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WCR – Maria Herrera bisa no Mundial Feminino

Paulo Araújo por Paulo Araújo
22 Outubro, 2026
em Destaque Homepage, Mundial Feminino WCR, Newsletter, Velocidade
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SSP – Oli Bayliss fica na Triumph

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A Toledana que não pediu licença

Há pilotos que nascem com a pista no sangue, e há pilotos que a conquistam à força de teimosia, a empurrar portas que alguém decidiu fechar. María Herrera, nascida a 26 de agosto de 1996 em Oropesa, na província de Toledo, pertence ao segundo grupo. Em outubro de 2026, em Jerez, tornou-se a primeira mulher a ganhar dois títulos do Mundial Feminino de Velocidade, o WorldWCR, e a primeira a defendê-lo com êxito. Nesse dia, já nem precisou de subir ao pódio para o conseguir.

O princípio contra os homens
Cresceu entre Oropesa e Talavera de la Reina, perto o suficiente de Álvaro Bautista para serem amigos e parceiros de treino. Passou pelos campeonatos juniores e nacionais espanhóis, e em 2013 fez o que ninguém (do seu género, entenda-se!) antes dela tinha feito: ganhou uma corrida do Campeonato de Espanha de Moto3, o CEV. Foi em Motorland Aragón, com a equipa Junior Estrella Galicia 0,0, e foi a primeira vez que uma mulher ganhou. Bastou para que muita gente se calasse.

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A menina que batia Quartararo
Aquele CEV não era para meninas. Era o campeonato onde andavam o francês Fabio Quartararo, então com catorze anos e já a caminho de ser campeão do mundo de MotoGP, Jorge Navarro, Marcos Ramírez, Adrián Martín. Em 2013, Herrera ganhou duas corridas, em Aragão e em Navarra, e acabou em quarto lugar no campeonato, com 102 pontos, atrás de Quartararo por menos do que a diferença entre o primeiro e o segundo. No ano seguinte voltou a ganhar, em Jerez, com Quartararo atrás dela na meta.
Ao mesmo tempo, estreou-se no Moto3 do Mundial como convidada, nos Grandes Prémios de Espanha de 2013 e 2014. Em 2015 fez a primeira época inteira, com a Husqvarna da equipa Laglisse, e o melhor resultado foi um 11.º lugar em Phillip Island, que lhe valeu 5 pontos na corrida ganha por um tal de Miguel Oliveira.

Em 2016 chegou a ser ela própria a dona da equipa, ao tomar conta da Laglisse com uma KTM, e em 2017, com a AGR, foi a única mulher no paddock do Mundial de Velocidade. Fez 54 corridas de Moto3 e, apesar disso, para 2018 ficou sem lugar por falta de patrocínios, porque no motociclismo o dinheiro pesa mais do que o talento e, se se for mulher, pesa ainda mais. Nos bastidores, tem fama de ser muito exigente e conflituosa, e isso também não terá ajudado.
Podia ter desistido, mas mudou de paddock. Foi para o Mundial de Supersport 300, com uma Yamaha R3 da MS Racing, onde acabou em 13.º lugar. Em 2019 entrou na Taça do Mundo de MotoE, onde somou seis épocas seguidas e 60 corridas, e foi campeã espanhola feminina em 2020 e 2021. Em 2022 ganhou as 24 Horas da Catalunha na classe de Supersport. Em 2021, em Aragão, correu ainda como convidada de Moto3 numa equipa inteiramente feminina, a Angeluss MTA, e passou à história por isso. Nunca teve o lugar que merecia, mas tinha sempre um plano seguinte.

