A grave queda de Jorge Martín na corrida Sprint de Phillip Island deixou o campeonato de pernas para o ar. Com o piloto madrileno a recuperar das dores provocadas pela fratura do rádio distal do pulso direito, o lendário médico Claudio Costa quis analisar a situação atual do piloto da Aprilia. Numa entrevista concedida ao GPone, o fundador da Clínica Mobile abordou os prazos reais de recuperação, a diferença crucial entre sofrer uma lesão no braço direito ou no esquerdo e o eterno debate sobre os riscos de um calendário com excesso de corridas.
Para o doutor Costa, o azar do piloto espanhol está diretamente relacionado com a zona afetada. Sendo o pulso direito, o controlo do acelerador e do travão dianteiro torna praticamente impossível qualquer tentativa realista de pilotar a curto prazo.
«O azar de Martín foi ter caído e sofrido uma lesão, concretamente ter fraturado o pulso direito. Se tivesse sido o esquerdo, tudo teria sido muito mais fácil», explicou Costa na conversa com o GPone. «Até teria conseguido fazê-lo no dia seguinte com a minha medicina antiquada e “herética”. Mas, com o direito, é impossível. Trabalhar com o travão e o acelerador é outra história, e é preciso esperar.»
Questionado sobre a possibilidade de Martín forçar o regresso na Malásia, o médico foi categórico: «Sem cirurgia e com o pulso direito lesionado, correr na Malásia é impossível, por muito que valha a pena tentar.» No entanto, o cenário poderá ser diferente na ronda seguinte: «No Qatar, sem dúvida, estaria numa situação em que o impossível pode tornar-se possível.»
O experiente médico recuou no tempo para recordar situações-limite semelhantes que já viveu com outros campeões, embora com diferenças anatómicas decisivas.
«Podemos recordar Kevin! Se Martín tivesse fraturado o pulso esquerdo, teria continuado na luta pelo Campeonato do Mundo», recordou Costa, evocando o exemplo de Kevin Schwantz em 1994, quando venceu em Donington depois de fraturar o pulso esquerdo.
«Ganhou nesse mesmo dia porque era o lado esquerdo. Adaptámos a forma como segurava no guiador e ele conseguiu pilotar. Mas, com o lado direito, como é necessário acionar constantemente o acelerador e o travão, é inviável.»
Para além da análise clínica à situação de Martín, o doutor Costa aproveitou a sua intervenção no GPone para refletir duramente sobre o atual modelo de competição e a evolução do campeonato.
«O acidente de Jorge Martín na corrida Sprint volta a colocar em cima da mesa questões muito importantes. A primeira é o aumento do número de acidentes devido à duplicação das partidas e das corridas», alertou o médico italiano.
Costa terminou com uma crítica à evolução do desporto: «A tecnologia evoluiu, sem dúvida, e ajuda-nos muito, mas corre o risco de nos retirar a liberdade. Este avanço tecnológico é um assassinato da humanidade e do pensamento livre.»















