O rumor do arranque em Portugal, as fontes e o mapa por desenhar

Há notícias que chegam como um boato, que vale o que vale. Com o Dakar de 2027 e o seu alegado arranque em Portugal passa-se o mesmo: há muito barulho, alguma verdade, mas nada confirmado ainda. Fomos ver o que está de pé.

O que está confirmado
No domingo, 25 de outubro, como noticiámos em primeira mão, a ASO e a Saudi Motorsport Company emitiram um comunicado conjunto: o Dakar de 2027, marcado para 1 a 15 de janeiro, não se faria na Arábia Saudita, depois dos “recentes desenvolvimentos na região”. A decisão foi descrita como excecional e pontual, com o apoio da FIA e da FIM, e o texto garante que o rali se iria fazer, noutro território, também sob organização da ASO. A Arábia Saudita volta em 2028, na edição número cinquenta. O pano de fundo, segundo a AFP, é a escalada, desde julho, dos ataques dos houthis do Iémen contra o reino, capital incluída.
Portanto, o Dakar não foi cancelado, foi mudado de casa. E o comunicado oficial não pronuncia a palavra Portugal, apenas diz que estão negociações a decorrer para um novo cenário.

Como nasceu o rumor
O rumor não nasceu num dia nem num sítio, e é isso que o torna difícil de rastrear. Foi-se montando por camadas, como se monta uma mota de enduro: uma peça aqui, outra ali, até alguém perguntar por que razão aquilo já parece uma mota.
A primeira camada vem de setembro, quando já se falava, à boca pequena, de um percurso por Espanha, Portugal e Marrocos. Em outubro, durante o Rali de Marrocos, em Zagora, a ASO terá apresentado às equipas duas hipóteses, e o diretor da revista Todo o Terreno, Alexandre Correia, chegou a apontar para um Dakar de apenas oito etapas.
A segunda camada é do dia 19: o jornal Marca avançou datas, prólogo a 9 de janeiro e meta a 22, com início numa cidade espanhola ou portuguesa e o resto em Marrocos. A terceira é do dia 21: a Reuters, citando dois pilotos e um diretor de equipa, e sem resposta da ASO, da FIA ou da FIM, escreveu que a prova ia para Marrocos, com um prólogo europeu.
Foi também a Todo o Terreno a pôr nomes às hipóteses: Algarve, Madrid ou Valência. E foi o Algarve que levou vantagem, porque tem aquilo que as outras duas não têm: um Automóvel Club de Portugal que organiza a única prova europeia do Mundial de Rally-Raid, e que, segundo o jornal O Jogo, terá multiplicado contactos com o território e os municípios.
Depois vem o comunicado de domingo, e a quarta camada, a que realmente muda o peso do rumor: a Lusa cita uma fonte próxima do processo, que coloca Portugal e Marrocos na corrida, e o presidente do Turismo do Algarve, André Gomes, vem dizer que está “tudo bem encaminhado”, que a caravana se instalaria no Estádio Algarve e que só falta a oficialização, esperada nos próximos dias. É a única voz com nome e cargo em toda a história. E, note-se, não é a voz da organização.
Por fim, o eco. A SoyMotor escreve que os media portugueses dão o arranque no Algarve quase por feito, e acrescenta que as suas próprias fontes coincidem, incluindo gente próxima da ASO que confirmou a hipótese de começar em solo português, limitando-se a nomear o país. A Infobae fala em Faro e em verificações técnicas e administrativas por lá. Aqui convém desconfiar do círculo: os que escrevem sobre isto por cá citam a Lusa, que cita uma fonte, e os espanhóis citam-nos a nós. Quando uma notícia dá a volta e regressa a casa com mais convicção do que saiu, vale a pena contar quantas fontes independentes existem realmente. Aqui contam-se poucas.
Quanto vale o rumor
Na nossa avaliação, é provável, mas não é facto. Há convergência de fontes sobre o país e sobre a região, há uma autoridade turística que fala como quem já viu o papel, e há uma lógica operacional forte, que adiante se explica. Falta o essencial: a ASO ainda não confirmou. Pesquisámos até hoje, quinta-feira, e não encontrámos anúncio oficial. A expectativa, segundo o Jornal de Negócios, é que chegue no início da próxima semana. Decerto, em 2006 e 2007, o Dakar atraíu milhares às especiais e foi um dos maiores eventos desportivos organizados em Portugal… muitos veriam com bons olhos o seu retorno e, realisticamente, s dois países, Espanha e Portugal, estão em posição de montar um arranque na Europa.

