Aos 31 anos, Jack Miller prepara-se para virar uma das páginas mais longas da sua carreira. Após dezasseis temporadas em Grandes Prémios, o australiano confirmou que a segunda metade da temporada de 2026 será a sua última no MotoGP. O antigo piloto da Honda, Ducati, KTM e Yamaha faz um balanço de um percurso atípico, marcado por escolhas ousadas, vitórias memoráveis e uma convicção que nunca o abandonou: um piloto não pode ter sucesso ao mais alto nível sem se considerar o melhor.
Numa entrevista concedida ao jornalista Manuel Pecino, no canal de YouTube PecinoGP, Jack Miller recordou a sua trajetória, iniciada na Europa em 2010, no campeonato alemão, antes da chegada aos Grandes Prémios. O australiano guarda uma memória especial dos seus primeiros tempos na MotoGP, quando partilhava o motorhome com Maverick Viñales.
“Tinha 19 anos e partilhava um motorhome com o Maverick. Foi uma experiência fantástica.”
Ao longo dos anos, Miller tornou-se um dos poucos pilotos a representar Honda, Ducati, KTM e Yamaha, acreditando que cada fabricante contribuiu para ampliar os seus conhecimentos sobre as motos.
“Contribuí para muitos projetos e tentei absorver o máximo possível de cada moto e de cada equipa. Cada experiência foi crucial para o meu desenvolvimento enquanto piloto.”
Questionado sobre as lendas contra quem competiu — Valentino Rossi, Marc Márquez, Jorge Lorenzo, Dani Pedrosa ou Nicky Hayden —, Miller respondeu sem hesitar:
“Eu não seria piloto se não pensasse que sou o melhor.”
Uma afirmação que pode surpreender, mas que rapidamente contextualizou.
“Os números existem, claro, mas o mais importante é aquilo que sentimos. Talvez seja uma ilusão… mas é esse o estado de espírito que um piloto tem de ter.”
Ainda assim, sublinhou o enorme respeito que sente pelos seus antigos adversários.
“O Jorge, no seu melhor nível, era incrível. O Dani também. Tive muita sorte por partilhar a pista com eles e até subir ao pódio com o Valentino.”
Jack Miller ficará também na história como um dos poucos pilotos da era moderna a ter chegado diretamente à MotoGP a partir da Moto3, sem passar pela Moto2. Uma decisão da qual nunca se arrependeu.
“Nunca me arrependi de ter saltado a Moto2. Todas as decisões que tomei na minha carreira foram ponderadas.”
A sua carreira ficou marcada pela espetacular vitória à chuva em Assen 2016, com a LCR Honda, antes de viver os seus melhores anos na Ducati, onde conquistou quatro vitórias na MotoGP e terminou o campeonato de 2021 na quarta posição.
Miller falou também com emoção sobre a saída de Phillip Island do calendário da MotoGP. Para o australiano, aquele circuito representa muito mais do que uma simples pista.
“Phillip Island é um tesouro nacional na Austrália. Ninguém está mais triste do que eu por vê-lo desaparecer.”
O piloto espera continuar a contribuir para o desenvolvimento da MotoGP no seu país, mesmo depois de terminar a carreira.
A última temporada de Miller está longe de ser a mais fácil. Ao serviço da Pramac Yamaha, ocupa apenas o 20.º lugar do campeonato, com 19 pontos, e o seu futuro na MotoGP parece já definido. Ainda assim, após dezasseis anos ao mais alto nível, o australiano prepara-se para deixar o paddock com a reputação intacta de piloto combativo, apreciado pela sua frontalidade e pela sua capacidade de contribuir para o desenvolvimento das motos que pilotou.
A frase de Jack Miller sobre se considerar melhor do que Rossi ou Márquez não deve ser interpretada literalmente. O australiano não afirma possuir um palmarés superior ao de campeões com nove ou oito títulos mundiais. O que descreve é a mentalidade necessária para competir ao mais alto nível.
Todos os grandes campeões partilham essa convicção íntima: quando se colocam na grelha de partida, têm de acreditar que podem vencer qualquer adversário. Sem essa confiança absoluta, torna-se praticamente impossível assumir os riscos necessários para lutar pela vitória.
Outro ponto interessante da entrevista é a forma como Miller olha para a sua própria carreira. Apesar de ter conquistado apenas quatro vitórias na categoria rainha, não transmite qualquer sentimento de arrependimento. A passagem por Honda, Ducati, KTM e Yamaha permitiu-lhe adquirir uma experiência técnica excecional, tornando-o num dos pilotos mais versáteis da sua geração.
Por fim, a sua ligação a Phillip Island ilustra perfeitamente aquilo que representa para a MotoGP australiana. Mais do que um simples piloto, Miller tornou-se um verdadeiro embaixador da modalidade no seu país. Mesmo sem alcançar os resultados dos seus mais ilustres antecessores, o seu compromisso com o desporto sugere que continuará a desempenhar um papel importante no paddock quando pendurar definitivamente o capacete.
