O domínio do WorldWCR
Em 2024, a FIM lançou o primeiro Mundial Feminino de Velocidade, e Herrera, embora a princípio estivesse contra a separação, pareceu feita à medida: ganhou seis corridas das doze, subiu a mais pódios e chegou à última ronda a lutar pelo título. Perdeu-o por uma queda, e o campeonato foi para Ana Carrasco. Em 2025, voltou com um único objetivo. Ganhou outra vez seis corridas, fez dez pódios e, em Jerez, ganhou a primeira corrida e, à segunda, atravessou a meta como campeã, com cinco pontos de avanço sobre Beatriz Neila, e Paola Ramos, ainda convidada, a ganhar a corrida com uma margem recorde de 9,578 segundos.
Em 2026 mudou de casa, da Klint Forward para a Terra & Vita GRT Yamaha, e disse na apresentação que o seu objetivo, como campeã em título, era defender a coroa e que o nível do campeonato continuava a subir. Cumpriu: ao chegar a Jerez, tinha subido ao pódio em todas as corridas da época, e o pior resultado até ali tinha sido um terceiro lugar na segunda corrida de Balaton. A luta foi com Neila e com Ramos, que entretanto passou a pilotar a tempo inteiro pela Klint. A tensão rebentou em Donington, onde

Herrera e Neila chegaram a vias de facto numa corrida e Herrera foi penalizada por um contacto com Ramos na última volta, o que adiou a decisão.
Chegou a Jerez com 44 pontos de vantagem e só precisava de seis. Foi o que fez, sem arriscar: acabou em quinto lugar na primeira corrida, atrás de Natalia Rivera, a sua companheira de equipa, e foi campeã pela segunda vez. A corrida foi ganha por Ramos, que tinha sido penalizada com duas voltas longas por uma falsa partida e recuperou. Na segunda, Herrera ainda andou perto do pódio, chegou a 0,9 segundos da frente, a fazer a volta mais rápida em 1:51:345, mas foi ultrapassada por fora na última curva por Chloe Jones, e terminou em quarto lugar. Dedicou o título a todos os que lutam contra o cancro, com um capacete especial que adotou.

Fotos: William Jolly, SBK e Facebook Maria Herrera

Nas suas palavras
Depois do título, disse que o segundo campeonato é mais difícil do que o primeiro, porque é preciso aguentar a pressão e ser mais rápida em cada corrida. Explicou que é muito difícil continuar a trabalhar quando se é a campeã, porque é preciso manter a mesma mentalidade e às vezes não se pode relaxar. Admitiu que Neila e Ramos a pressionaram em algumas corridas, e que aprendeu a contentar-se com um resultado menos brilhante quando isso interessava ao campeonato.
Depois, revelou o que ninguém sabia: tinha partido dois dedos e deslocado o ombro esquerdo a meio da época. Contou que chegar a Jerez, depois de três meses parada, a tentar não agravar o ombro, foi a parte mais difícil, e que, no fim, o ombro esquerdo estava um pouco dormente. Vai ser operada nos dias seguintes. Sobre Jerez, disse que não pensava ficar tão nervosa, e que o que se passou em Inglaterra lhe parecia “um bocado estranho”, porque ali o campeonato devia ter ficado resolvido.
Pediu ainda, com um sorriso, que a deixassem competir numa corridinha de MotoGP, um sonho antigo que daria visibilidade ao campeonato, e queixou-se de como é difícil a uma piloto encontrar os meios para subir a categorias mais prestigiadas. Espera que a CFMOTO, que substitui a Yamaha como fornecedora única de motos em 2027, traga mais potência e mais espetáculo. Para 2027, ainda não tinha contrato.
O que sobra
Aprendi, ao escrever isto, que o título de María Herrera não se mede só em corridas ganhas, 18 e 29 pódios em 35 corridas, nem em dois campeonatos num mundial de três anos. Mede-se pelo que foi preciso para chegar a ele: o pai a bater a portas, a Moto3 feita sem dinheiro, o ombro partido que ninguém viu. Quem passa uma década a aprender a esperar, e depois a ganhar, não se deixa abalar por uma curva mal tomada numa tarde de outubro. E na vida, como nas corridas, nunca se ganha sozinho, mas também não se ganha sem teimosia.

Tags: FIMHerreraMartiaSBKTalaveraWCRYamaha
Paulo Araújo

Paulo Araújo

Com uma experiência de várias décadas no âmbito do motociclismo, viajou pelo mundo cobrindo eventos nas duas rodas. Já foi piloto de velocidade, team manager, instrutor, jornalista e comentador de rádio e televisão, especializando nas modalidades de velocidade, em particular MotoGP, SBK e Endurance.

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