Jack Miller protagonizou um duro desabafo no paddock de Sepang a propósito do Qatar. Numa altura em que a sua equipa, a Yamaha, acabou de oficializar a retirada do Grande Prémio do Qatar por razões de segurança, o piloto australiano não hesitou em assumir-se como porta-voz de toda a grelha. Sem qualquer pressão pessoal aos comandos da sua moto, uma vez que já sabe que não fará a viagem, o australiano natural de Townsville falou com uma frontalidade impressionante para defender a integridade dos seus colegas e de todos os elementos do paddock.
Sem recorrer aos habituais discursos diplomáticos, o australiano revelou que a rejeição desta ronda é unânime entre os protagonistas do campeonato.
«Eu não quero ir. E penso que é essa a posição de todos. Somos 19 a não querer ir. Não acho que devêssemos correr nestas condições e fomos muito claros quanto à nossa posição. Vamos ver qual será a decisão, mas penso que nós, pilotos, nos mantivemos unidos e fizemos tudo o que estava ao nosso alcance, utilizando todos os meios disponíveis. E não apenas por nós, mas também por todos os outros intervenientes no campeonato. Se falarem com metade das pessoas do paddock, vão perceber que ninguém quer ir. E, sinceramente, não compreendo porque razão deveríamos ir», afirmou, citado pelo GPOne.
Consciente da realidade geopolítica que envolve o circuito de Losail, o piloto alertou para a exposição mediática e para o potencial risco que um evento desportivo desta dimensão pode representar.
«Compreendo que a situação no Qatar seja atualmente segura. E gosto muito do Qatar. Mas o problema são os países vizinhos. Infelizmente, eles estão lá, não podemos fazer nada quanto a isso e continua a existir muita incerteza. Estamos a falar da organização de um evento mundial. É impossível escondermo-nos: toda a gente sabe exatamente onde estaremos e a que horas. Não podemos, certamente, manter a nossa localização em segredo. E se alguém quiser aproveitar-se disso para enviar uma mensagem ou fazer algo desse género? Como já disse, não quero ir. E, neste momento, a decisão está tomada: não vou. Fizemos ouvir a nossa voz de forma muito simples e clara», afirmou Miller.
Ao questionar diretamente as entidades responsáveis sobre os riscos impostos aos profissionais do paddock, o australiano colocou em causa a eficácia de eventuais compensações exclusivamente financeiras.
«As garantias são um aspeto importante. Foi uma das nossas exigências, mas, para nós, pilotos, o mais importante era a responsabilidade. Se alguém nos quer enviar para lá, tem de existir alguém disposto a assumir essa responsabilidade. E temos de saber exatamente quem é. Não me parece que seja um pedido descabido. A cobertura do seguro é uma coisa e o facto de ser assegurada diretamente pelo Estado do Qatar representa, certamente, uma garantia importante. Não apenas para nós, pilotos, mas também para todas as pessoas que trabalham no paddock. Mas isso só entra em jogo depois de acontecer um incidente», concluiu.













