Tribunal de Apelação da FIM inverte penalização do piloto da Honda Leopard

Há dias, a 15 de outubro de 2026, o Tribunal Internacional de Apelação da FIM anulou a desqualificação de Adrián Fernández das seis primeiras corridas do Mundial de Moto3 e deu razão à Leopard Racing. Fernández era terceiro do campeonato quando a penalização lhe caiu em cima, em junho, e passou desde então o resto da época a olhar para uma classificação que já não o reconhecia. Cinco meses depois, a justiça devolveu-lhe o que lhe tinha tirado: 77 pontos, de uma assentada.

A razão da penalização original
Tudo nasceu de uma rotina que raramente dá notícia. Depois do Grande Prémio de França, o fabricante do motor, a Honda, pediu à Leopard, como é norma, que retirasse os selos do primeiro grupo de motores de Fernández, que tinham chegado ao fim da vida útil. Num deles, o arame do selo não seguia o procedimento habitual de selagem. Com base nas conclusões do diretor técnico da FIM e no relatório oficial do construtor, concluiu-se que aquele motor tinha sido aberto sem autorização.
O regulamento é claro neste ponto: um motor com selos danificados, violados ou em falta presume-se reconstruído e conta como motor novo na distribuição de cada piloto, que em Moto3 tem direito a seis por época. Os comissários aplicaram também um artigo mais pesado, o 3.3.2.2, que condena atos corruptos ou fraudulentos, ou prejudiciais para o desporto.

O primeiro motor, o número 810, rendeu a desqualificação das corridas da Tailândia, do Brasil, dos Estados Unidos e de Espanha. Depois de Mugello, a FIM pediu mais motores à equipa. A Honda verificou que tanto o arame como os autocolantes de um dos selos mostravam sinais de manipulação, e, aberto o motor sob a supervisão do diretor técnico, o construtor encontrou anomalias que indicavam que fora ajustado. Foi o motor 811, e custou a Fernández as corridas de França e da Catalunha. Dos pontos da época só lhe ficaram os 13 de Mugello, o que o fez cair do terceiro lugar, com 90 pontos, para o fundo do top 20. Foi uma sanção duplamente pesada, porque o castigo recaiu sobre o piloto, que não sabia de nada, quando a responsabilidade técnica era da equipa, como já então se notava. O colega de equipa, Guido Pini, não foi tocado.

A decisão do tribunal
O comunicado do tribunal é parco em palavras e lembra uma sentença cortada à navalha: os recursos da Leopard e de Fernández foram aceites, estimados quanto ao mérito, e as duas decisões dos Comissários de Apelação da FIM ficaram anuladas. Cabe agora às autoridades desportivas tomar as medidas necessárias para cumprir a decisão. A equipa agradeceu aos peritos, às testemunhas e aos advogados, que, nas suas palavras, restituíram “a honra e a dignidade” da Leopard.
O que o tribunal não disse, por enquanto, é por quê. Só o acórdão fundamentado explicará se a anulação assentou na prova técnica, na cadeia de custódia dos selos, na interpretação do regulamento ou em questões de processo. Qualquer leitura antes disso é conjetura. E o caso ainda não está fechado: a Comissão Técnica da FIM pode recorrer no prazo de um mês, ou quatro semanas, consoante as fontes, o que deixa a decisão em suspenso até meados de novembro.

Os efeitos na classificação
O impacto é imediato e visível. Fernández estava em 14.º, com 71 pontos, e passa para 5.º, com 148, depois de lhe serem devolvidos os 77 pontos. Fica 41 pontos atrás de Álvaro Carpe, o quarto, e a cerca de 69 de David Almansa, o segundo. Felizmente, na frente, nada muda, ou a confusão seria ainda maior: Máximo Quiles já era campeão desde Mandalika, com 351 pontos, 132 à frente de Almansa.
O efeito dominó faz-se sentir mais atrás, porque os pilotos que acabaram atrás de Fernández nessas corridas perdem uma posição e, com ela, pontos. Marco Morelli, que seria 5.º com 146 pontos, passa a 6.º, e Veda Ega Pratama, o estreante indonésio, desce do 7.º para o 8.º lugar. Os pontos devolvidos a Fernández deverão também repercutir-se na classificação de equipas, em que a Leopard recupera terreno, e na de construtores, onde a Honda ganha pontos, embora as tabelas oficiais atualizadas não constassem das fontes consultadas.
Como ficamos
A Leopard sai desta história com a honra, para usar a palavra que a própria equipa escolheu, mas a reputação ficou riscada pelo caminho. A Crash.net notou que a decisão, se ninguém recorrer, vai levantar perguntas sérias sobre o processo de inspeção técnica e sobre a forma como foi tomada a decisão inicial. Para a Honda e para a FIM, que apoiaram a sanção, o acórdão fundamentado vai pesar mais do que o comunicado.
Quanto a Fernández, que correu sete meses com a sombra de uma desqualificação por cima da cabeça, o que lhe sobra é uma lição antiga das corridas: o que se perde numa tarde na secretaria pode levar meses a recuperar, e às vezes nem sequer volta. Ele teve sorte, ou melhor, teve bons advogados. Mas os selos, esses, continuam a ser a coisa mais frágil do paddock: bastam dois arames e um autocolante para desfazer uma época.

















