A Toledana que não pediu licença

Há pilotos que nascem com a pista no sangue, e há pilotos que a conquistam à força de teimosia, a empurrar portas que alguém decidiu fechar. María Herrera, nascida a 26 de agosto de 1996 em Oropesa, na província de Toledo, pertence ao segundo grupo. Em outubro de 2026, em Jerez, tornou-se a primeira mulher a ganhar dois títulos do Mundial Feminino de Velocidade, o WorldWCR, e a primeira a defendê-lo com êxito. Nesse dia, já nem precisou de subir ao pódio para o conseguir.

O princípio contra os homens
Cresceu entre Oropesa e Talavera de la Reina, perto o suficiente de Álvaro Bautista para serem amigos e parceiros de treino. Passou pelos campeonatos juniores e nacionais espanhóis, e em 2013 fez o que ninguém (do seu género, entenda-se!) antes dela tinha feito: ganhou uma corrida do Campeonato de Espanha de Moto3, o CEV. Foi em Motorland Aragón, com a equipa Junior Estrella Galicia 0,0, e foi a primeira vez que uma mulher ganhou. Bastou para que muita gente se calasse.

A menina que batia Quartararo
Aquele CEV não era para meninas. Era o campeonato onde andavam o francês Fabio Quartararo, então com catorze anos e já a caminho de ser campeão do mundo de MotoGP, Jorge Navarro, Marcos Ramírez, Adrián Martín. Em 2013, Herrera ganhou duas corridas, em Aragão e em Navarra, e acabou em quarto lugar no campeonato, com 102 pontos, atrás de Quartararo por menos do que a diferença entre o primeiro e o segundo. No ano seguinte voltou a ganhar, em Jerez, com Quartararo atrás dela na meta.
Ao mesmo tempo, estreou-se no Moto3 do Mundial como convidada, nos Grandes Prémios de Espanha de 2013 e 2014. Em 2015 fez a primeira época inteira, com a Husqvarna da equipa Laglisse, e o melhor resultado foi um 11.º lugar em Phillip Island, que lhe valeu 5 pontos na corrida ganha por um tal de Miguel Oliveira.

Em 2016 chegou a ser ela própria a dona da equipa, ao tomar conta da Laglisse com uma KTM, e em 2017, com a AGR, foi a única mulher no paddock do Mundial de Velocidade. Fez 54 corridas de Moto3 e, apesar disso, para 2018 ficou sem lugar por falta de patrocínios, porque no motociclismo o dinheiro pesa mais do que o talento e, se se for mulher, pesa ainda mais. Nos bastidores, tem fama de ser muito exigente e conflituosa, e isso também não terá ajudado.
Podia ter desistido, mas mudou de paddock. Foi para o Mundial de Supersport 300, com uma Yamaha R3 da MS Racing, onde acabou em 13.º lugar. Em 2019 entrou na Taça do Mundo de MotoE, onde somou seis épocas seguidas e 60 corridas, e foi campeã espanhola feminina em 2020 e 2021. Em 2022 ganhou as 24 Horas da Catalunha na classe de Supersport. Em 2021, em Aragão, correu ainda como convidada de Moto3 numa equipa inteiramente feminina, a Angeluss MTA, e passou à história por isso. Nunca teve o lugar que merecia, mas tinha sempre um plano seguinte.
O domínio do WorldWCR
Em 2024, a FIM lançou o primeiro Mundial Feminino de Velocidade, e Herrera, embora a princípio estivesse contra a separação, pareceu feita à medida: ganhou seis corridas das doze, subiu a mais pódios e chegou à última ronda a lutar pelo título. Perdeu-o por uma queda, e o campeonato foi para Ana Carrasco. Em 2025, voltou com um único objetivo. Ganhou outra vez seis corridas, fez dez pódios e, em Jerez, ganhou a primeira corrida e, à segunda, atravessou a meta como campeã, com cinco pontos de avanço sobre Beatriz Neila, e Paola Ramos, ainda convidada, a ganhar a corrida com uma margem recorde de 9,578 segundos.
Em 2026 mudou de casa, da Klint Forward para a Terra & Vita GRT Yamaha, e disse na apresentação que o seu objetivo, como campeã em título, era defender a coroa e que o nível do campeonato continuava a subir. Cumpriu: ao chegar a Jerez, tinha subido ao pódio em todas as corridas da época, e o pior resultado até ali tinha sido um terceiro lugar na segunda corrida de Balaton. A luta foi com Neila e com Ramos, que entretanto passou a pilotar a tempo inteiro pela Klint. A tensão rebentou em Donington, onde
Herrera e Neila chegaram a vias de facto numa corrida e Herrera foi penalizada por um contacto com Ramos na última volta, o que adiou a decisão.
Chegou a Jerez com 44 pontos de vantagem e só precisava de seis. Foi o que fez, sem arriscar: acabou em quinto lugar na primeira corrida, atrás de Natalia Rivera, a sua companheira de equipa, e foi campeã pela segunda vez. A corrida foi ganha por Ramos, que tinha sido penalizada com duas voltas longas por uma falsa partida e recuperou. Na segunda, Herrera ainda andou perto do pódio, chegou a 0,9 segundos da frente, a fazer a volta mais rápida em 1:51:345, mas foi ultrapassada por fora na última curva por Chloe Jones, e terminou em quarto lugar. Dedicou o título a todos os que lutam contra o cancro, com um capacete especial que adotou.

Fotos: William Jolly, SBK e Facebook Maria Herrera
Nas suas palavras
Depois do título, disse que o segundo campeonato é mais difícil do que o primeiro, porque é preciso aguentar a pressão e ser mais rápida em cada corrida. Explicou que é muito difícil continuar a trabalhar quando se é a campeã, porque é preciso manter a mesma mentalidade e às vezes não se pode relaxar. Admitiu que Neila e Ramos a pressionaram em algumas corridas, e que aprendeu a contentar-se com um resultado menos brilhante quando isso interessava ao campeonato.
Depois, revelou o que ninguém sabia: tinha partido dois dedos e deslocado o ombro esquerdo a meio da época. Contou que chegar a Jerez, depois de três meses parada, a tentar não agravar o ombro, foi a parte mais difícil, e que, no fim, o ombro esquerdo estava um pouco dormente. Vai ser operada nos dias seguintes. Sobre Jerez, disse que não pensava ficar tão nervosa, e que o que se passou em Inglaterra lhe parecia “um bocado estranho”, porque ali o campeonato devia ter ficado resolvido.
Pediu ainda, com um sorriso, que a deixassem competir numa corridinha de MotoGP, um sonho antigo que daria visibilidade ao campeonato, e queixou-se de como é difícil a uma piloto encontrar os meios para subir a categorias mais prestigiadas. Espera que a CFMOTO, que substitui a Yamaha como fornecedora única de motos em 2027, traga mais potência e mais espetáculo. Para 2027, ainda não tinha contrato.
O que sobra
Aprendi, ao escrever isto, que o título de María Herrera não se mede só em corridas ganhas, 18 e 29 pódios em 35 corridas, nem em dois campeonatos num mundial de três anos. Mede-se pelo que foi preciso para chegar a ele: o pai a bater a portas, a Moto3 feita sem dinheiro, o ombro partido que ninguém viu. Quem passa uma década a aprender a esperar, e depois a ganhar, não se deixa abalar por uma curva mal tomada numa tarde de outubro. E na vida, como nas corridas, nunca se ganha sozinho, mas também não se ganha sem teimosia.
















