Quem foi realmente o responsável por construir a Ducati que hoje domina o MotoGP? A questão tem gerado debate nas últimas semanas. Francesco Bagnaia afirmou recentemente que ele e Jack Miller lançaram as bases da equipa atual, defendendo que transformaram uma moto rápida numa máquina capaz de conquistar títulos mundiais. No entanto, Davide Tardozzi tem uma visão diferente.
Para o diretor da Ducati Lenovo Team, a origem deste domínio remonta a vários anos antes dos títulos de Bagnaia. E há um homem que, na sua opinião, merece muito mais reconhecimento: Andrea Dovizioso. Convidado do podcast Misterhelmet, Tardozzi foi questionado sobre três figuras centrais da história recente da Ducati: Andrea Dovizioso, Francesco Bagnaia e Marc Márquez.
A sua resposta não deixou margem para dúvidas:
“São três pilotos completamente diferentes, com abordagens totalmente distintas.”
Mas quando chegou o momento de explicar a origem da Desmosedici moderna, o dirigente italiano apontou imediatamente para Dovizioso.
“O desenvolvimento desta moto é obra de Andrea Dovizioso.”
Uma declaração carregada de significado, que coloca o antigo vice-campeão do mundo no centro do sucesso atual da Ducati. Tardozzi recordou um momento que se tornou quase lendário dentro da marca de Borgo Panigale.
Era 2015, em Sepang. Luigi “Gigi” Dall’Igna apresentava a nova Desmosedici, resultado de uma profunda reformulação técnica. Após apenas algumas voltas, Andrea Dovizioso regressou às boxes. Instalou-se o silêncio. Depois de retirar o capacete, olhou para o diretor técnico e disse apenas:
“Conseguimos.”
Para Tardozzi, esse momento marcou verdadeiramente o início da ascensão da Ducati. A partir daí, o desenvolvimento acelerou significativamente.
Os resultados começaram a surgir rapidamente. A Ducati tornou-se competitiva em 2016 e deu um salto ainda maior em 2017. Nesse ano, Dovizioso venceu seis Grandes Prémios e terminou o campeonato como vice-campeão do mundo, atrás de um Marc Márquez no auge da sua carreira. Repetiu esse feito em 2018 e 2019.
Mesmo sem conquistar o título mundial, Dovizioso transformou gradualmente a Ducati numa verdadeira candidata ao campeonato, oferecendo aos engenheiros uma base técnica que serviria de alicerce para as gerações seguintes.
Quando Francesco Bagnaia se sagrou campeão do mundo em 2022, herdou uma moto cujas fundações tinham sido lançadas vários anos antes.
Apesar dos elogios, Tardozzi não é totalmente indulgente com Dovizioso. Na sua opinião, existe uma época que ficará para sempre como uma oportunidade desperdiçada: 2020.
Nesse ano, Marc Márquez esteve ausente devido à grave lesão sofrida em Jerez. O campeonato ficou repentinamente muito mais aberto, mas foi Joan Mir, com a Suzuki, quem acabou por conquistar o título mundial.
Tardozzi acredita que a Ducati deixou escapar uma oportunidade histórica.
“Sempre lhe disse: foste tu que deixaste escapar 2020.”
O dirigente italiano até brincou ao afirmar que pretende voltar a dizer-lhe isso num próximo jantar no circuito de motocross pertencente a Dovizioso.
As palavras de Tardozzi não diminuem os méritos de Francesco Bagnaia. O italiano foi quem devolveu à Ducati o título mundial que escapava desde Casey Stoner, antes de conquistar um segundo campeonato consecutivo.
Mas, na visão do diretor da Ducati, os papéis foram diferentes.
Dovizioso foi o piloto que transformou a Ducati numa moto capaz de lutar pelo campeonato. Bagnaia foi o piloto que converteu esse potencial numa era de domínio.
Duas contribuições complementares, mas em momentos distintos da história da marca.
A história costuma recordar os campeões do mundo. Muitas vezes esquece aqueles que prepararam o caminho. Andrea Dovizioso pertence provavelmente a essa segunda categoria. Derrotado três vezes por um Marc Márquez praticamente imbatível, nunca conseguiu inscrever o seu nome na lista de campeões do MotoGP.
Ainda assim, sem o enorme trabalho de desenvolvimento realizado ao lado de Gigi Dall’Igna, é difícil imaginar que a Desmosedici tivesse alcançado o nível que lhe permitiu dominar o MotoGP nos últimos anos.
Ao recordar esse papel fundamental, Davide Tardozzi não procura reescrever a história. Apenas relembra que, antes dos títulos de Bagnaia e da chegada de Marc Márquez, houve um piloto que aceitou construir, temporada após temporada, a máquina que transformou a Ducati na referência máxima do MotoGP.
















