CEV Repsol, 2021: A morte de Millán, matéria para pensar

Por a 26 Julho 2021 14:00

Mais um jovem perde a vida num acidente sem sentido, (há algum outro tipo?) que nos faz questionar todos os valores humanos à volta das corridas

A tragédia de Millán, vinda, como vem, nos calcanhares da morte, umas semanas antes, do luso-descendente Jason Dupasquier, faz-nos pensar.

Hugo foi projetado da sua moto pelos ares e atropelado logo a seguir por Pawelec, quase a única combinação de circunstâncias que atualmente não pode ser prevenida nem minimizada, seja por que quantidade de precauções ou equipamento for.

Faz-nos pensar nas corridas, na fragilidade da vida, na morte.

Faz-nos pensar nos pais, uma família humilde de Huelva, que, tendo decerto feito inúmeros sacrifícios para pôr o filho a correr, um dia foram para uma pista algures e voltaram sem ele… mas se fossem ricos e de Barcelona, o efeito seria o mesmo.

Nada nos prepara para isso, nem como jornalistas, nem como pais, nem como, simplesmente, seres humanos.

Nem filosofias orientais conseguem, quando falam na possibilidade, também real, de sermos tão cuidadosos que chegamos ao fim da vida preocupados com a morte e não com não termos, na realidade, vivido intensamente cada momento em que estamos vivos.

É verdade que se pode morrer a descer umas escadas ou a atravessar a rua. Acontece todos os dias.

E no entanto, dá que pensar, a morte de um garoto de 14 anos a praticar este desporto que todos amamos.

Há muitos, muitos anos, tantos que o Mundial de SBK ainda não existia, um piloto inglês que eu conhecia muito bem caiu mesmo à minha frente em Donington.

Nessa altura, os fotógrafos podiam estar mesmo à borda da pista, as motos passavam quase a roçar, e eu estive perto do piloto, estonteado no chão durante uns momentos. Quando se levantou ileso, quis dizer-lhe que tivesse cuidado, que não era preciso arriscar a cada momento, a cada curva, que gostávamos dele e que o queríamos cá por muitos anos. Obviamente, não disse nenhuma dessas coisas.

Exatamente uma semana depois, quando eu já não estava lá, noutra pista algures no Norte de Inglaterra, o piloto, que se chamava Kenny Irons, caiu outra vez, quando o atual comentador da BT1 Keith Huewen avariou a sua Bimota à sua frente na volta de aquecimento (outra lição: acidentes são estúpidos, acontecem quando menos se espera, e pouca velocidade não é garantia de pouca gravidade).

Irons partiu o pescoço e morreu instantaneamente. Nunca lhe cheguei a dizer como era amigo dele, como era importante para todos nós, e ficou sempre aquela sensação de vazio.

Desde aí, e felizmente, as mortes reduziram significativamente em Pista, a ponto de serem raríssimas.

Em todos os anos do mundial de Superbike, houve apenas uma fatalidade na classe de Superbike (Yasutomo Nagai em Assen em 1995).

Na última década, contam-se pelos dedos de uma mão as fatalidades em todas as classes de MotoGP.

Katoh, Tomizawa, Simoncelli e Salom mostram que, embora ainda falemos de circuitos mais perigosos do que outros, a morte não escolhe nem sítios, nem classes.

Claramente, uma nova noção de segurança, com áreas de gravilha muito maiores, Airfence onde isso não é possível, fatos com reforços dorsais e airbag, e capacetes levíssimos e resistentes, são parte da equação.

Porém, esta nova necessidade de trazer jovens talentos para a modalidade género linha de montagem traz novos e preocupantes contornos à questão.

De um lado está o êxtase, a  alegria patente para todos verem na cara do pai de Márquez quando o filho efetua manobras incríveis a caminho de mais uma vitória.

Do outro, a esmagadora sensação do que, mais uma vez, terão sentido estes pais que foram com o filho para uma pista com a melhor das intenções e voltaram para casa sem ele…
Matéria para reflexão.

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