A carta que eu queria ter escrito a Paulo Gonçalves

Por a 12 Janeiro 2024 13:00

Grande Paulo,

Conheço-te desde os tempos em que ambos corríamos no nacional de Motocross Iniciados em 1993. A primeira memória que tenho tua é ser “dobrado” por um “baixinho” numa Suzuki RM 80 com o n.º 4.

Eras tu! Eras pequeno para a moto mas andavas sempre ao ataque! No final desse ano, tu foste campeão e o meu pai dizia-me: “põe os olhos naquele puto! Não tem medo de nada e ‘atira-se’ para os saltos todos!”

Nos anos seguintes, fui sempre seguindo a tua evolução. Não estavas numa equipa oficial mas, mal passaste para os escalões seniores, começaste logo a obter classificações de destaque. Com 16 anos, ver-te numa pista de Supercross era de cortar a respiração… continuavas mais “baixinho” que os outros mas lançavas-te para todos os saltos tal e qual os “maiores”!

Nunca tive a hipótese de te perguntar como foi o início das tuas conversações com a Motogomes… Só te sei dizer que foi uma jogada de génio do Paulo Gomes! Eras um diamante em bruto e o Paulo sabia que, se te desse as condições que precisavas para te desenvolveres, tinhas a determinação mais que suficiente para dominares o Motocross em Portugal.

Na altura, toda a gente soube que a Motogomes te levou a um estágio com o Harry Everts em Espanha. Corriam rumores de que o Everts te disse para teres calma assim que viu a forma como atacavas a pista. E, mais tarde, veio-se a saber que nesse estágio estava lá um jovem sul-africano que tinha muita dificuldade em acompanhar o teu andamento… um tal de Grant Langston que veio a sagrar-se depois campeão do mundo de Motocross e, mais tarde, campeão norte-americano.

Dois anos depois deste estágio já discutias o título europeu de Motocross na classe 250cc. Na minha memória está aquela corrida do campeonato da Europa na Poutena em 2000 em que tu arrancaste em 12.º. Ainda a corrida não ia a meio e já tu tinhas recuperado até 2.º… mas o líder tinha mais de 10 segundos de avanço! Com a tua garra, foste ganhando tempo e, volta após volta, aproximavas-te cada vez mais e… obviamente ganhaste!

O que muitos não sabiam é que a tua hérnia discal não te deixava treinar de moto há algum tempo… No final da prova, choravas atrás do pódio com as mãos ensanguentadas por te terem rebentado as bolhas que tinhas nas palmas devido à falta de treino de moto nas semanas que antecederam a prova.

O teu espírito de sacrifício era quase sobre-humano e a tua vontade de vencer era ainda maior!

Vi ao vivo uma das muitas demonstrações dessa vontade de vencer, no Supercross de Paço dos Negros em 2006. Estavas a discutir o título de campeão de SX2 com o Henrique Venda e, no arranque, tu caíste e o “Vendaval” assumiu a liderança. À medida que ias ganhando posições, não havia uma volta em que não virasses a cabeça enquanto voavas no maior salto da pista… o que procuravas tu? Procuravas o Henrique! Todas as voltas, independentemente de teres outros pilotos à tua frente, tu apenas querias saber se estavas a ganhar tempo ao líder. Não venceste essa corrida, mas acabaste colado à traseira da moto do HV!

Uns meses mais tarde, foste representar a seleção portuguesa ao Motocross das Nações em Inglaterra. Nesse ano, 2006, tinhas feito o teu primeiro Dakar em Janeiro e a seguir mudaste para a 250F com a qual te sagraste campeão invicto de MX2. No entanto, à última hora, a FMP precisou que fosses na “quatro-e-meio”. Não eras pessoa de voltar a cara a um desafio e foste.

Uma das imagens que guardo dessa corrida é a tua determinação na manga de qualificação. Tinha chovido e tu tiveste de tirar os óculos. O peso da lama no capacete era tal que tinhas de levantar a cabeça quando passavas por nós na zona de assistência. Mas nunca paraste e contribuíste para que a seleção se apurasse para a corrida principal.

Nessa viagem, contavas com orgulho a aventura que tinha sido o teu primeiro Dakar, uns meses antes. Em particular, falaste-me da enorme queda que sofreste logo na segunda etapa que o Rally teve em Marrocos. A moto caiu dentro de uma vala e o guiador foi “arrancado” do triângulo superior da suspensão. Resolveste o problema com abraçadeiras de plástico e foste até ao fim da etapa! Mas, acima de tudo, o sacrifício que fizeste em vender o teu Audi TT foi recompensado com o facto de teres terminado o teu primeiro Dakar!

Agora é fácil olhar para trás e dizer que Portugal é atualmente um país forte nos Rally Raids. Mas, em 2006, foste tu, o Hélder Rodrigues e o Rúben Faria que começaram a escrever essa história. E, por isso, poucos imaginam os sacrifícios que vocês fizeram para colocar o nosso país “no mapa” do Dakar.

Por este motivo, na altura, julgo que nem tu, nem o Helder, nem o Rúben sonhassem que iam ter a carreira que viriam a ter nos Rally Raids. Vocês trabalharam e deixaram que fossem os resultados a falar por vocês… e o resto? O resto é história!

Da tua parte, a partir do momento que foste contratado pela Speedbrain pensei para mim: “o Paulo conseguiu! Ele já lá está e agora o mundo que se prepare para ver o que é um português pequeno em estatura mas enorme na determinação!”

E assim foi… depois da Speedbrain veio a Honda oficial e, com ela, o título de campeão do mundo de Rallies Cross Country! Sim, CAMPEÃO DO MUNDO!

Mantiveste-te focado no objetivo seguinte: vencer o Dakar. Sofreste inúmeros azares mas – tal como já tinhas feito no início da tua carreira em Portugal – o teu esforço, o teu trabalho e a tua humildade levaram-te a ganhar rapidamente o respeito de todos os teus adversários.

O 2.º lugar em 2015, as vitórias nas etapas, os dias em que lideraste a classificação geral do Dakar… em todos estes sucessos sempre vi o mesmo Paulo que conheci no início dos anos 90. O Paulo humilde, o Paulo trabalhador, o Paulo determinado, o Paulo que não aceitava que lhe dissessem que algo era impossível, o Paulo que queria vencer sempre!

Da mesma forma que eu não esqueci alguns momentos teus, tenho a certeza que toda a gente que te viu a competir ao longo dos anos tem memória de ver, nem que seja uma vez, o Paulo Gonçalves a fazer algo de sobre-humano em cima de uma moto.

Tenho pena que muitos dos atuais jovens pilotos já não possam ver um CAMPEÃO do teu calibre, um homem que fez história e que foi um exemplo dentro e fora das pistas… da minha parte, garanto-te que vou continuar a relembrar as atuais e as próximas gerações dos feitos alcançados pelo GRANDE Paulo Gonçalves!

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