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MotoGP – O protesto dos pilotos sobre a ida ao Qatar

Paulo Araújo por Paulo Araújo
27 Outubro, 2026
em Destaque Homepage, Moto GP, Newsletter destaque
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MotoGP – Acosta: “Neste momento, ganhar é impossível”

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Quando o Paddock diz que não vai

Há corridas que se cancelam por causa do tempo, como a de Phillip Island, e há corridas que ameaçam não acontecer por causa da guerra. O Grande Prémio do Qatar, que devia ter aberto o campeonato há muito tempo e acabou empurrado para novembro, está agora no centro de um braço de ferro entre os pilotos de MotoGP e a organização. Os primeiros dizem que não vão sem garantias. A segunda diz que a corrida se faz. E, entre uns e outros, ninguém sabe ainda como acaba, a menos de duas semanas de uma prova que só existe se alguém se sentar nas motos.

Como se chegou a esta situação
O Grande Prémio estava marcado para 10 a 12 de abril, mas foi adiado, a 15 de março, para 6 a 8 de novembro, por causa do conflito entre os Estados Unidos, Israel e o Irão. O calendário teve de se reajustar: Portimão passou para 22 de novembro e Valência, a final, para 29. O Qatar tornou-se a 20.ª das 22 rondas, o terceiro fim de semana de uma sequência com Austrália e Malásia e a apenas uma semana da dupla Portimão-Valência.esta
Entretanto, as coisas pioraram. Houve ataques dos houthis a infraestruturas civis na Arábia Saudita, um ataque ao aeroporto de Riade que matou pelo menos 12 pessoas e feriu mais de 300, e o cancelamento de eventos desportivos naquele país, como o Dakar. Os Estados Unidos mandaram sair diplomatas e familiares de várias missões, e Espanha, Alemanha e Itália aconselham a adiar ou repensar viagens para o Qatar. Segundo fontes, a segurança em causa já nem está nas mãos da MotoGP, porque tudo depende do que acontecer na guerra.

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Quem são os que dizem não
Os pilotos nunca falaram a uma só voz, e é por isso que o episódio é interessante. Em Phillip Island, na quinta-feira, reuniram-se em segredo e votaram. Segundo o site The Race, cerca de dois terços votaram contra a ida, numa contagem que outros relatos fixam em 15 contra 5. Depois, contrataram um advogado, que escreveu cartas privadas às equipas a dizer que não estão preparados para correr no Qatar e a perguntar o que pensam fazer. Alguns jornalistas descrevem o gesto como os pilotos a “jogarem o jogo da Dorna”, porque Carlos Ezpeleta, diretor-adjunto da MotoGP, dissera na Indonésia que não lhe cabia pedir opinião aos pilotos, já que não trabalham para ele.
A facção mais dura, segundo a GPOne, seria liderada por Marc Márquez e teria pelo menos mais três: o irmão Álex Márquez, Fabio Quartararo e Álex Rins. O campeão recusou comentar o assunto em público, e o seu silêncio foi lido como uma recusa de viajar. O chefe da Ducati, Davide Tardozzi, saiu em sua defesa na Sky Itália, ao dizer que Márquez nunca disse que não queria ir, apenas que queria um plano de segurança, e que muitos pilotos que falam fora das reuniões com mais veemência ficam calados quando estão diante dos organizadores.
Há quem fale de outra maneira. Jorge Martin diz que quer ir, porque o circuito é incrível e acredita em quem gere o campeonato, e que, se os organizadores decidirem que se pode ir, será porque a segurança estará garantida. Álex Márquez é mais cético: disse que cada dia a situação muda e parece pior, que a organização afirma ter tudo sob controlo, mas ninguém tem uma situação destas controlada, e que não deviam decidir agora, mas esperar. Reconheceu ainda que há muito dinheiro em jogo e que a Dorna quer tudo.

