MotoGP:Estreia em grande de Miguel Oliveira

Por a 11 Março 2019 10:27

Miguel Oliveira, o primeiro português a integrar a MotoGP, brilhou na sua estreia muito aguardada na categoria rainha do motociclismo, num fim-de-semana que foi um turbilhão de emoções para todos que o seguem e, decerto, mais ainda para o jovem de Almada. O resultado final de 17º, sem pontuar, não reflete o facto de que, em várias das sessões de treinos, andou dentro do Top 10, à frente de pilotos muito mais experientes e de que passou a maior parte da corrida em 13º com o 5 vezes Campeão Mundial Lorenzo atrás de si.

Losail, a alguns quilómetros da capital do Qatar Doha, é uma pista complicada, a criar só por si inúmeros problemas aos técnicos e pilotos em pista, numa fase em que a maioria das equipas ainda está a braços com o desenvolvimento das motos – vejam-se os problemas encontrados pelas Honda Repsol, com várias quedas dos seus pilotos que, entre si, somam 8 títulos em MotoGP, ou a inconsistência da poderosa Ducati ao longo das sessões de treinos, ora mais rápidos, ora perdidos no fundo da tabela.

Em várias sessões, Miguel foi a melhor KTM

O traçado de Losail trouxe dificuldades para lá da habitual – a fina camada de areia que sopra do deserto e das inúmeras obras na proximidade da pista torna pisar com os pneus fora da trajetória limpa da pista um exercício traiçoeiro – como muito vento e até temperaturas muito baixas nas sessões de fim de tarde, a dificultar o funcionamento dos pneus.

Contra isto, a KTM trouxe uma das suas forças inegáveis, a estabilidade na dianteira na entrada em curva, que sem dúvida deu, em parte, a Oliveira uma das razões para o seu desempenho excecional, em vista do estilo do português se basear muito justamente na capacidade de entrar em curva a grande velocidade…

Por outro lado, saída em plena aceleração já é outra história para as RC16, como o chefe de fila da equipa oficial da KTM Red Bull, o Francês Johann Zarco, descobriu para seu detrimento – sendo mesmo batido pelo rookie português em 2 das sessões de treinos. Corrigida gradualmente ao longo de 2018, muito graças aos esforços do piloto de ponta Pol Espargaró e à facilidade com que novos quadros em treliça podem ser produzidos, a tendência da RC16 de alargar e sair de linha sob aceleração à saída de curvas é a mais preocupante característica a impedir a moto de andar mais à frente, e frustrante para pilotos e técnicos.

Oliveira mostrou que é um valor seguro na KTM

Se uma máquina de MotoGP não se mantém em linha ao longo de uma curva, seguindo a corda, mas alarga a trajetória, tem de se virar com a traseira, ocasionando derrapagem e desgaste prematuro dos pneus… por isso vimos no passado, não raro, as laranjas austríacas andar nos primeiros 7 ou 8 à partida, só para se afundarem na classificação a 4 ou 5 voltas do fim… Em 2018, Espargaró, ajudado por um novo quadro usado a partir de Aragón, soube inverter esta tendência em parte, nomeadamente com o seu brilhante terceiro na corrida de fecho da época em Valencia, mas os restantes resultados, uma série de 9 conclusões nos pontos, apenas incluíam 5 corridas em 11º contra 10 em que não pontuou sequer…

Por aqui se vê porque a prestação de Miguel Oliveira se pode considerar excecional logo na fase dos treinos livres. O português não chegou à sessão final de qualificação, a Q2, mas nenhuma das KTM o fez. Por outro lado, e continuando o bom trabalho feito ao lado do experiente Guy Coulon, que nos tempos áureos da Honda France na Resistência já assistira outro português, Alex Vieira, Miguel esteve em evidência logo no primeiro treino livre, onde um tempo de 1:56.061 o colocou em 18º e segunda KTM atrás de Pol Espargaró.

Na segunda sessão livre, embora o tempo baixasse em quase 4/10 para 1:55.635, Miguel desceria duas posições para 20º, em parte por ter Zarco já à sua frente em 18º e Espargaró apenas em 16º. Digna de nota também a tremenda velocidade de ponta atingida pelo V4 da KTM 345 km/h neste sessão rivalizando com as velocidades máximas atingidas em Losail pelas sempre mais rápidas do pelotão Ducatis.

