Perfil do mais recordista Campeão Mundial de SBK de sempre

Em 2007, numa pista de minimotos algures em Itália, um miúdo de oito anos cortou a meta em último. Naquele tempo, ainda se dava medalha a quem chegava na cauda, mas isso não o consolou, ainda o entristeceu mais.
Chorou ao ver os três primeiros no pódio com os troféus na mão e perguntou ao pai, entre soluços, se alguma vez conseguiria ganhar um. O pai, Davide Bulega, ele próprio um antigo piloto do mundial de 250 dos anos 90, respondeu que sim, sem fazer a menor ideia do que o futuro lhe reservava. Dezanove anos depois, esse miúdo ganhou 32 das 36 corridas de uma época de Mundial de Superbike, mais do que qualquer outro piloto na história da categoria.

Uma casa de motores
Nicolò Jarod Bulega nasceu a 16 de outubro de 1999 em Montecchio Emilia, na província de Reggio Emilia, de uma mãe alemã, Nathalie Carlini, que escolheu o seu segundo nome, e de um pai que já respirava gasolina. Cresceu em Taneto, uma aldeia do mesmo concelho, e mudou-se para Riccione em 2007, o ano da primeira corrida.
Dos dois lados da família havia motores. O avô Bruno fundou a Scuderia Lightspeed. Davide começou a correr aos dezoito anos, o que na altura já se considerava tarde, ganhou a Sport Production logo no primeiro ano, passou pela Gilera e pela Cagiva, e foi campeão europeu de 250 em 1997, chegando a ser 10º na passagem do Mundial de 250 por Imola em 1996. Deixou de correr quando o filho nasceu, mas ficou com a equipa.

Segundo o próprio Davide, Nicolò andou de kart aos três anos e de minimoto aos quatro. Foi o avô quem insistiu, vezes sem conta, que o pai olhasse para a forma como o rapaz conduzia, e Davide, ainda sem reparar em nada, respondia que o miúdo não fazia coisa nenhuma. O avô respondia-lhe que ele não percebia de nada, e que aquele rapazinho ia ser campeão.
Depois do último lugar de 2007, a história inverteu-se. Ganhou o título italiano e o europeu de MiniGP em 2010 e 2011, ao lado de um tal Luca Marini, o italiano de PreGP 125 em 2012, e o de PreGP 250 em 2013.

Davide recorda, com humor, que ficou preso num túnel: punha-o em MiniGP e ele ganhava, punha-o em PreGP e ganhava, punha-o em Moto3 e andava depressa, e quando se entra naquele túnel já não se volta atrás e passa-se a fazer o papel de maluco. Aos doze anos, o nome de Nicolò chegou aos ouvidos de Valentino Rossi: a equipa do ídolo telefonou ao pai de Bulega a perguntar o que o filho ia fazer depois das aulas, porque o Doutor queria conhecê-lo. Foi dos primeiros a entrar na VR46 Riders Academy e chegou a treinar com Rossi, no ginásio e no Ranch.
O próximo Valentino Rossi
Não há rótulo mais pesado no motociclismo italiano. Em 2015, com dezasseis anos, Bulega foi campeão do Mundial Júnior de Moto3 do CEV, estreou-se no Moto3 em Valência, em novembro, e foi apresentado como o “próximo Rossi”. Em 2016, já com a Sky Racing Team VR46, subiu ao pódio em Jerez, em segundo, tendo partido da pole, e acabou o ano em sétimo, com 129 pontos. Em 2017 foi 12.º e em 2018 caiu para 26.º. Passou para o Moto2, ainda com a VR46, onde o melhor resultado de 2019 foi um 17.º lugar. Em 2020 foi para a Gresini e acabou em 20.º, em 2021 acabou em 26.º, e no fim do ano a Gresini já não o queria.
Bulega contou depois como foi esse bater no fundo. Perdeu a vontade, perdeu o gozo de correr, e chegou a viajar convencido de que ia correr mal, o que, resumiu, faz perder meio segundo antes de a corrida começar. Em declarações ao Corriere della Sera, disse que arranjava “qualquer desculpa para não sair” de casa. Pensou a sério em deixar as motos, e não era só uma figura de estilo: quem sai do desporto sem ter ganho precisa de arranjar outro trabalho.

