Comentário: Prós e contras do domínio de Bautista

Por a 9 Junho 2019 17:15

Então Bautista ganhou mais duas vezes este fim-de-semana em Jerez, antes de uma inédita queda, elevando o seu total no começo desta época para 13 corridas ganhas… várias, com recordes da volta. O próprio recorde de vitórias no começo de uma época é notável, com as 13 vitórias de 16 corridas de Bautista até Jerez a eclipsar as 11 de 14 de Bayliss em 2002 ou de Neil Hodgson em 2003.

Até em termos do número de vitórias total numa época, e apenas a meio do campeonato, Bautista já se aproxima das marcas de referência: 17 de Doug Polen em 1991, igualadas por Rea o ano passado, estão certamente ao alcance do piloto de Talavera quando ainda há 22 corridas por disputar.

É uma marca excecional, fruto de uma combinação de circunstâncias igualmente excecional:

Um ano em que se disputam 3 corridas por prova decerto tem algo a ver com o total amealhado pelo Espanhol, mas não justifica de modo algum o seu domínio das séries.

Bautista é um piloto de inegável talento, um Campeão Mundial das antigas 250, algo esquecido numa MotoGP tão competitiva e com tão poucos lugares em equipas capazes de lutar pela vitória, que para um olho menos treinado, piloto perfeitamente capazes podem ser descontados como estando acabados.

O ingresso na equipa da Ducati Aruba veio dar a Bautista uma nova vida, o gosto da vitória que agora readquiriu a provar-se uma força mais motivadora que os inevitáveis cheques chorudos da Ducati que decerto acompanham cada nova incursão ao pódio.

Para a marca de Bolonha, até aqui algo entalada perante o domínio de Rea na Kawasaki e uma escolha de pilotos incapazes de lhe fazer frente mais do que pontualmente, a estratégia de trazer um piloto da MotoGP compensou e funcionou em tantos níveis que orça o genial:

Primeiro, trouxe um piloto que estava perfeitamente habituado ao motor V4 da Ducati, mas na versão certamente muito mais feroz da MotoGP, em que tirar o máximo da Panigale e levá-la aos limites a partir do zero foi coisa simples.

Depois, instalou um binómio piloto/moto vencedor na classe logo da primeira corrida, coisa que talvez nem as próprias cúpulas da Ducati se tivessem atrevido a esperar… e finalmente, ainda tirou alguma pressão às equipas satélite de MotoGP para acomodar todos os pilotos Ducati que lutam por proeminência enquanto esperam nos bastidores por uma hipótese de ascender à equipa de fábrica se esta se apresentar.

Davide Tardozzi e Paolo Ciabatti, que gerem do lado desportivo os destinos das duas equipas, estão em perfeita sintonia, o ex-piloto tendo já provado que é um mestre a descobrir e nutrir novos talentos, e contando com o gestor para apoiar as suas decisões quando o candidato certo se apresenta. Assim foi com Toseland, com Hodgson, com Bayliss, e tantos outros desde então, mais recentemente com Petrucci.

A isto ajuda também o facto de, ao contrário do que se passa com todas as outras equipas de fábrica, a da Ducati não serem estruturas tão separadas como isso. A escolha está feita e mais que justificada pelo à vontade com que Bautista domina a classe… agora, as interrogações prendem-se com dois aspetos:

Poderá Bautista desenvolver a moto a ponto de outro(s) pilotos serem capazes de andar à frente com ela? Certamente, pelo lado de Chaz Davies, o galês parece ainda estar agarrado à forma de pilotar o antigo bicilíndrico em V sem conseguir extrair o máximo da mais potente e mais rápida Panigale V4…

E não terá a Ducati criado um monstro, expondo-se a limitações impostas pela Dorna em nome do equilíbrio da grelha, se a moto continuar a provar-se tão dominante a ponto de vir, mais um vez, tirar algum interesse ao campeonato?

Tudo está nas mãos de Bautista, mas não vemos este parar de vencer para disfarçar o facto de que a combinação de homem/máquina vermelha é, neste momento, quase imbatível nas SBK…

1
Deixe um comentário

Please Login to comment
1 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
1 Comment authors
TDNM Recent comment authors
recente antigo mais votado
TDNM
Membro
TDNM

Apesar de concordar acho que não se pode culpar a Ducati de nada. Afinal jogou dentro das regras. A única coisa que impede a Honda de fazer algo assim é que uma Honda de 40mil euros não se vende… até ver. Enquanto ducatis a esse preço não tem problema. Até aqui o romantismo da Ducati não permitia trair a tradição V2 mas, ser abatido por uma kawa que de origem nem é nada de especial, 4 anos seguidos, marca o orgulho de uma marca que sempre foi superbike. A Ducati não olhou a meios e fez aquilo que a kawa… Ler mais »

últimas Mundial Superbikes
últimas Motosport
AutoSport https://www.autosport.pt/wp-content/themes/maxmag/images/logo.png