Já no terceiro treino livre, as coisas melhoraram substancialmente… obviamente, os pilotos KTM andaram a experimentar ajustes que resultaram em pleno, já que Espargaró foi desta feita 3º e Zarco 9º, mas mais relevante ainda, Miguel ficou nume excelente 10º com um tempo de 1:55.557, navalhando ainda umas centésimas ao crono da sessão anterior…

“Bom começo neste dia de qualificação!” – comentaria o português nas redes sociais ao fim desse dia. No Sábado, na derradeira e quarta sessão livre, por alguma razão, talvez em parte por uma pronunciada descida de temperatura no circuito, todos os pilotos da formação de Matighofen baixaram os seus tempos e lugares na grelha, mas Oliveira, com o seu 1:56.011 era a mais rápida KTM, acabando em 16º com Espargaró 19º, Zarco 20º e Syarhin 22º…

Perante estes tempos fora do Top 10, todas as KTM tinham de pré-qualificar na sessão de Qualificação 1, em que, com os 10 mais rápidos qualificados automaticamente para a Q2, e portanto, ausentes da grelha, mais uma vez, Miguel foi  sétimo (contra o 11º de Johann Zarco!) o seu tempo de 1:55.122 apenas 0,382 milésimas atrás de Pol Espargaró, qualificado imediatamente à sua frente. Isto significou que nenhuma das KTM transitou para a Q2 final, e que o seus lugares na grelha estavam a partir daí determinados, Miguel em 17º, ou seja, sétimo da sua sessão mais os 10 pré-qualificados à sua frente.

Depois de um Warm Up sem novidade, chegou então o momento que todos aguardavam: A estreia de Oliveira no MotoGP, primeira participação de um português na classe rainha da era da MotoGP, já que antes disso, em 1998, Felisberto Teixeira participara numa Honda Shell 500 a 2 tempos em Jerez de la Frontera… Na corrida, fruto de um bom arranque muita confusão nas primeira voltas, o piloto da Caparica foi durante alguns momentos da corrida o melhor piloto KTM, ao rodar em 13º dentro dos pontos e à frente de Johann Zarco e Pol Espargaro, para não falar do seu colega de equipa Hafizh Syahrin, que nunca estave perto do português até agora.

À medida que a corrida evoluiu, Miguel foi perdendo esses lugares pontuáveis, muito devido ao desgaste do pneu traseiro da KTM RC16, mas também à carga tardia de Jorge Lorenzo, que passou quase toda a corrida atrás do português e do excecional Quartararo, que compelido a arrancar da boxe, recuperou até 16º, baixando Oliveira para o seu lugar final de 17º… depois ds sucessos do fim-de-semana, soube a pouco, mas Miguel disse ainda, sem desanimar:

 “Foi uma corrida interessante. O meu motor parou na grelha de partida e tive de voltar a fazer um restart do pit lane, alinhar em último, mas apesar deste pequeno percalço mantive-me calmo e fiz uma boa partida e uma excelente primeira volta, onde passei em décimo quarto na primeira passagem pela linha de meta.”

À medida que a corrida evoluía, Miguel entrou no ritmo, sempre muito seguro e à espreita da oportunidade de subir lugares:  “Fiquei muito surpreendido pela performance da moto no início da corrida e consegui manter-me e defender-me dentro do grupo. É pena que a sete ou oito voltas do fim o meu pneu traseiro tenha perdido o rendimento… a partir daí não houve muito mais que pude fazer, pois o pneu estava completamente degradado e não consegui terminar nos pontos.”

Um certo tom de desilusão não escondia, no entanto, a confiança para as provas seguintes:

“Senti que hoje era um dia onde eu tinha muita capacidade, contudo não conseguimos fazer com que o pneu durasse a corrida inteira. Saímos daqui com o facto positivo de estarmos competitivos e termos potencial para sermos mais rápidos. No final de tudo, terminar a 16 segundos não  é nada negativo e a equipa está contente. Agora vamos trabalhar para fazer melhor no grande prémio da Argentina. O meu sonho hoje tornou-se realidade, fiz a minha primeira corrida de MotoGP. Lutei com o que tinha e estou certo que ainda vamos ter muitas alegrias com a minha KTM. ”

Estamos todos contigo, Miguel… Parabéns!

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JF

Lá começam vocês, não aprenderam nada com o ano passado, o ano passado a meio da epoca já temos campeão porque o Oliveira no ano anterior tinha feito melhor que o Bagnaia. Este ano estreia em grande, excepcional (escrito em bom português, sem esse “lixo” que é o acordo ortografico, mas que fez Miguel assim de tão extraordinario? não andou mal, a certa altura da corrida até estava bem classificado mas depois começou a descer e acabou mais ou menos onde provavelmente irá acabar a maioria das corridas senão houver desistencias na frente. Para mim ter sido em grande teria… Ler mais »

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