Andava o calendário pelas décadas de sessenta e de setenta do século que já virou e se nos quiséssemos inteirar das últimas do motociclismo haveria um nome que era néon em noite escura, que se veria com brilho, tamanho e glamour tais que haveríamos até de pensar que era o dono do pedaço.
E era.
Essa é que é essa, era-o de tal modo que até estrangeiros, que é como quem diz gente de outras lides, malta da bola, dos toiros, do fado ou do rock, até esses lhe tirariam respeitosamente o chapéu, sabendo-se em presença de sumidade unânime, emocionando-se perante o olhar divino de humano incomparável, por menos que lhe soubessem a origem para insólita devoção, mas reconhecendo inequivocamente as sílabas de inconfundível melodia, uma ode à omnipresença:
A-GOS-TI-NI.
Giacomo era possuidor de uma infinitude que lhe voava o nome para fora dos circuitos onde acelerava adrenalina de rara beleza, varria aldeias, cidades e países, morava em apaixonados debates de mesas de café, era admirado e aquiescido por miúdos e graúdos, curvemo-nos então perante a mais alta condecoração, a glória das glórias, o nome de Giacomo ecoava nos páteos da escola onde meninos escolhiam seus deuses.
Saltando no calendário e deslocando-nos na geografia, posso com facilidade apontar outro eleito, também ele oriundo das duas rodas, mas tão diferente em tudo o resto que poderíamos até julgar serem oriundos de planetas diferentes.
E, no entanto, ambos senhores feudais em sua significância.
Eles eram o atleta, a essência, eram em si o desporto que os fazia gente do mundo.
Jaquim Agostinho, e Joaquim vai sem o ‘a’ porque assim foi grafado na cadeira da eternidade.
Quem circulou pelas estradas de Portugal, num Portugal ainda a preto e branco, lento e sinuoso, sabe que a cada ultrapassagem a um ciclista se abria a janela do carro e se saudava o ultrapassado com um sentido ‘ah ganda Jaquim Agostinho’ assim transmitindo admiração por quem pedalava vida fora, aquela saudação era abraço solidário, era coisa amiga.
De Casalinhos de Alfaiate a Alpe d’Huez, passando por Cangas de Oniz, ah mas que grande homem nos saíste.
Agostinho, Agostini, a vida brincando-nos numa poética fonia, oferece-nos tão desiguais e gémeos heróis.
Foram eles acompanhados por outros que tal, na vasta parede que ostenta as telas com imagens de mui invulgares cidadãos de um planeta chamado Terra, que da lei da morte se vão libertando, como escrevia Luiz Vaz em seus dias de pena na mão.
Viria um Cassius, mais tarde Muhammad.
Pairava em mil corações, em tempos anteriores, um Juan Manuel, señor Fangio de disparada e impossível velocidade.
Não raro estas divindades abriam espaço e recebiam com abraço fraterno seus pares de mètier.
Valentino sentando-se em espaço de Giacomo, Ayrton Senna personificando a mais bela Fórmula Um alguma vez vista, abeirando-se íntimo divino do argentino voador.
Eddy Merckx, outro monstro timbroso dividindo atenções astrais com o nosso homem de Brejenjas.
Vai a crónica já boa de parágrafos e perguntam-se por certo, mas porque nos fala ele destas coisas?
Porque sim, porque preciso.
De relembrar o quanto dividíamos o tempo e os sonhos com estes homens que fazíamos nossos, dando-lhes dias das nossas semanas, fazendo deles e para eles boa parte das semanas das nossas vidas, pregando-os em posters que enfeitiçavam as paredes dos nossos quartos, as molduras de nossos escritórios.
Página central, revista Volante. O poster.
Dá saudades isto …
I love you baby … poderíamos cantar a todos eles, como se nós também nos despedíssemos em vésperas de partir para uma guerra num qualquer nosso Vietname, I wanna hold you so much …
O esquecimento é uma guerra.
Perdida.
Andamos hoje em roda viva, Oliveira traz nova esperança de juntos sabermos saborear, juntos darmos tempo ao tempo, dividirmos uma manhã de treinos com um amigo e dela fazer réplica de infinitas tardes em tempo de liceu.
Oliveira estende-nos essa passadeira de vivências inquietas.
Felizes, de uma sensibilidade quase mágica, certamente única.
Com quem assistem às corridas?
Não andará por ali parte da vossa juventude, não esfregarão as mãos de ansiedade como em tanta noite sentados nos muros sonhando ser parte de um poster?
Tragam gente, busquem nas kodak´s reveladas em formato dez por dez as caras que convosco gritaram Agostini e Senna, Agostinho e Muhammad.
E ganhando Miguel como em Portimão ou em Estíria, saindo Miguel num destroço de tristeza como em Jerez, não tenham vergonha e cantem.
Ou escutem a melodia da vida.
Como viver pode ser comovente … queiramos acreditar.
E façamos como na canção, repliquemos Ana Carolina, nesse indescritível dueto com Seu Jorge, aplaquemos valente soco de verdade, arrisquemos querer mais e cantemos … não consigo parar de te olhar, não vou parar de te olhar, não me canso de olhar …
Lida que vai quase meia crónica, terão já percebido que hoje o assunto não são motas, aliás o assunto nunca foram as motas pois se assim fosse teria de me quedar mudo nas palavras, porque delas, dessas máquinas, nada sei, hoje versamos pessoas, antigas e universais, umas, humildes, simples e aos milhões, outras, carismáticas que descobriram o caminho que nos amolece e nos leva de volta ao irrepetível tempo de sermos crianças, outras ainda.
Giacomo, Valentino, Jaquim, Mike, Steven, Carolina e Jorge, já viram o que para aqui vai?
Juntem-lhe o vosso nome, o nosso nome, o nome dos nossos.
Onde foi que parámos de querer ser?
Onde perdemos nós aquelas paredes com fotografias da vida em versão de gente gigante?
Perdoem-me a fraqueza, ganhem paciência e deixem-me confessar-vos uma coisa, um despiste que me ensinaria quão sinuoso é o circuito onde aceleramos nas curvas da vida … tinha dezassete anos quando saí de casa para ir ao cinema ver um filme do qual sabia apenas o título .. ‘0 Caçador’ … e de lá vim assoberbado com o poder da amizade, da solidão, da incerteza de um abraço de despedida, foi como aprender todo um circuito caindo em cada curva, para me levantar, acelerar e tentar compreender o que era um ponto de travagem.
Talvez por isso, não faço ideia, talvez por isso, quando me sento a torcer por uma certa KTM me recorde de tantas tardes em que buscando heróis para a minha vitrine, ia acompanhado do mais forte e por vezes efémero exército, os amigos.
E tu, com quem vias Senna e Agostini?
Por onde semeaste pedaços de tardes tuas?… de abraços de vitória divididos com choros de duras derrotas, quanto te custa adormecer quando revês a meta que não se cortou em primeiro?… quantas vezes cantas ‘I wanna hold you so much’?… sorrindo ao exacto momento em que de rapaz te fizeste homem grande?
Talvez seja hora, não faço ideia, mas não me surpreenderia de todo, talvez seja hora de voltar atrás na velocidade do tempo, de o dividir com os nossos num relógio um pouquinho mais demorado, aproveitando treinos livres e cronometrados, corridas e todas as suas equações.
E tu, quem te acompanha a seguir o Falcão?
Talvez seja hora, quem sabe, talvez seja hora de perceber a velocidade do tempo.
Devagar.
Como ele era!