O degrau que não queria subir
A salvação veio disfarçada de passo atrás. A Ducati ofereceu-lhe um lugar no Mundial de Supersport, uma categoria menos nobre, e ele não gostou nada: no início não queria aceitar, parecia-lhe um recuo demasiado grande. O empresário, Alberto Martinelli, empurrou-o, porque um título ali abriria a porta das Superbike. Ao lado dele esteve também Camilla, a companheira de quase oito anos, que nunca o deixou sozinho um único dia.
Em 2022, na estreia da Aruba.it Racing nas Supersport, fez nove pódios, mas não ganhou. Em 2023 explodiu: 16 vitórias, 21 pódios, campeão do mundo, a chorar mais uma vez, mas desta de alegria.
Mais tarde, resumiu o que aquilo lhe fez, dizendo que, quando ganhou o título de Supersport, começou “a acreditar em mim outra vez”. Serafino Foti, o diretor da equipa, está com ele desde essa estreia em 2022.

‘Bulegas’
Em 2024, na primeira corrida de Superbike da vida, em Phillip Island, ganhou. A época foi mais difícil do que isso fazia prever, porque Toprak Razgatlıoğlu venceu 18 das 36 corridas e sobraram seis para Bulega. Em 2025 dobrou as vitórias, para 14, e perdeu o título por 13 pontos, numa final em Jerez marcada por uma colisão polémica com o turco na primeira volta.
Em 2026, sem Razgatlıoğlu e com uma Panigale V4 R nova, ninguém lhe ficou perto. Ganhou as primeiras 12 rondas, 21 corridas seguidas, e com as quatro do fim de 2025 chegou às 25 vitórias consecutivas.
Foi campeão em Cremona, em casa, com seis corridas por disputar, celebrou com um fato dourado, e chorou antes e depois de abraçar o pai. Acabou com 32 vitórias, 36 pódios (o recorde anterior era de 34), 726 pontos, o primeiro piloto de sempre acima dos 700, e 52 vitórias na carreira, as mesmas de Troy Bayliss – que no entanto as conseguiu ao longo de 8 anos.
É o primeiro piloto a conseguir ser campeão do mundo de Supersport e de Superbike, o segundo italiano campeão depois de Max Biaggi… e, incidentalmente, a Ducati não ganhava o título de pilotos desde 2023.
Gigi Dall’Igna, diretor-geral da Ducati Corse, disse que era impossível fazer melhor. O diretor da equipa, Cecconi, confessou que esperava uma boa época, mas não uma superioridade daquelas, e que mesmo nos circuitos onde Bulega antes sofria, desta foi perfeito. Phillip Island é um dos seus traçados favoritos, mas isso já não surpreendia ninguém.

O que o move e o que lhe pesa
Bulega não é conhecido pela sua conversa. É tido por homem de poucas palavras, e só chora quando já ninguém duvida que pode. Chorou em Cremona e, já em Jerez, na última corrida de Superbike, disse que chorou durante as três primeiras voltas.
O que o move parece simples: de criança, andava pelo paddock a ver os ídolos, nomes como Bayliss, Haga, Corser, porque o pai tinha uma equipa de Supersport. O que o pesa é mais discreto. Confessou que o medo de falhar está sempre lá, e que aprendeu que o importante é deitar-se à noite com a consciência tranquila, ganhe ou perca. Sobre o que o irrita, as fontes são parcas, e o mais perto que se chega é do que o fez sofrer: o recuo para as Supersport, a pressão do rótulo de “novo Rossi”, os anos em que já não se divertia. Raramente deixa ver a sua ira em público.

Em 2027, o MotoGP
Para o ano, Bulega muda-se para o MotoGP, na Pertamina Enduro VR46 (uma espécie de regresso ao círculo de Valentino Rossi, dono da equipa) ao lado de Fermín Aldeguer, numa Ducati com pneus Pirelli e regulamento novo de 850 centímetros cúbicos.
Já em 2025 tinha substituído Marc Márquez nas duas últimas corridas da época, e em 2026 foi piloto de testes da Ducati. Davide Tardozzi, o diretor da Ducati Lenovo, disse que ele “será o homem que vai desenvolver a moto”. Antes disso, já o descrevia como alguém “em quem estamos a pensar para o futuro”. Foti, por seu lado, diz ter orgulho em “trazê-lo de volta ao paddock do MotoGP”.
Bulega admitiu que teve uma opção concreta na KTM, mas que sempre quis ficar com a Ducati. Do que vem aí, diz que não quer fixar objetivos para já. O pai, que escreveu uma carta a lembrar que aprendera a dar não um, nem dois, mas cinco passos atrás para deixar o filho brilhar, vê nisto um regresso a casa, porque a equipa que o lançou, e que o dispensou, é a mesma que agora o recebe.
No fundo, a carreira de Nicolò Bulega parece uma pista com curvas dos dois lados. Chegar último, aos oito anos, não decidiu nada, e chegar à frente, aos vinte e seis, também não decide o que vem a seguir. Aprende-se mais a levantar-se para tentar de novo do que a ganhar, e quem chora no pódio como chorou na cauda do pelotão sabe-o melhor do que ninguém…
















