2027 representará muito mais do que uma simples mudança de regulamentos para o MotoGP. Nova cilindrada, pneus diferentes, o desaparecimento dos dispositivos de rebaixamento e uma filosofia técnica destinada a transformar profundamente os protótipos atuais. Para Gigi Dall’Igna, será praticamente necessário começar do zero. E, para alguém que vive da engenharia e da inovação como o diretor-geral da Ducati Corse, isso não é necessariamente uma má notícia.
Numa longa entrevista concedida à MCNews, Dall’Igna abordou alguns dos temas que irão acompanhar a Ducati e o MotoGP rumo ao próximo ciclo regulamentar, desde o controlo de custos à inteligência artificial, passando pela simulação, eletrónica e até por uma possível hibridização das motos.
Daquilo que a Ducati está a aprender com a atual Desmosedici, o que permanecerá será sobretudo o conhecimento acumulado ao longo dos anos. Do ponto de vista técnico, porém, a mudança imposta pelos novos regulamentos será muito mais profunda.
«A coisa mais importante é o know-how que adquirimos. Isso, certamente, levamo-lo para o futuro. Mas não existem muitas outras coisas que possam ser transferidas diretamente, porque com a proibição dos dispositivos de ajuste de altura, uma cilindrada diferente e pneus diferentes, no final será necessário construir uma moto completamente nova.»
Uma perspetiva que, em vez de o preocupar, parece entusiasmar particularmente Dall’Igna.
«Absolutamente. Isso entusiasma-me. Quando se pode começar com uma folha completamente em branco, para um engenheiro é o melhor brinquedo que pode existir.»
A liberdade de desenvolvimento, no entanto, tem de enfrentar um problema cada vez mais importante: os custos. Dall’Igna não esconde que, como engenheiro, gostaria de explorar todas as possibilidades, mas reconhece que o contexto atual exige limites.
«O controlo de custos é realmente importante neste momento. Penso que o mercado das motos terá alguns anos difíceis pela frente, devido às tarifas nos Estados Unidos e a muitos outros fatores deste género. Por isso, é importante manter sob controlo os custos do MotoGP e, de forma mais geral, da competição. Temos de encontrar um equilíbrio entre desenvolvimento tecnológico e custos. Sou engenheiro, por isso preferia ter liberdade para inventar novas soluções e novos componentes. Mas neste momento é necessário encontrar o equilíbrio certo entre custos e evolução tecnológica.»
O desenvolvimento da moto do futuro não passa apenas pelos componentes visíveis. Uma parte cada vez mais importante do trabalho é realizada longe dos circuitos, através de simulações e análises de dados.
«Estamos a trabalhar muito na inteligência artificial. Existem alguns aspetos da moto que podem ser compreendidos melhor através da IA do que através de um modelo físico tradicional. Em algumas áreas o modelo físico funciona melhor, enquanto noutras conseguimos ser mais precisos utilizando inteligência artificial.»
A simulação tornou-se também uma ferramenta fundamental para o departamento de competição de Borgo Panigale.
«A simulação faz hoje parte integrante do programa de desenvolvimento. Comparado com há dez anos, o software evoluiu imenso. Certamente ainda nos falta alguma coisa, sobretudo em determinadas áreas, mas noutras somos realmente muito precisos e recebemos indicações muito positivas dos programas de simulação.»
Entre as ideias que Dall’Igna gostaria de ter visto incluídas nos regulamentos de 2027 está uma proposta bastante mais radical. O técnico italiano teria apreciado a introdução de uma pequena componente elétrica nas MotoGP do futuro.
«Para dizer a verdade, gostaria de ter um pequeno motor elétrico na moto de 2027. No início defendi a introdução de algum tipo de hibridização da moto. Mas, do ponto de vista dos custos, é claramente algo bastante complicado. Ainda assim, acredito que poderíamos aprender muito. Com uma solução deste género, a criatividade voltaria a ter um papel importante.»














