Para a KTM, o Grande Prémio de Aragão poderá representar uma espécie de novo começo. Não apenas porque a marca austríaca conseguiu finalmente intervir nos motores das RC16 para resolver o problema de fiabilidade que surgiu ao longo da temporada, mas sobretudo porque Pedro Acosta, Brad Binder, Maverick Viñales e Enea Bastianini poderão voltar a utilizar os seus motores V4 com toda a potência disponível.
Este é talvez o aspeto mais interessante do ponto de vista desportivo da história avançada pelos colegas da Speedweek, que foram os primeiros a confirmar a autorização definitiva para a intervenção nos motores da KTM.
Depois de identificar a origem dos problemas num componente interno fornecido por uma empresa externa e que se revelou defeituoso, a KTM precisava da aprovação unânime da MSMA, a associação dos construtores de MotoGP, para poder abrir os motores já selados e corrigir a falha.
Trata-se de um procedimento necessário porque o congelamento de motores (“Engine Freeze”) impede alterações à especificação homologada da unidade motriz. Neste caso, porém, a KTM não pretendia desenvolver o seu V4 nem introduzir modificações para aumentar o desempenho. O objetivo era apenas substituir o componente problemático e devolver os motores aos níveis de fiabilidade previstos inicialmente.
É aqui que entra também a questão da segurança.
Um motor que apresenta problemas quando uma MotoGP circula a mais de 300 km/h não representa apenas um risco de abandono para o piloto em causa. Uma perda súbita de potência numa reta, especialmente com outro piloto muito próximo na roda traseira e a aproveitar o efeito de vácuo, pode transformar-se numa situação extremamente perigosa para todos os envolvidos.
No final, os construtores chegaram ao consenso necessário, colocando a segurança acima da rivalidade técnica. Uma decisão de bom senso, sobretudo porque a intervenção foi realizada sob supervisão e sem alterar a especificação de desempenho homologada do motor.
O problema não obrigou apenas a KTM a trabalhar na fiabilidade. Enquanto aguardava autorização para intervir definitivamente nos motores, a marca austríaca adotou várias medidas preventivas para evitar novas avarias.
Entre essas medidas estava a limitação do regime máximo de rotações, algo que inevitavelmente impedia os pilotos de explorarem totalmente o potencial do V4 austríaco. Em outras palavras, nas últimas corridas, Acosta e os seus colegas competiram com uma arma menos afiada, tendo de gerir uma situação técnica em que a prioridade era garantir que os motores chegavam ao final das corridas antes de extrair o máximo rendimento.
Um compromisso particularmente penalizador em MotoGP, onde alguns cavalos de potência e algumas centenas de rotações por minuto podem fazer a diferença não apenas na velocidade máxima, mas também na aceleração e na capacidade de defender ou concretizar ultrapassagens nas retas.
E é precisamente por isso que Aragão assume uma importância especial.
Com os motores corrigidos e o problema finalmente resolvido, a KTM poderá eliminar as precauções adotadas nas últimas semanas e voltar a utilizar a sua unidade motriz na configuração completa.
Em Aragão regressará, assim, toda a potência do V4 da KTM. Uma notícia longe de ser irrelevante, tendo em conta que, mesmo com limitações, as RC16 continuaram a demonstrar velocidades competitivas. Em Silverstone, por exemplo, Brad Binder registou a velocidade máxima mais elevada do fim de semana, enquanto Pedro Acosta foi o melhor piloto KTM em pista.
É natural, por isso, questionar quanto potencial ficou escondido nas últimas corridas e até que ponto o regresso à utilização total do motor poderá alterar o desempenho das quatro motos austríacas. O MotorLand Aragón poderá oferecer uma primeira resposta bastante significativa.
O circuito espanhol exige uma forte capacidade de aceleração e possui várias zonas onde a potência do motor pode fazer uma diferença concreta.
Depois de vários Grandes Prémios em que a prioridade foi preservar a fiabilidade, a KTM poderá finalmente voltar a concentrar-se apenas no desempenho. E talvez essa seja a notícia mais importante: não se trata apenas de ter resolvido uma avaria. A KTM volta finalmente a competir sem uma mão amarrada atrás das costas.
















