de representantes da Honda e da Yamaha — deveria ser um momento decisivo de aproximação. Acabou por confirmar a dimensão do desacordo.
E enquanto as negociações param, as consequências já se fazem sentir: a janela de transferências de 2027, embora muito ativa nos bastidores, continua bloqueada. Movimentos como Fabio Quartararo para a Honda ou Pedro Acosta para a Ducati não podem ser formalizados, não por falta de vontade, mas porque ninguém quer comprometer-se sem conhecer o enquadramento económico dos próximos cinco anos.
Neste jogo de xadrez, a Liberty Media avança com cautela. Os americanos sabem que a verdadeira tomada de controlo começa depois da assinatura deste acordo. Por agora, observam, testam e avaliam o equilíbrio de forças. Mas a ambição é clara: transformar o MotoGP num produto global, estruturado e altamente rentável, capaz de competir com os padrões americanos de entretenimento desportivo.
Do outro lado, os fabricantes defendem uma visão diferente: menos centralizada e mais equilibrada, onde não sejam apenas fornecedores de máquinas.
O impasse não existe por acaso. Existe porque os interesses são enormes. E enquanto ninguém cede, nada muda — nem o futuro do MotoGP.
O MotoGP quer tornar-se a “Fórmula 1 das duas rodas”, mas ainda não quer pagar aos fabricantes o preço desse salto. Em Austin, a Liberty Media percebeu que as marcas já não estão dispostas a financiar o espetáculo sozinhas sem terem voz na divisão dos lucros. A luta de poder está apenas a começar — e quem ceder primeiro pode perder o controlo do campeonato na próxima década.
















