Jorge Martín revisitou alguns dos momentos mais marcantes e difíceis da sua carreira desportiva numa extensa entrevista para o podcast Gypsy Tales. O atual Campeão do Mundo de MotoGP falou sobre o sucesso alcançado com a Pramac, a importância do trabalho mental na conquista do título e, sobretudo, sobre as graves lesões que sofreu em 2025, chegando mesmo a confessar que houve um momento em que acreditou que não iria sobreviver.
O madrileno começou por recordar a sua passagem pela Pramac, uma equipa que considera fundamental na sua trajetória:
“Conseguimos juntos a primeira vitória da equipa. Depois fomos campeões do mundo como equipa satélite, algo que penso que nunca tinha acontecido antes. Mais tarde também conquistámos o campeonato. Acho que escrevemos uma pequena parte da história do nosso desporto e isso terá sempre um significado muito especial para mim.”
Questionado sobre o que fez a diferença na temporada em que conquistou o título mundial, Martín não teve dúvidas:
“Acho que a mentalidade foi a diferença.”
O piloto explicou que a mudança foi praticamente imediata assim que começou a trabalhar com especialistas na área mental:
“Quando comecei a treinar a minha mentalidade, ao fim de apenas duas semanas já me sentia diferente. Foi incrível.”
Segundo Martín, essa evolução permitiu-lhe lidar melhor com os momentos mais difíceis ao longo da época:
“Durante esses dois anos vivi muitas situações, desde os momentos mais altos aos mais baixos. Tive de aprender muito e falar muito comigo próprio para melhorar. Nesse ano fui capaz de terminar corridas em segundo, quarto, quinto ou vencer. Levava para casa o melhor resultado possível em cada corrida e, no final da temporada, tudo correu bem.”
Depois de se sagrar campeão do mundo e assinar pela Aprilia, Martín preparava-se para uma nova etapa cheia de ambição. No entanto, os problemas físicos surgiram muito cedo. O espanhol recorda que inicialmente não valorizou demasiado a primeira queda:
“Naquele momento não foi algo difícil para mim. Pensei: ‘Ok, perdi alguma mobilidade no pé e na mão, mas vou recuperar’. Sete dias depois já estava novamente em cima de uma moto a treinar.”
Tudo mudou durante um treino de supermotard num circuito em Lleida:
“Estava a treinar com uma supermoto. Fiz uma excelente saída de curva e a moto nunca deixou de se mexer. Quando fui projetado, aconteceu tudo demasiado rápido e fui lançado muito longe. Parti o escafoide e também o pé.”
Martín admite que a lesão no escafoide foi particularmente complicada:
“O escafoide foi a chave de tudo. É uma lesão terrível. Muitas pessoas nunca mais voltam a ser as mesmas depois de uma lesão dessas e demora imenso tempo a recuperar.”
Apesar das dificuldades, conseguiu recuperar, embora tenha sido necessária uma segunda operação:
“Agora estou bem, mas é uma lesão que demora muito tempo a curar.”
Após vários meses de recuperação, Martín regressou finalmente à competição com a Aprilia. No entanto, o seu retorno ficou marcado pelo grave acidente sofrido no Grande Prémio do Qatar:
“Não me sentia bem e nem sequer tinha andado de moto porque não queria apressar o processo. O meu objetivo não era alcançar uma posição específica, apenas compreender a moto.”
Fisicamente, o piloto sentia-se bastante limitado:
“Depois de duas voltas já estava completamente destruído. Não conseguia manter um bom nível durante mais tempo.”
Foi então que aconteceu o acidente que esteve perto de lhe custar a vida:
“Saí um pouco largo, talvez tenha perdido alguma concentração. Estava no sítio errado à hora errada. O Fabio Di Giannantonio vinha atrás e acabou por me atingir com a moto.”
As consequências foram devastadoras:
“Parti onze costelas e sofri um pneumotórax. Estava caído no chão e pensei que ia morrer.”
Martín recordou com emoção os momentos posteriores ao acidente e a forma como acreditou que a sua vida estava realmente em risco:
“Quando tens um pneumotórax não consegues respirar. No início pensei que iria recuperar a respiração gradualmente, mas isso não acontecia. Comecei a pensar: ‘O que se está a passar?’”
