As lesões que estão a dizimar a grelha de partida da MotoGP este ano deram a Cal Crutchlow a oportunidade de regressar ao campeonato pela primeira vez desde 2023. Chamado para substituir Johann Zarco aos comandos da Honda RC213V da equipa LCR, entre o Grande Prémio de Itália, em Mugello, e o de Silverstone, o piloto britânico pôde confrontar-se com uma realidade muito diferente daquela que tinha deixado.
«As motos não mudaram assim tanto, mas considero que o nível geral subiu. Também penso que os pneus fazem uma grande diferença. É por isso que é difícil: agora, todos podem andar no limite durante toda a corrida, já não precisam de gerir a prova como antes. Entre 2016 e 2019, tínhamos de gerir muito mais os pneus: alguns pilotos atacavam, outros abrandavam, uns passavam ao ataque e outros não. Por isso, havia ultrapassagens constantemente. Com os pneus atuais, é mais complicado lutar roda com roda e ultrapassar», observou Cal, segundo o site https://www.gpone.com sobre as diferenças que encontrou no seu regresso.
«As motos são mais complicadas devido à carga aerodinâmica, mas isso acontece com todos. Penso que é a combinação entre a aerodinâmica e os pneus que explica porque é que as corridas já não são como antigamente», acrescentou. «Não acho que os pilotos atuais sejam melhores do que os da minha época, mas considero que a forma de pilotar é muito diferente.»
O nível da grelha também parece estar mais equilibrado do que há alguns anos.
«Sim, penso que os pilotos estão todos ao mesmo nível neste momento», afirmou o britânico, de 40 anos. «Antes, entre cerca de 15 pilotos, havia cinco muito fortes, depois um grupo intermédio e outros mais atrás. Agora, parece que estão todos ao mesmo nível. Excluo Marc Márquez, que, na minha opinião, é um caso à parte.»
O talento de Pedro Acosta também não passou despercebido a Crutchlow.
«Gosto de Pedro por duas razões: ataca sempre no limite e está a fazer um excelente trabalho com a KTM. Está a conseguir algo incrível, porque é sempre o melhor entre todos os pilotos da KTM, mas não teve um colega de equipa particularmente forte na MotoGP. Por isso, ainda não conhecemos totalmente o seu verdadeiro nível.
Obviamente, é um talento extraordinário, mas também gosto dele porque tem personalidade. Gosta de estar aqui, adora correr e é divertido. É disso que a MotoGP, o desporto e os construtores precisam. Penso que tem todas as condições para se tornar um grande piloto e estou ansioso por vê-lo em ação.»
O piloto britânico considera, aliás, que faltam pilotos com uma personalidade forte na MotoGP atual.
«Como disse anteriormente, penso que hoje estão todos ao mesmo nível e que também se comportam de forma semelhante fora da pista. Dizem-te aquilo que queres ouvir e tudo o que os construtores lhes mandam dizer. Na minha opinião, são um pouco robóticos: precisamos de personalidades fortes», comentou Cal.
«Os pilotos são demasiado amigáveis uns com os outros e não existe uma verdadeira rivalidade. Todos os italianos são semelhantes entre si, tal como os espanhóis. Por isso, é fantástico ver alguém diferente, que foge aos padrões.
A MotoGP atual é assim, mas penso que está a fazer um excelente trabalho em termos de tecnologia, comunicação e acesso aos adeptos. Para os pilotos, é uma enorme dor de cabeça. Sei que estão no limite, mas também é preciso perceber que isto é um negócio, um desporto e um espetáculo. Nesse sentido, considero que a MotoGP e a Liberty Media, enquanto empresa, estão a fazer um bom trabalho. Os pilotos sabem aquilo que os espera quando assinam os contratos.»
Os compromissos promocionais e as atividades com os meios de comunicação social não são, contudo, os únicos aspetos que dificultam a vida aos pilotos, que enfrentam um calendário exigente, com 44 corridas no total. Perante este cenário, será a estratégia certa pensar mais nos pontos do que em vencer a qualquer custo, como faz Marc Márquez?
«Sim, mas Marc já não assume os mesmos riscos que assumia antigamente. É o piloto mais inteligente da grelha e não posso dizer se está a tomar uma decisão certa ou errada, porque, como referi, o nível é completamente diferente. Penso que sabe quando deve atacar e assumir mais riscos», observou.
«Temos de nos lembrar de que já sofreu uma lesão este ano, foi submetido a uma cirurgia e falhou algumas corridas. Ainda tem vários anos de carreira pela frente, por isso não acho que precise de arriscar tanto como fazia no passado. Até porque considero que hoje é mais inteligente nesse aspeto.»
Falando de lesões, o número está a tornar-se cada vez mais preocupante.
«Este é o negócio do entretenimento e concordo totalmente com essa questão, mas o espetáculo tem de continuar. Gosto do espetáculo, vejo as corridas em casa e gosto de acompanhar as provas. Divirto-me quando as vejo. Como disse anteriormente, os pilotos sabem ao que se expõem. Se não querem fazê-lo, também podem ficar em casa a ver as corridas na televisão», afirmou Crutchlow, sem rodeios.
O britânico admitiu ainda, entre risos, que está a considerar regressar à competição de uma forma bastante particular.
«Estou a pensar em regressar, procurando todos os construtores que tenham um piloto impossibilitado de correr, para poder experimentar todas as motos. Seria o emprego de sonho, porque poderia pilotar uma moto numa semana e outra diferente na semana seguinte.»
Crutchlow também não esconde o interesse em experimentar as novas motos de 850 cc, que chegarão à MotoGP em 2027.
«Claro que sim! As pessoas perguntam-me porque voltei e vejo comentários a dizer que é estúpido ter-me a mim na pista e que deveriam ter dado a moto a um jovem. Se quisessem um piloto jovem, teriam chamado um. Chamaram-me a mim porque queriam que fosse eu a pilotar a moto. Por isso, porque haveria de recusar? É uma oportunidade fantástica.»
















