A MotoGP parece estar prestes a sofrer uma transformação após a chegada da Liberty Media. Não estamos a falar do novo regulamento técnico que entrará em vigor no próximo ano, mas sim das mudanças que poderão ser introduzidas para atrair mais público. O novo formato de qualificações para 2027 é um primeiro passo, mas parece haver outras novidades no horizonte. O receio dos adeptos e de muitos profissionais do setor é que o Campeonato do Mundo de MotoGP acabe por se tornar uma espécie de «cópia mal conseguida» da Fórmula 1. Paolo Pavesio, diretor-geral da Yamaha, considera, no entanto, que esta transformação representa uma oportunidade.
«Fui a Monza para assistir ao Grande Prémio de Itália e tive algumas conversas interessantes, incluindo duas com dois responsáveis de equipas de Fórmula 1», contou numa entrevista concedida ao Motorsport. «Fiquei muito impressionado ao perceber que, quando falas com alguém que trabalha na MotoGP, essa pessoa fala-te de desporto motorizado. Quando falas com alguém da F1 — neste caso, ambos eram engenheiros —, essa pessoa fala-te de negócios desenvolvidos através do desporto motorizado. Não é uma diferença pequena.»
Os negócios parecem nascer do desporto, mas, ao mesmo tempo, esta estratégia permite que o próprio desporto continue a existir.
«Se a Fórmula 1 não tivesse seguido esse caminho e não se tivesse tornado um negócio praticamente capaz de se sustentar por si próprio, perante uma crise da indústria automóvel como a que vivemos atualmente, provavelmente metade das equipas teria fechado há dez anos», refletiu o responsável da Yamaha. Ainda assim, Pavesio não acredita que a solução passe simplesmente por seguir o caminho da categoria das quatro rodas sem introduzir qualquer adaptação.
«A MotoGP é um desporto fantástico e não temos necessariamente de a transformar em algo extremamente sofisticado e ligado à moda», defendeu. «Temos de nos lembrar qual é o nosso lugar. Provavelmente, somos um desporto diferente da F1. O piloto tem um papel mais central, porque aqui os atletas fazem coisas diferentes, mais perigosas e mais extremas, mas também muito fascinantes. Se conseguirmos manter a MotoGP tal como é, contar melhor a sua história, promovê-la de forma mais eficaz e melhorar o negócio, não vejo qualquer problema nisso. Acredito que a Liberty Media, por ter conhecido a F1 por dentro e acompanhado a sua evolução, pode trazer valor acrescentado ao nosso desporto.»
Existe ainda outra diferença importante em relação à principal categoria do automobilismo.
«A grande diferença é que os principais investidores das corridas de motos são os próprios construtores. Se considerarmos o investimento total neste campeonato como 100, o investimento dos cinco fabricantes presentes na MotoGP representa 70. E por que razão o fazemos? Para vender motos», esclareceu.
«Por isso, temos de ter cuidado. Claro que ficaríamos satisfeitos se pudéssemos gastar um pouco menos, mas, na realidade, trata-se de um investimento. O importante é que o negócio continue a crescer.»
É, por isso, necessário olhar para o futuro sem ficar preso à nostalgia. E Pavesio sabe bem do que fala.
«No meu escritório tenho uma 500 de 2002, completamente despida: apenas o quadro, o motor, as rodas e os escapes. Podia ficar horas a olhar para ela, mas faz parte do passado e, provavelmente, gosto tanto dela porque tenho 54 anos. Desço ao piso inferior e encontro a moto de Agostini, com travões de tambor, que provavelmente diz ainda mais ao meu avô, porque pertence à época dele.
A evolução das coisas não deve assustar-nos, desde que a saibamos orientar com uma ideia e uma estratégia claras e partilhadas.»