Os argumentos
O primeiro é o óbvio: a segurança de quem viaja, num momento em que vários governos desaconselham deslocações. O segundo é logístico e menos falado. Segundo a GPOne e outros órgãos, os pilotos pedem planos de evacuação, apoio ao pessoal e o pagamento dos custos, incluindo hotéis, se o espaço aéreo fechar e ficarem presos em Doha, e seguros adequados. Já o ano passou por um encerramento do espaço aéreo na região. Um terceiro argumento vem de Phillip Island: se a falta de um meio de evacuação médica chegou para cancelar uma corrida, argumentam alguns, a mesma exigência de precaução deveria aplicar-se ao Qatar.
Há ainda um argumento que ninguém diz em voz alta: o das ausências. Algumas equipas e fornecedores deram aos funcionários a liberdade de escolherem se vão, e o patrão da VR46, Alessio Salucci, deixou a decisão ao pessoal. As televisões começaram a mexer-se: a Ziggo Sport e a TNT Sport estudam a possibilidade de ficar em estúdio.

O que fazem os pilotos e o que faz a Dorna
Os pilotos já fizeram o voto, escreveram às equipas e entregaram a Carlos Ezpeleta uma lista de exigências. A maioria das equipas, segundo a GPOne, confia no que a MotoGP decidir, e diz que, se lhe garantirem que é seguro, vai. A Ducati, a Yamaha e a Honda terão preocupações semelhantes às dos pilotos, segundo outros relatos.
A organização mantém a corrida. Carmelo Ezpeleta já dissera em setembro que a ideia era ir, e o correio da IRTA às equipas fala em viajar diretamente de Sepang para Lusail. O circuito diz estar nas fases finais de preparação, e a FIA, no lado da Fórmula 1, também considera a situação por agora “bem”. Mas Carlos Ezpeleta vai pessoalmente a Doha, na quarta-feira, pedir garantias adicionais, e fontes referem que a Dorna não tem alternativa para substituir a corrida, nem pensa substituí-la se for cancelada. O risco é evidente: se os pilotos não ficarem satisfeitos, podem boicotar a prova. E, como notou a Crash.net, uma corrida não se faz sem pilotos. Circula até o rumor, sem confirmação, de que o pelotão poderia ficar reduzido a cinco.
A contagem do voto (dois terços, ou 15 contra 5), as cartas do advogado e o rumor dos cinco pilotos vêm de relatos de segunda mão e não foram confirmados oficialmente. Os nomes da fação contrária à corrida (Álex Márquez, Quartararo e Rins) foram citados na GPOne, e Marc Márquez nega, pela voz de Tardozzi, ter recusado ir. As exigências concretas dos pilotos (evacuação, custos, seguros) vêm de fontes secundárias, sem lista oficial. A viagem de Carlos Ezpeleta a Doha está marcada para quarta-feira, 28 de outubro, e a Dorna diz que a corrida se faz, mas não há nenhuma garantia oficial publicada que satisfaça os pilotos.


O que está em jogo
O campeonato está tão apertado que cada fim de semana importa. Marc Márquez lidera por 10 pontos sobre Jorge Martin, com Bezzecchi a 50. Com Qatar, o primeiro título possível seria no dia 8, em Lusail; sem ele, tudo se adia para Portimão, a 22 de novembro, onde o título pode ficar decidido se o líder tiver 38 pontos ou mais de avanço. Cancelar o Qatar corta 37 pontos à mesa e muda a aritmética de todos.
E há ainda o precedente. A Liberty Media dirige também a Fórmula 1, que tem Qatar e Abu Dhabi no fim da época. O que a MotoGP decidir esta semana vai ser lido como um sinal.
No fundo, esta história é a de uma classe que tem pouca voz e que, pela primeira vez em muito tempo, decidiu usá-la em conjunto, com votos, advogado e cartas. Não é uma revolta de gente que não quer correr, é a de gente que quer saber se volta para casa. E isso, pelo menos, é uma pergunta a que alguém vai ter de responder.

Tags: ApriliaDucatiKTMLosailMotoGPpilotosQatarrecusaYamaha
Paulo Araújo

Paulo Araújo

Com uma experiência de várias décadas no âmbito do motociclismo, viajou pelo mundo cobrindo eventos nas duas rodas. Já foi piloto de velocidade, team manager, instrutor, jornalista e comentador de rádio e televisão, especializando nas modalidades de velocidade, em particular MotoGP, SBK e Endurance.

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