Uccio Salucci está ao lado de Valentino Rossi há mais de três décadas. De amigo inseparável, tornou-se uma das pessoas de maior confiança do nove vezes campeão do mundo e, atualmente, lidera a equipa Pertamina Enduro VR46 Racing Team no MotoGP. Numa entrevista ao meio italiano MotoSprint, o italiano recordou a evolução da estrutura da equipa, relembrou alguns dos momentos mais marcantes da carreira de Rossi e explicou como são tomadas as decisões dentro da VR46.
Salucci explicou que a atual organização da VR46 nasceu diretamente de tudo o que foi aprendido ao longo dos anos ao lado de Valentino Rossi:
«Quando estávamos com o Vale, estruturas como esta não existiam. Toda a gente estava espalhada e era preciso estar constantemente ao telefone. Quando decidimos criar a equipa, queria que todos estivéssemos próximos, com os pilotos, os escritórios e uma sala de reuniões. Antes, as reuniões eram feitas dentro da box, com dez ou vinte pessoas, e não era o local adequado.»
Para Uccio, não se trata de luxo, mas sim de uma ferramenta para melhorar o desempenho de todos:
«Tudo está pensado para que as pessoas trabalhem melhor. Parece um luxo, mas na realidade serve para trabalhar mais e melhor.»
Essa filosofia também se estende à hospitalidade da equipa, onde o tradicional buffet foi substituído por um serviço de refeições à mesa:
«Pensei sobretudo nos mecânicos, que trabalham doze horas por dia e têm apenas meia hora para almoçar. Chegavam e a massa já estava passada. Pedi ao nosso chef que preparasse um menu com dois pratos de entrada e dois pratos principais para que tudo estivesse pronto quando chegassem. Também é importante para os nossos patrocinadores. Se alguém investe muito dinheiro e depois come mal, não fica com uma boa impressão. E que melhor cartão de visita tem Itália do que a sua gastronomia?»
Sobre a escolha dos pilotos da equipa, Salucci deixou claro que não existe uma única pessoa responsável pela decisão:
«Decidimos em conjunto. Analisamos tudo o que temos em cima da mesa e avaliamos muitos aspetos: o carácter do piloto, a sua velocidade, a experiência, o passado ou a idade. Há muitos fatores antes de tomarmos uma decisão.»
Um dos momentos mais especiais para Uccio foi a mudança da Honda para a Yamaha em 2004, uma aposta que muitos consideravam impossível:
«Não esperávamos um ano assim. Lembro-me perfeitamente do primeiro teste na Malásia. O Valentino desceu da moto e disse-me: ‘Isto pode resultar’. Depois falou com os engenheiros e explicou-lhes que a moto funcionava bem, embora precisasse de uma melhor ligação com o acelerador. Disse-lhes que, se conseguissem melhorar isso, podiam divertir-se. E foi exatamente o que aconteceu. Talvez tenha sido o ano mais importante de todos.»
Mesmo antes do início da temporada, Rossi já tinha um objetivo muito claro:
«Na África do Sul havia apenas uma missão: fazer história ao vencer a primeira corrida com a Yamaha. Ele estava completamente convencido disso.»
Ao recordar as vitórias mais emblemáticas de Rossi, Uccio escolheu Laguna Seca 2008 acima de outras corridas históricas, como África do Sul 2004 ou Barcelona 2009:
«Foi uma das corridas mais importantes. Se ganhássemos, podíamos lutar pelo título; se o Stoner nos derrotasse, o campeonato ficaria praticamente do lado dele.»
Salucci revelou ainda que insistiu bastante com Rossi sobre a forma como deveria abordar o duelo com o australiano:
«Disse-lhe que era preciso incomodar o Stoner, quebrar-lhe o ritmo, porque quando ele encontrava a sua velocidade era impossível acompanhá-lo. Da box conseguia ver que ele estava realmente a tentar, travando muito tarde e procurando colocá-lo desconfortável. Aquela vitória deu-lhe ainda mais confiança para conquistar o campeonato.»
Salucci revelou também qual era a última troca de palavras com Valentino Rossi antes de cada corrida:
«Na grelha perguntava-me quais eram os pneus que os outros estavam a usar e pouco mais. Eu dizia-lhe sempre: ‘Vamos divertir-nos’. Ele ria-se e respondia: ‘Sim, claro, é fácil para ti que ficas na box; eu é que tenho de ir lá para fora’. Mas era a frase certa. E a verdade é que nos divertimos imenso.»
















