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Moto3 – A Leopard e os 77 pontos de Adrián Fernández

Paulo Araújo por Paulo Araújo
24 Outubro, 2026
em Moto GP, Moto3, News
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Moto3 – A Leopard e os 77 pontos de Adrián Fernández

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Tribunal de Apelação da FIM inverte penalização do piloto da Honda Leopard

Há dias, a 15 de outubro de 2026, o Tribunal Internacional de Apelação da FIM anulou a desqualificação de Adrián Fernández das seis primeiras corridas do Mundial de Moto3 e deu razão à Leopard Racing. Fernández era terceiro do campeonato quando a penalização lhe caiu em cima, em junho, e passou desde então o resto da época a olhar para uma classificação que já não o reconhecia. Cinco meses depois, a justiça devolveu-lhe o que lhe tinha tirado: 77 pontos, de uma assentada.

A razão da penalização original
Tudo nasceu de uma rotina que raramente dá notícia. Depois do Grande Prémio de França, o fabricante do motor, a Honda, pediu à Leopard, como é norma, que retirasse os selos do primeiro grupo de motores de Fernández, que tinham chegado ao fim da vida útil. Num deles, o arame do selo não seguia o procedimento habitual de selagem. Com base nas conclusões do diretor técnico da FIM e no relatório oficial do construtor, concluiu-se que aquele motor tinha sido aberto sem autorização.
O regulamento é claro neste ponto: um motor com selos danificados, violados ou em falta presume-se reconstruído e conta como motor novo na distribuição de cada piloto, que em Moto3 tem direito a seis por época. Os comissários aplicaram também um artigo mais pesado, o 3.3.2.2, que condena atos corruptos ou fraudulentos, ou prejudiciais para o desporto.

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O primeiro motor, o número 810, rendeu a desqualificação das corridas da Tailândia, do Brasil, dos Estados Unidos e de Espanha. Depois de Mugello, a FIM pediu mais motores à equipa. A Honda verificou que tanto o arame como os autocolantes de um dos selos mostravam sinais de manipulação, e, aberto o motor sob a supervisão do diretor técnico, o construtor encontrou anomalias que indicavam que fora ajustado. Foi o motor 811, e custou a Fernández as corridas de França e da Catalunha. Dos pontos da época só lhe ficaram os 13 de Mugello, o que o fez cair do terceiro lugar, com 90 pontos, para o fundo do top 20. Foi uma sanção duplamente pesada, porque o castigo recaiu sobre o piloto, que não sabia de nada, quando a responsabilidade técnica era da equipa, como já então se notava. O colega de equipa, Guido Pini, não foi tocado.

Ferbández brilhou no incio do Campeonato

A decisão do tribunal
O comunicado do tribunal é parco em palavras e lembra uma sentença cortada à navalha: os recursos da Leopard e de Fernández foram aceites, estimados quanto ao mérito, e as duas decisões dos Comissários de Apelação da FIM ficaram anuladas. Cabe agora às autoridades desportivas tomar as medidas necessárias para cumprir a decisão. A equipa agradeceu aos peritos, às testemunhas e aos advogados, que, nas suas palavras, restituíram “a honra e a dignidade” da Leopard.
O que o tribunal não disse, por enquanto, é por quê. Só o acórdão fundamentado explicará se a anulação assentou na prova técnica, na cadeia de custódia dos selos, na interpretação do regulamento ou em questões de processo. Qualquer leitura antes disso é conjetura. E o caso ainda não está fechado: a Comissão Técnica da FIM pode recorrer no prazo de um mês, ou quatro semanas, consoante as fontes, o que deixa a decisão em suspenso até meados de novembro.

Os efeitos na classificação
O impacto é imediato e visível. Fernández estava em 14.º, com 71 pontos, e passa para 5.º, com 148, depois de lhe serem devolvidos os 77 pontos. Fica 41 pontos atrás de Álvaro Carpe, o quarto, e a cerca de 69 de David Almansa, o segundo. Felizmente, na frente, nada muda, ou a confusão seria ainda maior: Máximo Quiles já era campeão desde Mandalika, com 351 pontos, 132 à frente de Almansa.
O efeito dominó faz-se sentir mais atrás, porque os pilotos que acabaram atrás de Fernández nessas corridas perdem uma posição e, com ela, pontos. Marco Morelli, que seria 5.º com 146 pontos, passa a 6.º, e Veda Ega Pratama, o estreante indonésio, desce do 7.º para o 8.º lugar. Os pontos devolvidos a Fernández deverão também repercutir-se na classificação de equipas, em que a Leopard recupera terreno, e na de construtores, onde a Honda ganha pontos, embora as tabelas oficiais atualizadas não constassem das fontes consultadas.

Como ficamos
A Leopard sai desta história com a honra, para usar a palavra que a própria equipa escolheu, mas a reputação ficou riscada pelo caminho. A Crash.net notou que a decisão, se ninguém recorrer, vai levantar perguntas sérias sobre o processo de inspeção técnica e sobre a forma como foi tomada a decisão inicial. Para a Honda e para a FIM, que apoiaram a sanção, o acórdão fundamentado vai pesar mais do que o comunicado.
Quanto a Fernández, que correu sete meses com a sombra de uma desqualificação por cima da cabeça, o que lhe sobra é uma lição antiga das corridas: o que se perde numa tarde na secretaria pode levar meses a recuperar, e às vezes nem sequer volta. Ele teve sorte, ou melhor, teve bons advogados. Mas os selos, esses, continuam a ser a coisa mais frágil do paddock: bastam dois arames e um autocolante para desfazer uma época.

Tags: AdrianFernándezHondaLeopardPenalização
Paulo Araújo

Paulo Araújo

Com uma experiência de várias décadas no âmbito do motociclismo, viajou pelo mundo cobrindo eventos nas duas rodas. Já foi piloto de velocidade, team manager, instrutor, jornalista e comentador de rádio e televisão, especializando nas modalidades de velocidade, em particular MotoGP, SBK e Endurance.

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