Ponto da situação após muitas discussões
Esta sexta-feira, 30 de outubro, o GP do Qatar de MotoGP continuava no calendário, mas o impasse ainda não está resolvido. A corrida está marcada para 8 de novembro, com atividade em pista de 6 a 8, e já vinha adiada desde abril por causa da guerra no Médio Oriente, decisão anunciada a 15 de março. Foi por isso que o GP de Portugal, em Portimão, passou para 22 de novembro e a final de Valência para 29.
Desde então, a tensão regional baixou em relação aos primeiros tempos do conflito, mas está longe de normal. O Qatar garante que a prova se faz em segurança, enquanto os governos da maioria dos países representados no paddock desaconselham viagens ao país, a não ser as estritamente necessárias. A isto junta-se, segundo o GPblog, a ameaça de novos ataques militares dos Estados Unidos ao Irão, a poucos dias da corrida.
O relógio aperta. Segundo a SoyMotor, assim que acabar a corrida da Malásia, no domingo, a caravana tem de seguir para Lusail, se o Grande Prémio se mantiver. Ou seja, a decisão final não pode esperar muito mais.

A posição da Dorna
A Dorna, hoje integrada no MotoGP Sports Entertainment Group, mantém que o GP do Qatar se faz, e não recua. Segundo os relatos de várias fontes, se a prova for cancelada, não será substituída, e o calendário desceria de 22 para 21 corridas. Nas semanas anteriores, Carlos Ezpeleta, diretor-adjunto, limitava-se a dizer que a organização acompanhava a situação de perto e que esperava ir ao Qatar.
Na quarta-feira, 28, Carlos Ezpeleta foi a Doha, para uma conferência e para avaliar a situação no terreno. Na quinta-feira, em Sepang, o promotor voltou a dizer aos pilotos que a instabilidade atual não chega para justificar o cancelamento, e que os preparativos continuam, ainda que não haja acordo sobre todas as garantias pedidas. Segundo o MotoGP, o próprio Carmelo Ezpeleta, diretor executivo, reafirmou a intenção de correr a 8 de novembro.
Há razões de peso por trás desta firmeza. O Qatar é um dos parceiros mais antigos e importantes do campeonato, e há quem sublinhe que um aviso de viagem dos governos não é uma proibição, pelo que não dá base de força maior para rescindir o contrato sem custos. Quanto a trocar de pista, Sepang foi apontada como hipótese, mas isso é dado como improvável, pelos constrangimentos do circuito.
O ponto de rutura é outro. Os pilotos querem que seja o promotor a assumir as garantias, e o promotor diz que isso não é viável. Em fundo, há a frase repetida da Dorna de que não tem contrato com os pilotos, mas com as equipas, usada para pôr de lado as queixas deles e salientando o facto de que não há uma entidade pela qual os pilotos possam falar a uma voz.

O que os pilotos pedem
Na quinta-feira do GP da Austrália, em Phillip Island, os pilotos reuniram-se por iniciativa própria, sem ninguém da organização. Segundo relatos da altura, a votação secreta terminou em 15 contra 5 a ir ao Qatar, e os pilotos recorreram a um advogado, que escreveu às equipas a dizer que não estavam prontos para correr.
Depois da carta, vieram as exigências, que os pilotos querem por escrito. Segundo vários sites, pedem um plano concreto de evacuação, um seguro que cubra os custos se o espaço aéreo do Qatar fechar, a garantia de que poderão sair do país em caso de emergência, e clareza sobre quem paga as viagens extra e a repatriação. Interessa-lhes menos a corrida em si do que a saída do país, se alguma coisa correr mal depois de a caravana lá estar.
O grupo não fala a uma só voz. Marc Márquez, perguntado em Phillip Island, limitou-se a dizer que não podiam dizer nada, e Marco Bezzecchi disse confiar na organização. Pecco Bagnaia mostrou-se hesitante, Fabio Quartararo não se disse preocupado e Jorge Martín quer correr. O diretor da Ducati, Davide Tardozzi, saiu em defesa de Márquez: não foi ele que não quis ir, pediu, como muitos, um plano de segurança, e quando houver evacuação e plano B, vai.
As equipas pesam também. A Ducati, a Yamaha e a Honda deverão opor-se, segundo relatos, e os contratos das equipas com o promotor obrigam-nas a participar em todos os GP. Ontem, sexta-feira, o GPOne contava que os pilotos fizeram uma nova reunião secreta em Sepang, nos escritórios da Yamaha, e que não consideram suficientes as garantias recebidas até agora. Ainda segundo o GPOne, a associação de pilotos não existe oficialmente, mas na prática já se formou.

Conclusão: realiza-se ou não?
A resposta final ainda não existe, e não vamos fingir que sim. Até à tarde de sexta-feira, 30 de outubro, o GP do Qatar não fora cancelado, nem existia acordo escrito entre pilotos e promotor. O que existe é uma organização que diz que se corre a 8 de novembro e um grupo de pilotos que ainda não aceitou as garantias que lhe deram.
Na nossa leitura, o mais provável é que a corrida se faça. Pesam a favor o contrato com o Qatar, a inexistência de prova de substituição, a obrigação contratual das equipas e o tom de resignação que se tem detetado nos pilotos. Pesa contra o risco que ninguém controla: como lembrava um analista citado pelo GPOne, a situação pode mudar num instante, e uma decisão de cancelar tenderia a vir dos organizadores no Qatar e não do promotor.
Três sinais vão dizer-nos mais do que qualquer declaração. Primeiro, se o promotor aceita pôr alguma coisa por escrito, mesmo que não assuma toda a responsabilidade. Segundo, se a caravana embarca para Lusail depois da corrida da Malásia, no domingo. Terceiro, o que acontecer com as ameaças entre os Estados Unidos e o Irão nos próximos dias.
Até lá, fica a certeza de que as relações entre promotor e pilotos estão tensas, e de que a decisão, venha ela como vier, vai deixar marcas. Atualizaremos este artigo quando houver desenvolvimentos.














