Sepang à espera de um rival com o pulso partido
A conta da Austrália fez-se depressa, a forma como poderá ter influenciado os resultados do Mundial, nem tanto. Como a corrida de domingo foi cancelada e não se atribuíram pontos, a classificação do MotoGP ficou exatamente como estava no sábado à noite, com Marc Márquez a liderar com 365 pontos, Jorge Martin com 355 e Marco Bezzecchi com 315. A uma semana do Grande Prémio da Malásia, em Sepang, a corrida que ninguém viu pesa tanto como as que se correram.

Os 25 pontos que ninguém ganhou
Na prática, o cancelamento retirou 25 pontos da mesa. Dos 148 que ainda estavam em jogo nas quatro rondas finais (Sepang, Lusail, Portimão e Valência), ficaram 123 de corridas por disputar, a contar só com os que cada fim de semana oferece, 37 de cada vez, Sprint e Grande Prémio. Para Márquez, que saiu da Austrália com 10 pontos de avanço depois de ganhar a corrida de Sprint na sexta e de fazer a pole em piso molhado, foi uma oportunidade perdida: se tivesse ganho, com Martin ausente, a vantagem seria de 35 pontos e o campeonato quase resolvido. Para Martin, foi um alívio, porque não perdeu mais terreno, embora a Aprilia admita que não sabe se o cancelamento lhe foi bom ou mau.

Márquez: o favorito que não pode distrair-se
Márquez chega a Sepang com a maior vantagem da época e a ideia, cada vez mais real, de um oitavo título na classe rainha, que o colocaria à frente de Valentino Rossi. Voltou ao comando pela terceira vez este ano depois de ter estado a 102 pontos do líder, após a lesão que o fez falhar duas corridas. Na Sprint da Austrália, ganhou a nona do ano e a 24.ª da carreira num duelo em que Martin foi mais rápido durante alguns momentos. “Hoje era uma luta pelo título”, disse o campeão, e admitiu que, não sendo Martin, teria sido mais calmo.
O problema é que a Malásia nunca foi um terreno especialmente amigável para o espanhol, e o irmão Álex costuma andar bem em Sepang, o que obriga a Ducati a uma equação delicada que a equipa nunca quis resolver com ordens de equipa.

Martin: a fratura e o resto
Martin caiu à oitava das 13 voltas da sprint, na curva oito, depois de nove ultrapassagens trocadas com Márquez. O exame mostrou uma fratura sem desvio do rádio distal no pulso direito, e uma segunda fratura suspeita no cúbito foi descartada. As notícias são melhroes do que o esperado, por agora não precisa de cirurgia, e o piloto ficou na Austrália a fazer fisioterapia antes de seguir diretamente para a Malásia. A Aprilia, pela voz de Paolo Bonora, trabalha para que ele esteja na primeira sessão livre de sexta-feira. Massimo Rivola foi bem mais cauteloso: “Espero ver o Jorge em Sepang, pelo menos connosco”. Fisicamente, Sepang é um dos circuitos mais exigentes do calendário e, mesmo autorizado, Martin chegaria visivelmente limitado.
Há também uma leitura mais dura: a queda confirmou um padrão, o de um piloto que, em momentos decisivos e mesmo quando tem mais moto do que o rival, tende a cometer erros. A mensagem, para Martin, é que o pior pode não ser o pulso.
Bezzecchi: o terceiro homem
Bezzecchi está a 50 pontos, quarto na sprint depois de um mau arranque que o deixou em 12.º, e é a face do outro lado do cancelamento. Rivola contou que ele estava um bocado zangado, porque a Aprilia tinha sido a mais forte em seco nos dois últimos circuitos e saiu de lá com pouco, e porque ao longo de uma corrida normal o italiano e Raúl Fernández pareciam melhores apostas do que Martin. Rivola não o dá por vencido enquanto a matemática o permitir, e a Ducati diz que ele pode ganhar qualquer corrida. Mas para apanhar Márquez precisaria de ganhar quase tudo, e ainda assim, de que Márquez falhasse.

Quem não estará lá
A lista de ausências por lesão pode alterar o cenário. Fermín Aldeguer, que fraturou a mão em Mandalika, falha Sepang, o sexto fim de semana da época que perde, e Iker Lecuona, vice-campeão do WorldSBK, continua no seu lugar na Gresini. Toprak Razgatlıoğlu, com uma lesão no ombro sofrida na Indonésia, vê a sua época de estreia no MotoGP terminar e deverá ser substituído por Augusto Fernández. Joan Mir regressa pela Honda, mas continua a esperar-se informação sobre Luca Marini e sobre o próprio Martin. Raúl Fernández, da Aprilia, também ficou de fora na Austrália e tudo indica que não regressará.
Portimão ao fundo do túnel
Segundo um cálculo rápido, ninguém pode ser campeão em Sepang. A primeira oportunidade de Márquez seria em Lusail, no dia 8, mas a corrida do Qatar continua em dúvida por causa da situação no Golfo, – há mesmo um abaixo-assinado de 15 pilotos recusando-se a tomar parte na corrida – e se for cancelada tudo se adia. Em Portimão, a 22 de novembro, o título ficaria decidido se o líder tivesse 38 pontos ou mais de avanço, ou seja, mais do que os 37 que restariam para Valência. Márquez só fica fora depois do Algarve se Martin o superar em 48 pontos ou mais nas três rondas, ou Bezzecchi em 88. Com 10 pontos à saída da Austrália, e 111 por disputar depois de Sepang, Portimão pode ser o sítio onde tudo se fecha, ou onde, pelo contrário, ainda se abre.
Enquanto o paddock aterra em Kuala Lumpur, uma coisa já se sabe: a última corrida de Phillip Island, a que não se correu, vai acabar por pesar no desfecho. Faltam sete pontos de Márquez, três de Bezzecchi, um pulso de Martin. E um longo calendário que, de repente, parece mais curto do que era.
