A situação agravou-se quando chegou ao centro médico:
“Foi aí que senti que estava a morrer. Algo dentro de mim dizia-me: ‘Estou a morrer’. Estava absolutamente convencido disso.”
Nesse momento tomou uma decisão que nunca esquecerá:
“Liguei rapidamente à minha namorada María para me despedir. Ela veio ter comigo, olhou para mim e eu só conseguia chorar. Disse-lhe: ‘Amo-te. Não sei se vou conseguir ultrapassar isto.’”
Felizmente, poucos minutos depois recebeu notícias tranquilizadoras:
“Dois minutos depois, o médico disse-me: ‘Jorge, estás fora de perigo. Temos de ir rapidamente para o hospital para colocar um tubo no pulmão.’”
Apesar da recuperação bem-sucedida, Martín admite que toda a experiência transformou completamente a sua forma de encarar a vida:
“Não acredito que alguém passe por algo assim sem mudar.”
Hoje, valoriza coisas simples que antes considerava normais:
“Às vezes, de manhã, estou simplesmente a beber um café e penso: ‘Uau’. Ou estar ao sol numa esplanada. Pequenas coisas que antes dava por garantidas.”
A saúde passou a ocupar um lugar central na sua vida:
“Todos pensamos que estar saudável é algo normal, mas a saúde é um presente.”
O espanhol vai mais longe e admite sentir-se agradecido pelo que viveu:
“Pode soar estranho, mas estou grato por isto me ter acontecido. Graças a esta situação sou uma pessoa melhor e também um piloto melhor.”
E concluiu com uma reflexão profunda:
“No final, isto ajudou-me. Deus colocou-me nesta situação, consegui superá-la e agora sou um homem melhor.”
Martín abordou também os meses que se seguiram ao acidente do Qatar e toda a polémica gerada em torno do seu futuro. O piloto reconhece que grande parte do público desconhece o que realmente aconteceu:
“As pessoas não sabem exatamente o que aconteceu e provavelmente nunca saberão, porque hoje também não vamos contar tudo.”
Ainda em recuperação, começou a questionar seriamente o seu regresso à competição:
“Ainda estava no Qatar quando o meu representante me ligou e perguntou: ‘Tens a certeza de que queres continuar? Temos outra oportunidade.’ Foi aí que comecei a duvidar muito de mim próprio.”
As dúvidas iam muito além dos resultados desportivos:
“Não sabia se conseguiria voltar a pilotar uma moto. Imaginem. Nem sequer sabia se conseguiria voltar ao nível que tinha antes.”
Por isso, queria adotar uma estratégia a longo prazo e regressar apenas quando estivesse totalmente preparado:
“Achei que precisava de tempo. Não queria voltar e sentir que tinha de provar que continuava a ser o mesmo Jorge Martín de antes. Queria recuperar a cem por cento e regressar apenas quando me sentisse pronto.”
Segundo o espanhol, essa visão não foi partilhada pela Aprilia:
“Quando comunicámos isso à Aprilia, responderam: ‘De maneira nenhuma vais sair.’ E foi aí que começou toda a disputa.”
Martín garante que a sua prioridade era exclusivamente recuperar:
“Se tivesse continuado com aquele acordo, provavelmente nem sequer teria regressado este ano. Queria o meu tempo, recuperar totalmente e voltar apenas quando estivesse preparado.”
Durante esse período, além das dores provocadas pelas costelas partidas, o campeão do mundo teve de lidar com a pressão das redes sociais:
“Não conseguia dormir. Foi uma fase realmente dura.”
Embora normalmente ignore os comentários, admite que naquela situação acabou por lhes dar demasiada atenção:
“Estava a ler demasiados comentários, apesar de normalmente não me importarem. Mas quando estás numa situação dessas, acabam por afetar-te.”
E terminou com uma reflexão sobre a forma como a mente humana funciona:
“Podes ler cem comentários positivos, mas basta um negativo para ficar gravado na tua cabeça. É incrível a forma como a mente funciona.”
