Fotos Dakar 2006 Paulo Araújo
E Esposende?
É a hipótese que mais nos apetecia que fosse verdadeira, e é a que menos suporte tem. Em nenhuma das fontes consultadas surge Esposende, nem associada ao prólogo, nem às verificações, nem sequer a uma passagem. Todas apontam o Algarve.
Mas a ideia não nasce do nada. Paulo Gonçalves nasceu em Gemeses, concelho de Esposende, e morreu a 12 de janeiro de 2020, na sétima etapa do Dakar, na Arábia Saudita, a 13.ª participação de uma carreira que começara em 2006, quando a prova chegou a Portugal. Quatro anos depois, a terra devolveu-lhe o gesto: uma escultura com cerca de cinco metros e oito toneladas, feita de peças mecânicas usadas, mais de vinte e sete mil, erguida em Esposende por iniciativa da associação Speedy Forever e da Câmara. Há uma ironia que não escapa a quem gosta de motos: o Dakar que o levou saiu do deserto que o levou.
Logisticamente, porém, Esposende é um problema. A tese que parece dominar é a de uma operação o mais compacta possível: verificações, prólogo e uma longa ligação até Algeciras, onde uma frota de ferries de automóveis faz a travessia até Tânger. Do Algarve a Algeciras são algumas centenas de quilómetros. De Esposende, seriam muito mais, com o Alentejo e a Andaluzia a fazerem de estrada de serviço para uma caravana de camiões, assistências e centenas de veículos de competição, em pleno inverno. Nenhuma organização que já pagou, por tudo o que se sabe, uma fatura dolorosa a Marrocos se oferece um luxo desses.
O que nos parece plausível, e é só isso, especulação, é um papel simbólico: uma homenagem, uma concentração de motos, uma passagem de pilotos portugueses pela escultura antes ou depois da partida oficial, organizada pelo município e pela associação, longe da logística pesada do Dakar. Seria muito mais a cara do que o nome da corrida. Mas de anunciado, até agora, não há uma linha.
O que muda na rota
Se o desenho for o que as fontes descrevem, o Dakar 2027 teria um prólogo a 9 de janeiro, doze etapas, um dia de descanso a 16 e meta a 22. O prólogo é obrigatório para as motos, e a SoyMotor lembra que a ideia não passa por especiais longas na Europa: a caravana embarcaria em Algeciras e, nos dois primeiros dias, ou não haveria cronometrados, ou haveria apenas um curto, já em Marrocos. Isso poupa a ASO a montar uma especial europeia, e põe toda a infraestrutura africana disponível desde o primeiro minuto.
Depois, Marrocos. Etapas iniciais duras e pedregosas pelo Atlas, e só depois as zonas de areia à volta de Er Rachidia, Merzouga, Erfoud ou Ouarzazate. Segundo os jornais que citam a Marca, não haverá a tradicional etapa maratona: haverá uma maratona-refúgio, sem assistência mecânica entre duas etapas e com noite passada no meio do deserto. E o Dakar, depois de duas décadas, voltaria a ser um rali de navegação mais do que de dunas gigantes, o que pesa, e muito, na hora de escolher favoritos, em motos como em carros.
Há ainda um aviso que a memória recente de janeiro nos dá. Na Africa Eco Race de 2026, a travessia de Marselha a Tânger foi prejudicada pelo mar agitado, o prólogo na praia foi cancelado pela chuva e a primeira etapa caiu por causa da neve. Um ferry em janeiro é sempre uma aposta, e o prólogo português, único troço certo da Europa, pode vir a valer mais do que parece.
O fecho
Numa oficina aprende-se que a peça só é verdadeira quando encaixa. Até lá, é conversa de balcão: promete-se, confirma-se, desmente-se, e quem espera é que fica a olhar para a bancada. O Algarve já tem quase tudo no sítio. Esposende tem a escultura, a memória e a vontade, e isso, em motos, vale tanto como uma especial.
Se a caravana vier, que o ruído dos motores chegue a todos. E que haja, algures nesse janeiro, um minuto de silêncio com as motos de pé, diante de um homem feito de peças de moto, que já ninguém precisa de apressar.
















