A Yamaha fica em casa e os pilotos não cedem
Há semanas em que o paddock cheira a óleo quente e a pneus novos. Esta cheira a incerteza. A uma semana do Grande Prémio do Qatar, marcado para o próximo fim de semana, de 6 a 8 de novembro em Lusail, o Mundial de MotoGP vive uma das maiores disputas entre pilotos e promotor de que há memória recente. E hoje, logo após a corrida de Sepang, deu-se o passo que ninguém queria ver: a Yamaha anunciou que não vai.

A Yamaha sai de cena
A marca de Iwata invocou restrições de viagem a nível de toda a empresa, em vigor por causa do conflito no Médio Oriente. A decisão abrange a equipa oficial e a Pramac, o que deixa de fora quatro motos. Segundo o comunicado, a posição é independente das medidas tomadas pela MotoGP e pelo organizador do evento, e o regresso está previsto para o Grande Prémio de Portugal.
O comunicado completo da Yamaha Motor Co., Ltd. diz o seguinte: “Após a sua mais recente avaliação da situação no Médio Oriente, a Yamaha não identificou fundamentos suficientes para alterar as restrições de viagem que já estão em vigor em toda a empresa. Como resultado, a Yamaha informou o MotoGP Group sobre a sua decisão de não participar no Grande Prémio do Qatar de 2026. Esta decisão reflete a avaliação da Yamaha com base na informação atualmente disponível e é independente das medidas implementadas pelo MotoGP Group e pelo organizador do evento. A Yamaha mantém o seu compromisso integral com o MotoGP e aguarda com expectativa o regresso às competições no Grande Prémio de Portugal.”

O título de Moto2 está igualmente por decidir
A resposta do promotor, a Dorna, hoje integrada no MotoGP Sports Entertainment Group, não se fez esperar. Disse-se desiludido e lembrou que a decisão não reflete as garantias dadas a todos os intervenientes. Avisou ainda que, além das consequências contratuais com a MotoGP e a IRTA, a ausência da Yamaha tem implicações desportivas, a gerir pela FIM de acordo com o regulamento. Ou seja, quem pode punir é a federação, e o recado ficou dado.
O que a Dorna já concedeu
Os pilotos pediam três coisas concretas, escritas e assinadas: um plano de evacuação para todo o paddock, um seguro que cobrisse as despesas de um eventual encerramento do espaço aéreo do Qatar, e cobertura de repatriação num cenário extremo. Foi isto que levaram à reunião de Phillip Island e, depois, à de Sepang, onde se juntaram vários diretores de equipa.
Houve cedências, mas não todas. Soubemos que o Qatar assumiu provisões financeiras adicionais para acontecimentos fora do âmbito dos seguros existentes, e que foi garantido um plano de evacuação em caso de emergência. O problema é que ninguém conhece os pormenores desse plano. Pecco Bagnaia resumiu bem o ponto em que estamos: recebemos quase tudo o que pedimos, mas há coisas pendentes que nunca vamos receber. Falta sobretudo uma resposta à pergunta mais simples, a de saber quem responde, no fim, se algo correr mal. Os pilotos querem que seja o promotor. O promotor diz que isso não é viável.

E o coletivo de pilotos?
Não houve, até agora, um anúncio formal de boicote. O que houve foi uma carta, assinada pela esmagadora maioria da grelha (três pilotos ficaram de fora), a reafirmar a oposição à viagem e a exigir que seja a própria série a assumir os seguros e as garantias. Jack Miller foi o mais claro: disse que são 19 os que não querem ir e que, na sua cabeça, continua a não ir. Joan Mir deixou um comentário que diz tudo: se formos, não será por vontade nossa.
Do lado de Lusail, a mensagem é de que a corrida avança. A MotoGP diz ter consultado o Estado do Qatar, o circuito, assessores de segurança independentes e a sua própria avaliação de risco, sem nada que justifique mudar os planos. Fala em confirmação, por parte do resto da grelha, de que vai competir. A Honda, a Aprilia e a Ducati indicaram que viajam como previsto, e a KTM também. Nenhum piloto disse ainda, em nome do grupo, que não aparece.
Um final de época em suspenso
As equipas, essas, estão no meio da ponte. Têm contrato com os pilotos e têm contrato com o promotor, e quem assina por baixo sabe que uma ausência paga-se em dinheiro, em licenças ou em relações. Os pilotos sabem-no. Daí o tom de quem fala baixo e olha para o chão.
No campeonato, Marc Márquez venceu em Sepang e ficou com a mão em cima do título. Álex Márquez já anunciou que não vai ao Qatar por causa de uma cirurgia, e Jorge Martin e Raúl Fernández abandonaram a corrida malaia a meio do fim de semana. Chega-se a Lusail com uma grelha desfalcada, com a Moto2 em aberto e com um futuro incerto para a relação entre quem corre e quem manda.
Numa qualquer oficina de bairro, aprende-se cedo que há avarias que se anunciam com um ruído a mais, um cheiro diferente, uma folga que não devia estar ali. Ignorá-las dá sempre mais trabalho do que parar e abrir o motor. No paddock, neste momento, o ruído está à vista de todos. Falta saber quem tem coragem para pegar na ferramenta…
Seguimos o caso e voltaremos com novidades assim que houver decisão.














