O primeiro Grande Prémio do ano marcou uma viragem ainda antes de 2027, quando tudo vai mudar

Olhando para sábado e o resultado da corrida Sprint, parecia que a corrida de abertura iria ser apenas uma metáfora para o que se previa da época: Márquez a dominar, e quem se atrevesse a desafiá-lo a pagar a ousadia com quedas ou a ser humilhado pela combinação de experiência e brilhante pilotagem do 8 vezes Campeão. Também mostrou que, com a era de Simon Crafar à frente do colégio de comissários, Márquez já não poderá empurrar os rivais impunemente.
O Domingo, com a corrida de fundo em que se jogam os verdadeiros pontos, trouxe uma história diferente: Pela primeira vez em 89 Grandes Prémios, uma Ducati não acabou no pódio, e aliás, nem sequer nos 5 primeiros.
Quando Marc Márquez amassou a jante traseira no corretor, perdendo pressão no pneu e abandonando, no fundo salvou-lhe a humilhação de acabar fora do pódio, pois a corrida já estava decidida com uma impecável exibição da Aprilia, que quase lhe trouxe o que seria um inédito pódio completo com Bezzecchi, Fernández e Martín.
Essa ambição foi contrariada pela não menos espetacular remontada de Pedro Acosta a caminho de segundo e da liderança do Campeonato, enquanto Bezzecchi confirmou uma vitória de bandeira a bandeira em que cedo deu conta do desafio de Marc Márquez para deixar bem claro quem era o dominador no dia.
O significante aqui, se não ficou bem claro, é que há outra marca europeia pronta a virar as sortes e dominar, pois Martin esteve brilhante, lutando pelo pódio, e até Ogura, apanhado na confusão do arranque e vindo de trás nas últimas curvas na Aprilia da Trackhouse, veio roubar o 5º lugar a DiGiannantonio, que tentava salvar um pouco de face à humilhação da Ducati, habituada nas últimas épocas a, não raro, ter 6 motos nos primeiros 8 lugares.
Para lá dos vencedores, houve outras conlusões inevitáveis: Primeiro, há pelo menos dois pilotos que excederam o seu tempo útil na classe e deviam, se calhar, ter perdido os seus lugares antes do nosso Miguel Oliveira: falo de Morbidelli e Viñales, ambos completamente acabados e afundados fora dos pontos até uma recuperação do Italo-brasileiro para 8º na fase final, e ainda mais expostos na sua insuficiência pelos seus próprios colegas de equipa: pelo lado da VR46, ’DiGia’ andou sempre nas primeiras duas filas para acabar 6º, melhorando o resultado pontuável na Sprint de 8º, e Acosta na KTM, claro, foi o homem do fim de semana sem qualquer dúvida, com vitória na Sprint e 2º no Grande Prémio, que lhe deu a liderança do Mundial por 7 pontos sobre Bezzecchi.
Segundo, as marcas japonesas estão a andar no limite das motos e não na capacidade dos pilotos, facilmente revelado quando acabam em sequência: Honda em 10º (Marini), 11º (Zarco) e 13º (Moreira) com Bastianini pelo meio, e a Yamaha fora dos pontos a maior parte da corrida, salva pelas saídas tardias dos irmãos Márquez para conseguir, em tandem perfeito, 14º (Quartararo), 15º (Rins), 17º (Razgatlıoğlu) e 18º Miller, ressalvando o facto significante que o turco bateu Miller na sua primeira corrida de fundo de MotoGP.
O que podemos esperar então do resto da época? Primeiro, Márquez vai continuar a ser o único dominador na Ducati, fortemente desafiado não por uma, mas por todas as Aprilia. Segundo, na lógica das coisas, o espanhol ainda vai vencer nalgumas pistas e amealhar pontos onde não puder vencer, enquanto o desafio montado pelos rivais se vai diluir entre 3 ou 4 pilotos, com Márquez a acabar campeão de novo mesmo assim.
Porém, desta, a Ducati saberá que não foi ela, mas sim Márquez, o vencedor, e que encerra a era das 1000 cc, não como dominadora, mas como a marca que foi suplantada no último ano da classe…














