O desporto moderno tem memória curta. Na Toscânia, há três anos, Marc Márquez tinha anunciado a sua paragem, agora está de volta para arrasar toda a gente.
POR RICARDO FERREIRA . FOTOS DUCATI PRESS
O desporto moderno tem memória curta e o MotoGP não é excepção. No tempo de Valentino Rossi nas colinas da Toscânia, era uma festa sem inibições nem horários: “Em Mugello não dormes” era o refrão. Marc Márquez era o adversário da equipa da casa: sempre vaiado e, em algumas circunstâncias, até pior. Anteriormente, o grande campeão tinha vencido apenas em 2014, no meio da então orgia dominante da Honda. A partir daí, subiu ao pódio apenas em duas ocasiões, sempre em segundo lugar: em 2016 frente a Jorge Lorenzo e três anos depois na disputa entre Andrea Dovizioso e Danilo Petrucci. No ano passado, conquistou o segundo lugar no GP e no Sprint, terminou no segundo lugar, atrás de Pecco Bagnaia.
Em 2022, aqui mesmo em Mugello, Marc Márquez anunciou a sua paragem para ser submetido a uma cirurgia ao braço direito, que ficou ferido no acidente dois anos antes em Jerez. Parecia um canto do cisne: todos se perguntavam se e como o piloto mais bem sucedido daquela época voltaria às corridas. E o primeiro a fazer a pergunta foi ele próprio. Passaram apenas 36 meses e já ninguém se lembra. Agora, os grandes meios de comunicação social estão focados na pergunta de um psicanalista: se e quando Pecco Bagnaia regressará para retomar as listas da Ducati. A resposta já está escrita: com a melhor Ducati e a melhor equipa do mercado, Marc Márquez está mais uma vez fora do alcance de qualquer um, a começar pelo seu companheiro de equipa.

Em vez de celebrar a ressurreição desportiva de um talento quase irreal como Marc Márquez, optou-se por focar a atenção num tema hipotético. Isto é, se Mugello tivesse conseguido fazer o milagre, contando com os precedentes de luxo de Pecco Bagnaia: três vitórias consecutivas, também temperadas pelos dois últimos Sprints. Um tema evocativo, mas que surgiu de uma análise incompleta. Em 2022, Márquez tinha o braço direito torto, no ano seguinte pilotava uma Honda que nem sequer andava em linha reta e, doze meses antes, uma Desmosedici em segunda mão. Era óbvio que desta vez o equilíbrio técnico iria mudar. De facto, MM93 venceu a Sprint, apesar de ter mexido no botão de partida. A fúria com que recuperou, superando Bagnaia e o seu irmão Alex em apenas duas voltas, faz-nos compreender o potencial que pode ter como reserva.
É claro que o fim de semana em Mugello ainda está a todo o vapor e o prato mais saboroso, ou seja, o GP, ainda está por servir. Na longa distância, será que Pecco Bagnaia conseguiria conter, pelo menos por um domingo, a fome canibal do seu companheiro de equipa e adversário? A esperança é a última a morrer, mas é uma empresa no limite do possível. “Já não consigo fazer a diferença onde fazia”, suspira o bicampeão do mundo, referindo-se às curvas rápidas de Mugello, onde os campeões fizeram sempre a diferença: o mergulho de Casanova-Savelli, as duas Arrabbiata, Correntaio e Bucine. “Desta vez, há sempre alguém mais rápido do que eu”. Os campeões raramente dizem a verdade, mas Pecco é especial porque é honesto. A lei simples e dura deste desporto: ganha-se até que chegue alguém mais rápido do que nós.
















